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segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Os Jogos da exclusão

Baía da Guanabara

Entre os dias 5 de agosto e 18 de setembro, o Rio de Janeiro sediará os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Quando a cidade foi escolhida para sediar a competição, em 2009, muito se falou sobre a oportunidade de mudar para melhor a vida de sua população. Novas obras, mais investimentos, modernização do espaço urbano, progresso social, crescimento do turismo, etc., eram anunciados como o grande legado a ser deixado pelas Olimpíadas.

Entretanto, passados sete anos, os fatos desmentiram a propaganda oficial e o principal “legado olímpico” não será outro senão as dezenas de comunidades removidas, favelas ocupadas, inúmeros crimes ambientais e obras repletas de irregularidades. “O Rio vem lutando contra os efeitos dos megaeventos desde o Pan de 2007. Agora, chegamos ao fim de um ciclo de quase uma década, com os Jogos da exclusão. É preciso debater tudo que aconteceu no Rio e, em alguma medida, no país, mas também fortalecer a resistência contra esse modelo de cidade segregada”, defende Giselle Tanaka, membro do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, fórum que reúne centenas de movimentos, pesquisadores e ativistas, e que há anos discute os impactos sociais dos megaeventos no país.

Olimpíadas para quem?

Um dos principais legados dos Jogos será uma cidade mais segregada. Até hoje, não existem dados oficiais confiáveis sobre o número de famílias removidas de seus lares para dar lugar às obras da Copa e das Olimpíadas. A Prefeitura jamais publicou tais informações. Estima-se, porém, que mais de 77 mil pessoas perderam suas casas no Rio. Apenas três obras do chamado “legado olímpico” – o BRT Transolímpica, o BRT Transoeste e o Porto Maravilha – e as obras para reforma do Maracanã foram responsáveis pela remoção de 2.548 famílias, segundo levantamento do Comitê Popular contido no documento “Olimpíadas Rio 2016, os Jogos da exclusão”.

A Prefeitura removeu essas famílias sem nunca ter discutido com elas alternativas. Nesse processo, algumas comunidades viraram símbolos da resistência popular contra as remoções. Uma delas, a Vila Autódromo, desde 2013, sofre com ameaça de despejo. Das 600 famílias que viviam no lugar, restaram apenas 20. A maioria foi expulsa de casa para dar passagem às vias de acesso ao Parque Olímpico. “A história do Rio de Janeiro é calcada em cima de construção e expulsão daqueles que a construíram”, explica Sandra Maria, uma das moradoras que ainda permanecem na Vila Autódromo. “Os ex-escravos construíram o Centro do Rio de Janeiro e depois foram expulsos dele. A Zona Sul foi construída pelo trabalhador expulso do Centro. O pobre, no Rio de Janeiro, não tem direito a morar próximo das áreas privilegiadas. Alguém precisa mudar a história desta cidade”, afirma.

Por conta da Copa e das Olimpíadas, o Rio de Janeiro viveu o maior e mais violento processo de remoções de sua história. “Falaram que iam botar a Polícia em cima da gente, que iam derrubar a casa com a gente dentro”, relembra Eunice dos Santos, ex-moradora da Estrada da Boiuna, na Zona Oeste. Josué Lima, ex-morador da favela Metrô Mangueira, que ficava ao lado do Maracanã, não se conforma com o que aconteceu com ele e sua família: “Não gosto de lembrar, não. A gente construiu a nossa vida lá. E ver ser destruída por causa de Olimpíada não é legal. Se fosse por causa de uma guerra, por causa de uma bomba, a gente aceitaria, mas por causa de Olimpíada!”.

Obras irregulares

Outro legado dos Jogos será o gigantesco prejuízo causado aos cofres públicos. Ao todo, mais de R$ 39 bilhões serão gastos, R$ 10 bilhões a mais que o inicialmente previsto. Não estão nessa conta os milhões desviados pela corrupção ou os prejuízos causados pelo superfaturamento nas obras.

Além disso, diversas obras para os Jogos, como a Vila Olímpica e o Parque Olímpico, foram embargadas mais de 40 vezes por desrespeito às leis trabalhistas. Em agosto do ano passado, fiscais do Ministério do Trabalho chegaram a encontrar 11 operários em condições semelhantes à escravidão e ao menos 11 trabalhadores morreram no serviço.

No transporte, a via expressa transolímpica foi interditada menos de uma semana após sua inauguração, pois um viaduto está ameaçado de cair, e a ampliação das linhas do metrô continua atrasada, sem falar que seu custo já é 21 vezes maior que o inicialmente previsto em contrato.

Também nenhuma obra para despoluição da Baía da Guanabara foi concluída. A promessa era de que 80% do esgoto jogado na baía passaria a ser tratados até 2016, meta que não chegou nem a 50% do total. Já as obras para a limpeza e canalização dos rios da Bacia de Jacarepaguá pararam no final de 2015, depois de diversos atrasos. Mesmo assim, as empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia ganharam R$ 235 milhões pelo “serviço”.

Esporte prejudicado

O legado olímpico para o esporte também é questionável. O Maracanã, por exemplo, foi entregue às empresas Odebrecht, IMX e AEG num esquema já denunciado pelo Ministério Público Federal e Estadual. Ao todo, foram gastos R$ 1,34 bilhão na reforma do estádio, vendido a essas empreiteiras por apenas R$ 181 milhões, que ainda serão pagos em 30 anos.

O estádio faz parte de um complexo que também inclui o Parque Aquático Julio Delamare e o Estádio de Atletismo Célio de Barros, ambos fechados desde a Copa, servindo de depósito de material e estacionamento. Isso levou centenas de atletas profissionais e amadores a ficarem sem locais de treino. Muitos mudaram para o Engenhão, mas esse também teve que ser fechado em 2013, sob o risco de desabar.

No caso do Parque Olímpico, em Deodoro, várias estruturas construídas serão desmontadas após as Olimpíadas. As demais serão privatizadas.

Cidade militarizada

Os Jogos também deixarão como legado uma cidade ainda mais militarizada. Hoje, o orçamento da Segurança Pública do Estado do Rio já é maior que o da Saúde e Educação. Com a crise, o Governo Estadual deixou de pagar o funcionalismo, mas não retirou um centavo da Segurança, e ainda conseguiu um empréstimo R$ 2,9 bilhões com o Governo Federal, dinheiro que foi todo para o aparato repressivo nas Olimpíadas.

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) foram inseridas em regiões estratégicas para a segurança da Copa e das Olimpíadas e sempre tiveram como objetivo o controle da população pobre das favelas.

Para o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, os megaeventos também são sinônimos de mais assassinatos cometidos por policiais. Eles aumentaram 40% em 2014, ano da Copa, em relação a 2013. E na comparação de maio de 2016 com maio de 2015 o crescimento foi de 135%, saindo de 17 para 40 mortos.

Quem pagará a conta?

As Olimpíadas foram criadas na Grécia antiga e eram uma grande confraternização entre os povos. Guerras chegavam a ser suspensas para que os Jogos acontecessem. Sediar uma Olimpíada era uma honra para qualquer país. Hoje, porém, o capitalismo mercantilizou a realização das Olimpíadas. O esporte passou para segundo plano. O que importa mesmo é o lucro.

Segundo o economista Andrew Zimbalist, autor do livro “Circus Maximus: O jogo econômico por trás das Olimpíadas e da Copa do Mundo”, cada Olimpíada custa, em média, 252% a mais do que o previsto. Os Jogos de Londres de 2012, por exemplo, custaram US$ 18 bilhões, e a previsão inicial era de U$S 6 bilhões. Segundo ele, isso acontece porque as cidades-sede apresentam propostas com orçamentos baixos demais para ganhar o apoio da população, que irá pagar os custos excedentes depois.

É o que vemos no Rio de Janeiro, onde o funcionalismo público tem convivido nos últimos meses com atrasos dos salários, precarização das condições de trabalho e a incerteza do recebimento no próximo mês.

Independente de quantas medalhas nossos atletas conquistem, as Olimpíadas do Rio serão lembradas pela triste marca de terem sido os Jogos da exclusão.

Heron Barroso, Rio de Janeiro

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