UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 26 de maio de 2024

Golpe abre caminho para fascismo na Bolívia

Reportagem anexada na edição 223 do jornal impresso, página 09.

Heron Barroso


Foto: Reprodução/Getty Images

La Paz – O golpe que levou à renúncia do presidente boliviano Evo Morales no último dia 10 de dezembro coloca diante dos revolucionários e dos povos latino-americanos a necessidade de uma séria reflexão sobre os limites da democracia burguesa e dos chamados “governos progressistas” da região. 

Morales foi eleito para seu primeiro mandato em 2006 pelo Movimento ao Socialismo (MAS). Foi o presidente boliviano que mais tempo permaneceu no cargo, num país marcado pela instabilidade política e por dezenas de golpes militares patrocinados pelos Estados Unidos e suas multinacionais.

Neste período, os principais setores da economia foram nacionalizados, levando o país a crescer em média 5% ao ano e a população abaixo da linha de pobreza cair de 63% para 35%, de acordo com o Banco Mundial.

Em 2009, uma mudança na Constituição permitiu a reeleição do presidente Evo Morales por mais dois mandatos, em 2010 e 2014. Em 2016, um referendo tentou modificar novamente a lei em favor de uma nova reeleição em 2019. Porém, a proposta foi rejeitada pelos eleitores por uma pequena diferença de votos. 

Apesar disso, em 2017, o Tribunal Constitucional boliviano considerou uma “violação dos direitos humanos” o limite de dois mandatos presidenciais, e permitiu que Evo pudesse se candidatar novamente.

A decisão, que contrariou o resultado da consulta popular, deu o argumento que faltava à oposição e aos grandes meios de comunicação burgueses para ganhar parte da opinião pública e radicalizar a luta contra o governo do MAS. 

Veio a eleição, em 20 de outubro, e Evo Morales venceu no primeiro turno com 47,08% dos votos, contra 36,51% do ex-presidente Carlos Mesa (na Bolívia, para vencer no primeiro turno, são necessários 40% dos votos, com uma diferença de 10 pontos sobre o segundo colocado).

A oposição não aceitou o resultado, alegando fraude na apuração dos votos. Lideradas pelo radical de extrema-direita Fernando “Macho” Camacho, do Comitê Cívico de Santa Cruz, manifestações contra a reeleição de Evo foram promovidas nas principais cidades do país. Num primeiro momento, a resposta do governo foi reprimir os protestos. Sem resultado. Todos os dias novos atos eram convocados e o conflito se radicalizava. Grupos paramilitares começaram a sequestrar lideranças populares e indígenas e familiares de ministros, deputados, prefeitos e governadores aliados de Evo para forçar suas renúncias.

O crescimento das manifestações e da violência praticada pela extrema-direita levaram Morales ao seu primeiro recuo: concordar em uma auditoria dos votos promovida pela famigerada Organização dos Estados Americanos (OEA), comprometendo-se a respeitar seu resultado.

A auditoria da OEA, como não poderia deixar de ser, indicou irregularidades nas eleições de outubro. Veio o segundo recuo: em 9 de novembro, Evo convoca novas eleições e substitui todos os membros do Tribunal Supremo Eleitoral, composto por seus aliados. “Depois de escutar a COB (Central Operária da Bolívia), o Pacto de Unidade e distintos setores do campo e da cidade, decidimos solicitar que a Assembleia Legislativa, dentro do princípio constitucional de coordenação, renove o TSE em sua totalidade para convocar novas eleições nacionais”, afirmou o então presidente. 

Mesmo com a convocação de novas eleições, o candidato derrotado, Carlos Mesa, seguiu acusando Evo de fraude e exigindo sua renúncia ao cargo.

Morales passou, então, a enfrentar o crescimento dos protestos nas ruas e uma série de motins policiais organizados pela oposição, que contava com apoio do Departamento de Estado dos EUA, do governo de Israel e do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, entre outros. 

Percebendo que o golpe ganhava força e se tornava irreversível, o chefe das Forças Armadas, general Williams Kaliman, pede a renúncia de Evo. “Ante a escalada de conflito que afeta o país, visando a vida e a segurança da população, a garantia da Constituição, […] sugerimos ao presidente de Estado que renuncie seu mandato presidencial permitindo a pacificação e a manutenção da estabilidade pelo bem da nossa Bolívia”, declarou.

No dia 10 de novembro, veio o terceiro e último recuo: Evo perde o apoio da COB e renuncia para “para que não sigam incendiando casas, intimidando e ameaçando nossas famílias”. 

Entretanto, o apelo do agora ex-presidente não foi ouvido. Com sua renúncia, a perseguição a seus partidários e apoiadores se intensificou. Sobre os gritos de “viva a democracia” e “pela glória de Deus”, ministros do Tribunal Supremo Eleitoral foram presos e espancados pela polícia, e o próprio Evo foi declarado foragido e sua casa assaltada, assim como a de muitas outras autoridades governamentais e lideranças sindicais e indígenas.

Evo decide, então, sair do país e pede asilo político ao México, abandonado seus companheiros e milhões de bolivianos. A senadora Jeanine Añez se autoproclama presidente e é imediatamente reconhecida pelos governos dos Estados Unidos e Brasil, apesar de não ter tido um único voto do povo. Está consolidado o golpe e um governo fascista na Bolívia, resultado de um acúmulo de ações dirigidas pela burguesia e pelo imperialismo, que nunca tiveram a real intenção de promover novas eleições ou construir uma saída pacífica para a crise política. O objetivo sempre foi derrubar o governo, aumentar a exploração sobre os trabalhadores e se apossar mais facilmente das enormes riquezas naturais da Bolívia e de seu território estratégico. 

De fato, a Bolívia possui as maiores reservas mundiais de índio, um metal raro derivado do zinco e fundamental para a produção de telas de LCD de celulares, TVs e computadores, e de lítio, uma das matérias-primas mais importantes da indústria moderna.

Além disso, a queda do governo Evo Morales também fortalece a estratégia do imperialismo norte-americano para impedir o avanço da influência política e econômica da China e da Rússia no continente (o comércio de ambos os países com a Bolívia representa 21% das importações daquele país e cresceu 30 vezes desde o ano 2000).

Por fim, o golpe ajuda a tirar da defensiva a extrema-direita latino-americana, desmoralizada pela resistência na Venezuela e acuada pela onda de manifestações que tomam as ruas de diversos países (Porto Rico, Haiti, Equador, Chile, Colômbia…) contra as políticas econômicas neoliberais.

Nos dias que se seguiram à renúncia, apoiadores do ex-presidente promoveram manifestações contra o golpe e chamando o povo à luta sob os gritos de “agora sim, guerra civil!”. Barricadas chegaram a ser erguidas, mas o próprio Evo tratou logo de desmobilizar a resistência. “Peço a meu povo, com muito carinho e respeito, que cuide da paz e não caia na violência de grupos que buscam destruir o Estado de Direito. Não podemos nos enfrentar entre irmãos bolivianos. Faço um chamado urgente para que se resolva qualquer diferença com o diálogo”, defendeu.

 Essa atitude conciliatória de Morales revela uma profunda ilusão de classe na democracia burguesa e em suas instituições, além de ter desarmado política e ideologicamente o povo boliviano disposto a lutar e resistir ao golpe fascista. 

Por que seguir acreditando no Estado de Direito burguês se nem mesmo a própria burguesia tem mais pudor em rompê-lo quando lhe convém? Como esperar paz daqueles que agem o tempo todo com violência? Se havia um golpe em curso por que não se chamou o povo às ruas para denunciar os golpistas e derrotar seus planos? 

Alguns setores da esquerda afirmam que Evo foi corajoso ao renunciar, pois assim conteria a violência. No Brasil, em 1964, João Goulart também se exilou para supostamente “evitar um banho de sangue”, mas o único sangue poupado foi o das elites e dos generais. Por 21 longos anos, o sangue de centenas de revolucionários como Manoel Lisboa, Carlos Marighella e Iara Iaverlberg foi derramado nos porões da ditadura militar e até hoje seus assassinos seguem impunes. 

O fato é que a luta de classes é a mais dura e cruel luta que existe. Não podemos esperar da burguesia e do imperialismo que tratem os povos com flores e sorrisos. Na luta contra a dominação capitalista sempre estará em risco a vida e o bem-estar dos revolucionários; esse sacrifício é o preço a pagar pela liberdade. 

Apesar de tudo, o povo boliviano não está completamente derrotado. É um povo corajoso e, com certeza, se recuperará do golpe e da traição para seguir lutando pela soberania, independência e por um futuro digno para seu país.

Outros Artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Matérias recentes