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Filme “O Poço”: o capitalismo e suas prisões verticais

Foto: Netflix / Divulgação

 Por Gabriela Almeida

 Contém spoiler

“Há três tipos de pessoas. As de cima. As de baixo. E as que caem.”

 “O poço” é um filme de suspense produzido pela Netflix lançado nessa última sexta-feira (20). O filme começa nos apresentando o que aparenta ser o gerente de um restaurante avaliando se seus funcionários estão produzindo os pratos a serem servidos, espera-se que estejam de maneira impecável. Na cena seguinte, em paralelo, nos deparamos com Goreng (Ivan Massagué) acordando em uma espécie de prisão vertical com seu “companheiro de cela” Trimagasi (Zoron Eguileor). Trimagasi faz a pergunta chave em que toda a trama se baseia “O que vamos comer?”, e logo responde “O que sobrar do nível acima, óbvio”.

A prisão é dividida em níveis que, segundo Trimagasi, variam de 1 a 200. Alegando ele terem tido sorte de estarem no nível 48, pois este é classificado como intermediário. A dinâmica do “poço” gira em torno de um banquete extraordinário, no nível 1 é claro. Os demais níveis comem os restos do nível anterior, por consequência, a partir do nível 100 não há mais nenhum resto de alimento.

Quando Goreng descobre como o “Poço” funciona, diz que precisam contatar os outros níveis para que possam racionar a comida ao que Trimagasi questiona: “Você é comunista? Os de cima não escutam comunistas”. Não é difícil fazer um paralelo com nossa realidade, e em tempos em que as crises do capitalismo se acirram fica mais que evidente as imensas contradições desse sistema. Um exemplo simples é o momento em que estamos vivendo, poucas pessoas têm o luxo de não se preocuparem se haverá comida em suas mesas no dia seguinte ao estarem em quarentena – quanto mais acima nos níveis, melhor o banquete. Enquanto isso, milhares de trabalhadores têm seus direitos cortados e/ou não pararam de trabalhar em meio à pandemia do coronavírus para garantir o pão de cada dia, como é o caso sobretudo dos trabalhadores autônomos. A classe trabalhadora morre para garantir a saúde e bem-estar da burguesia.

No “poço” não é diferente. Aqueles que estão acima, mesmo sabendo que há outros em baixo, não hesitam em comer mais do que o necessário. E não se importam, mesmo sabendo que no próximo mês poderão estar em um nível que não restará nada além de louças vazias, “aproveitando” enquanto podem. Esse comportamento pode ser associado à pequena burguesia, àqueles que sonham em ser ricos, mas que a qualquer momento podem cair. Enquanto isso a real posição de privilégio é daqueles que estão além do poço, aqueles que o controlam, os que “permitem” o lindo banquete.

“Há três tipos de pessoas. As de cima. As de baixo. E as que caem”, é assim que a ideologia capitalista funciona, estimulando ao máximo o individualismo do ser humano, fazendo ele acreditar que pode subir de nível, mas que para isso precisa sobreviver à competição entre os seus e, o principal, ser o melhor, mas sem garantia de que dará certo.

Em dado momento do filme, Goreng tem a ideia de mandar uma mensagem para os administradores do poço fazendo o racionamento dos alimentos até chegar no último nível, por isso, decide descer os níveis junto com seu “companheiro de cela” – que nesse momento já mudou algumas vezes – chamado Baharat. Ambos encontram uma garotinha no nível 333 (sim, há mais níveis abaixo do 200) e consentem que ela é a mensagem para os administradores.

Afinal, em meio a tanta desordem e caos, a garotinha continua viva, mesmo no último nível dessa cadeia vertical. Fazendo uma metáfora com a nossa realidade, seria essa garotinha a esperança de mudança desse sistema assassino? Em tempos de pandemia, fica mais do que evidente o quanto a vida de um depende de todos, o individualismo que o capitalismo tanto prega cai por terra e se vira contra quem mais precisa de ajuda. Por isso, precisamos nos organizar enquanto classe trabalhadora para pôr fim a esse sistema que nos coloca uns contra os outros na tentativa de dividir nossa classe e impedir à tomada do poder pelo povo, nos levando para os níveis mais baixos dessa prisão vertical.

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