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domingo, 2 de outubro de 2022

Crime da Vale e do Estado: um ano de impunidade

Torna-se imperativo ético conquistarmos outras formas de trabalho que interrompam a máquina mortífera das mineradoras que estão fazendo guerra contra os povos, contra a mãe natureza, contra todos os animais e toda espécie de ser vivo.

Gilvander Moreira
Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.


Foto: Reprodução

BELO HORIZONTE – Dia 25 de janeiro de 2020, às 12h28, completou exatamente um ano do crime/tragédia da mineradora Vale, com autorização do Estado, em Brumadinho, MG. Em luto e luta, realizamos a 1ª Romaria da Arquidiocese de Belo Horizonte pela Ecologia Integral a Brumadinho, romaria de solidariedade e luta por justiça, em sintonia com as orientações do papa Francisco, com a Encíclica Laudato Si e com o Sínodo da Igreja para a Amazônia, que conclama para a necessidade de vários tipos de conversão, entre as quais, conversão ecológica. Tudo está interligado. Por isso, exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e um compromisso constante pelos problemas da sociedade”, afirma o Papa Francisco, na Laudato Si, n. 91.

Dia 25 de janeiro de 2020, um sábado, das 8 horas às 21 horas, na cidade de Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, MG, foi um dia muito marcante para quem esteve lá, pois completou um ano do crime/tragédia que foi o rompimento da barragem da mineradora Vale com rejeitos minerários – lama tóxica –, em Córrego do Feijão, sepultando vivas 272 pessoas e matando o Rio Paraopeba. Os corpos de 11 ‘joias’, como são carinhosamente chamadas estas pessoas martirizadas, ainda continuam desaparecidos debaixo da lama tóxica. Além da Romaria organizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte, Cáritas, CPT, CIMI, CEBs e outras pastorais, aconteceu também, em profunda comunhão: a) Marcha do Movimento dos Atingidos por Barragens, de Pompéu a Brumadinho, de 20 a 25/01/2020, 300 quilômetros, passando por várias comunidades ribeirinhas do Paraopeba; b) Dois Momentos Culturais com vários artistas que se apresentaram gratuitamente, por amor ao próximo. Foi arte, poesia, música, teatro – cultura popular – fortalecendo a luta justa, necessária e urgente por Justiça Socioambiental; c) Lançamento do Livro Brumadinho – 25 é todo dia, de Dom Vicente Ferreira, Ed. Expressão Popular, um livro que dá voz aos atingidos pelo crime da Vale e do Estado, questiona com prosa e poesia o sistema minerário criminoso que causa tantos danos socioambientais, um grito que virou escrito e ecoará até que reparação integral aconteça. Livro de leitura atenta indispensável.

O crime/tragédia não aconteceu só no dia 25 de janeiro de 2019, às 12h28, em uma sexta-feira que se tornou mais uma “sexta-feira da paixão”, mas é um crime continuado, que está se reproduzindo de forma crescente. Melhor dizendo, iniciou na tarde do dia 05 de novembro de 2015, no Município de Mariana, MG, pois a impunidade do crime/tragédia acontecido a partir do distrito de Bento Rodrigues alimentou a construção de outros crimes como o da Vale, a partir de Brumadinho. Com o passar do tempo, rastros de morte vão sendo percebidos e se avolumando em todo o Município de Brumadinho, em Belo Horizonte, Região Metropolitana de Belo Horizonte e na bacia do Rio Paraopeba.

O massacre de pessoas humanas – entre elas, trabalhadores e trabalhadoras – chegou a 272 vidas no dia 25 de janeiro de 2019, às 12h28, mas várias outras pessoas morreram posteriormente afetadas dramaticamente por esse crime. O crime deu um tiro de misericórdia no Rio Paraopeba, matando-o e, pior, envenenando-o. O tamanho do crime continua imensurável, pois se expande todos os dias. A bacia do rio representa 5,17% da bacia do Rio São Francisco, tem 510 quilômetros de extensão e bacia envolvendo mais de 1,3 milhão de habitantes (IBGE), em 13.643 km. O Rio Paraopeba (do tupi, pará = rio grande, mar, e peba = aquilo que é plano, chato) é um dos principais afluentes do Rio São Francisco, irriga 48 municípios e deságua na barragem da hidrelétrica de Três Marias, MG, no Município de Felixlândia.

Com as chuvas da penúltima semana de janeiro, o Rio Paraopeba e o Rio Doce transbordaram para além das enchentes comuns. Com isso, poços artesianos nas bacias do Paraopeba e do Doce ficaram inundados, o que possivelmente tenha contaminado com metais pesados seus lençóis freáticos. A barragem de Retiro de Baixo teve que abrir as comportas e agora parte da lama tóxica do Rio Paraopeba, com certeza, já está no Rio São Francisco, o que é mais uma punhalada de proporções inimagináveis. Assim, o crime continuado da Vale e do Estado só cresce.

Nos Acampamentos Pátria Livre e Zequinha, do MST, com 700 famílias sem terra, em São Joaquim de Bicas, à margem esquerda do Rio Paraopeba, a jusante de Brumadinho e ao lado do Município de Mário Campos, o agricultor Manoel desabafa, com lágrimas escorrendo dos olhos: “O Rio Paraopeba era nosso pai. Mataram nosso pai. Todos os dias, uma infinidade de pássaros fazia revoada aqui no rio, em voos rasantes se banhavam no rio. Os pássaros sumiram e os urubus chegaram”.

A agente de saúde Suely, integrante do MST em São Joaquim de Bicas, lembra com tristeza: “Além de prestar os primeiros socorros e receitar medicina caseira e das plantas para as 700 famílias aqui do Acampamento Pátria Livre, eu propunha às pessoas depressivas que fossem banhar no Rio Paraopeba e meditar nas suas margens. Nosso rio já curou muitas pessoas. E agora com o rio morto? Até as pacas morreram, após ficarem com os corpos feridos”. 

Em regime de agricultura familiar, milhares de pequenos produtores que viviam e plantavam hortaliças e legumes na mãe terra banhada pelo Rio Paraopeba, ficaram aflitos, pois as hortas, antes irrigadas com água do rio, morreram. Tentar irrigar com caminhões-pipas é paliativo. Buscar água onde? Além de palco de intenso processo de mineração, os Municípios de Brumadinho, Mário Campos, Sarzedo, Ibirité e região eram áreas produtoras de alimentos para abastecer Belo Horizonte e Região Metropolitana. 

Diante da crise hídrica e do racionamento de água já anunciado pela Copasa e de tanta mortandade que a mineração criminosa e devastadora vem perpetrando em Minas Gerais, no Pará e em outros estados, torna-se imperativo ético conquistarmos outras formas de trabalho que interrompam a máquina mortífera das mineradoras que estão fazendo guerra contra os povos, contra a mãe natureza, contra todos os animais e toda espécie de ser vivo. De fato, a empresa transnacional mineradora Vale, atualmente, não tem apenas 70 mil trabalhadores atuando em 32 países, mas tem um exército de 70 mil soldados fazendo guerra em 32 países contra a mãe terra, a irmã água, os povos, todos os seres vivos e contra as próximas gerações, inclusive. É inadmissível que o Ministério Público, Estadual e Federal, e o Poder Judiciário ainda não tenham prendido todos os 21 apontados como culpados pelo crime, segundo as CPIs da Assembleia Legislativa de Minas e Câmara Federal. Dia 21 de janeiro de 2020, até que enfim, o Ministério Público de Minas Gerais e a Polícia Civil denunciaram criminalmente a mineradora Vale, a empresa Tuv Sud por crimes ambientais e 16 pessoas por homicídio doloso (qualificado).

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