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Terceirizados denunciam condições de trabalho

Jornal A Verdade, edição nº 222, novembro de 2019, Página 08.

Eliana Gomes


Foto: Jornal A Verdade

SÃO PAULO – Refletindo as relações de trabalho cada vez mais vulnerabilizadas dentro do sistema capitalista, a terceirização se constitui como um método de emprego da mão de obra em que uma empresa contrata o serviço de outra, especializada em fornecer funcionários terceirizados para realizar tarefas como limpeza, segurança, fretamento, etc. Nesse processo, a empresa que contrata o serviço utiliza a força de trabalho e se beneficia da mão de obra contratada. As trabalhadoras e os trabalhadores mais pobres, majoritariamente negros, em situação de desespero, são obrigados a aceitar qualquer condição de trabalho, sem garantia de vínculos trabalhistas, recebendo salários que mal servem para pagar as contas.

Diante disso, o Jornal A Verdade conversou com trabalhadores terceirizados da Universidade Federal do ABC (UFABC) para ouvir seus relatos e percepções sobre o trabalho terceirizado e os ataques aos direitos trabalhistas. Para preservar os trabalhadores, os nomes aqui apresentados são fictícios.

Antônio, 32 anos de idade e dois de profissão, é funcionário da limpeza na UFABC. Quando perguntado sobre seu cargo, desabafa: “É uma profissão que eles pagam pouco, pagam um salário certo, mas é uma profissão que no meio da sociedade é desvalorizada. É isso que eu acho errado […] é uma profissão como todas, mas é uma profissão que é desvalorizada pela sociedade”.

Por não se constituírem como atividades-fim nas empresas e instituições públicas, a maior parte dos cargos de limpeza são terceirizados. Assim, os trabalhadores desse setor sofrem com a dupla exploração: exercem um ofício, em geral, desvalorizado pela sociedade e sofrem as dificuldades do serviço terceirizado (carência de direitos trabalhistas e vínculos de trabalho, alta rotatividade, baixos salários etc.).

Nesse sentido, Antônio se mostra preocupado: “Todas as firmas terceirizadas são assim; hoje você tá bem, amanhã você não sabe onde vai estar. É uma caixa de surpresa, sabe? E é assim pra pior… […] Porque a gente tá trabalhando, e quem não tá? Eu tenho dó de quem tá aí fora procurando, que aí fora tá difícil, e não é só pra mim não, é pra todo mundo. Não sei quantos milhões de desempregados, tá batendo recorde”.

Maria, 31 anos de idade, cerca de um ano de profissão, está em seu primeiro emprego com carteira assinada e também demonstra preocupação com a situação política e econômica do país, sobretudo no que se refere à Reforma da Previdência: “Algumas pessoas dizem que é pro nosso bem, que algumas coisas favorecem a gente, mas eu não acho, não concordo, não […]. Eu acho que vai ficar pior pra gente. No caso, a gente não vai chegar talvez a se aposentar, já vai morrer antes, né, porque pelo tempo que eles tá querendo pedir pra gente se aposentar, é um absurdo. Eles querem mais é que a gente se exploda, eles só pensam no umbigo deles, na roubalheira deles, só isso, e quem sai perdendo é a gente, infelizmente, somos nós que perde”.

Para Maria, a Reforma da Previdência – implantada pelo Governo Bolsonaro – representa o fim da esperança de aposentadoria. Essa preocupação é evidente, sobretudo, entre as trabalhadoras terceirizadas, que, geralmente, exercem o trabalho doméstico não remunerado em seus lares e no emprego formal são as mais exploradas, as que recebem os menores salários e que estão submetidas ao assédio por parte de estudantes, docentes e demais funcionários da universidade.

Para essas trabalhadoras, o próprio trajeto até o campus é complicado. A UFABC está localizada no alto de uma ladeira mal iluminada e deserta e, até pouco tempo, apenas um ônibus municipal realizava o percurso da avenida até a Universidade: “Eu subia aqui às 5h20 da manhã sozinha, mas eu subia morrendo de medo. Muitas vezes, eu subi chorando, porque eu tinha muito medo e não tinha ninguém pra vir comigo, e eu era novata, eu tinha que subir de todo jeito, então eu subia”.

Enquanto empresários lucram com a exploração do trabalhador e governos defendem vantagens para os capitalistas à custa do povo, os trabalhadores, que precisam sobreviver, seguem construindo diariamente as riquezas do país. E na UFABC não é diferente. Diante disso, trabalhadores terceirizados e estudantes têm se unido em defesa de seus direitos. Como bem disse Antônio, “se nós não tomarmos uma providência, quem que vai tomar? Não adianta ir dez pra guerra e vinte ficar pra trás. Porque se for pra guerra tem que ir todo mundo. Pra luta tem que ir todo mundo”.

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