UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A parasita da família Lundgren da cidade de Paulista (PE)

Por João Miguel
União da Juventude Rebelião

A família Lundgren, que é taxada pela mídia burguesa de ter levado “desenvolvimento” às cidades de Paulista, no Estado de Pernambuco, e de Rio Tinto, na Paraíba, esconde um passado sombrio – passado este que se encontra enraizado nas construções das fábricas têxteis da família nas regiões. O patriarca da família, Herman Lundgren, um imigrante sueco, se estabeleceu em Paulista na época que o local ainda era município de Olinda, no início do século XX. Lá, Herman comprou a firma Rodrigues & Lima, que se encontrava quase falida, para transformá-la numa indústria têxtil e encabeçou a construção de duas vilas operárias na região para abrigar os trabalhadores. É o início da história da Companhia de Tecidos, que se tornou uma das maiores indústrias têxteis do Brasil e também foi palco de uma intensa luta operária que reflete nos dias atuais, mesmo após seu desligamento.

Com a compra da firma Rodrigues & Lima, é fundada a Companhia de Tecidos Paulista – também chamada pelo nome abreviado de CTP -, que se torna a matriz da Companhia de Tecidos de Herman Lundgren e sua família, que logo mais iria expandir seus negócios no estado da Paraíba. Após a morte de Herman, em 1907, seu filho, o coronel Frederico Lundgren, assume o controle da Companhia de Tecidos Paulista. Após 10 anos da morte de seu pai, em 1917, Frederico decide instalar uma filial da Companhia de Tecidos em Rio Tinto, na Paraíba. 

A família Lundgren fez com que funcionassem nas indústrias de Paulista e Rio Tinto um sistema de “fábrica com vila operária” para que pudessem exercer o poder da dominação mais facilmente, assim o acesso à moradia e a utilização dos rios, da coleta de lenha e terras para cultivo estariam ligados a empregação nas fábricas. As casas, clubes e escolas ficavam a poucos metros das fábricas para que os Lundgren pudessem controlar também o tempo livre do operariado local. A dominação territorial dos Lundgren, em Paulista, era desde o centro da cidade, onde se localizava a Companhia, e se estendia até as faixas litorâneas. Já em Rio Tinto, a região juntamente com a vila se encontrava bem distante da capital do estado – isso somado aos acordos entreguistas do presidente da Paraíba, só reforçava o poder dos empresários. Todo esse poderio administrativo e espacial funcionava como uma espécie de feudo, onde tinha a família Lundgren como centrais nisso tudo. A vida e a morte dos operários aconteciam dentro dessas vilas operárias, dentro de um sistema imposto pela família de empresários.

Os Lundgren regravam tudo com mão de ferro, e a detenção deste poder era facilmente mascarada com os meios de comunicação da burguesia que sempre enalteciam a família como exemplo de progresso e desenvolvimento, e pelo fato da família vir da Suécia, acabava se tornando mais uma forma de exaltá-los, como se ser europeu fosse sinônimo de cordialidade. A “benevolência patronal” dos Lundgren eram, e ainda são, constantemente propagados pelos meios de comunicação burguês, o que acaba escondendo toda uma luta efervescente que se desenrolou dentro dessas cidades. Marx e Engels atestam no Manifesto do Partido Comunista que o desenvolvimento das indústrias fazem com que a classe trabalhadora – o proletariado – se multiplique na mesma medida que as condições de trabalho pioram. Isso leva o proletariado a enfrentar o patronato por meio de greves, embates e sindicatos. E é o que acontece nas indústrias da Companhia de Tecidos, tanto em Paulista como em Rio Tinto. No período entre 1930 a 1950, os trabalhadores das indústrias têxteis dos Lundgren começam a formar consciência de classe em razão das más condições de trabalho, que resultou na formação de sindicatos e também a inúmeros episódios de greves e embates entre patrões e trabalhadores. Após a morte de Frederico, seu irmão Arthur Lundgren assume a direção das indústrias em 1946, no período em que as questões da luta sindical começavam a se desenrolar dentro e fora das fábricas, onde o mesmo tentava suprimir toda essa luta.

O surgimento da CLT e da Justiça do Trabalho só reforçou mais as reivindicações dos operários já que muitos deles não estavam atrelados a alguma militância, então acabavam recorrendo a esses órgãos. Muitas das reivindicações feitas na Justiça do Trabalho pelos trabalhadores das fábricas estão atreladas a jornada de 8 horas – que já era prevista na CLT mas não eram cumpridas nas fábricas – e ao pagamento pelas horas noturnas e complementares. Karl Marx, em sua obra O Capital, aborda como mulheres e crianças foram usadas nas indústrias do século XIX como mão de obra mais barata que a dos homens adultos. Não foi diferente com as operárias da Companhia de Tecidos, onde muitas relataram receber menos que os homens, que já recebiam pouco, para trabalhar várias horas e desmaiavam de fome durante o serviço. Isso sem falar nos casos de agressões físicas e sexuais dentro dessas indústrias. Anna Maria Litwak Neves, em sua pesquisa intitulada “O direito que temos é o de morrer de fome – Os operários da Companhia de Tecidos Paulista e a busca por direitos na Justiça do Trabalho (1950-1952)” mostra que as mulheres operárias protagonizaram a luta nas fábricas da Companhia de Tecidos: em 13 de janeiro de 1952, 800 trabalhadores da Fábrica Aurora – que fazia parte do complexo industrial da Companhia de Tecidos Paulista -, de maioria sendo do sexo feminino, entraram de greve por não receberem o seu salário. 

Na filial de Rio Tinto, é visto que muitos dos trabalhadores vinculados a política sindical em oposição aos Lundgren acabavam sendo demitidos e despejados da vila operária, como mostra o professor Eltern Campina Vale em um artigo intitulado “Os Usos da Justiça na Busca por Direitos: Estratégias de Reivindicação Operária na Cidade-Fábrica Rio Tinto (Paraíba, 1959-1964)”. Os despejados tentavam negociar com Pedro Monteiro, gerente imobiliário, porém o mesmo sempre respondia os operários de forma desumana, como aconteceu com o trabalhador Nilson F. de Lira que fala para o gerente imobiliário que “não tem onde morar”, e como resposta recebe um ríspido: “então vá morar debaixo de uma ponte!”

As ações trabalhistas, greves, e mudanças tecnológicas, enfraqueceram mais e mais o funcionamento da Companhia de Tecidos Paulista e Rio Tinto, que culminou no fechamento das mesmas no final do século passado. Porém, o conflito da classe trabalhadora com a família Lundgren não acaba por aí. 

Em 2017, herdeiros da família Lundgren acionam a Justiça para o despejo de 1.200 famílias da cidade de Rio Tinto. Segundo os Lundgren, o terreno onde antes funcionava a CTRT juntamente com seu sistema de vila operária, ainda os pertencem e querem vender o terreno para um grupo de Portugal. Oficiais da Justiça, como sempre a favor da burguesia, até compareceram no local em agosto do mesmo ano para realizar o despejo, mas a retirada não foi cumprida pois os moradores do local se mobilizaram para evitar o despejo das famílias. O Movimento Liberta Rio Tinto representou as famílias numa audiência alegando que o terreno não pertencem mais aos Lundgren e sim a União. É alegado que o terreno, antes da construção da Companhia de Tecidos, recebia forte influência da maré, então os Lundgren realizaram um processo de dragagem para desviar o curso do rio para poder cessar os alagamentos. Se isso for comprovado, o terreno passa a ser da União e deverão ser repassadas às famílias que ocupam o local atualmente.

Os moradores de Rio Tinto, sendo a maioria ex-operários ou descendentes de ex-operários, pagam aluguéis aos Lundgren há CINCO GERAÇÕES e esses moradores reivindicam o repasse das moradias para a população ou que elas sejam vendidas a preço simbólicos. Para evitar o despejo, alguns moradores optaram por comprar seus imóveis mas denunciaram que os preços negociados foram extremamente abusivos e que não simbolizava o tempo de pagamento de aluguel aos Lundgren. José Augusto Meirelles, o consultor da CTRT, declarou ao Correio da Paraíba que com a compra dos imóveis, a Companhia suspende as ações judiciais de despejo para tornar a negociação “amigável”. Amigável para quem? Ou seja, para não serem expulsos das casas, que deveriam ser da classe trabalhadora por direito, os moradores de Rio Tinto devem pagar o preço dos imóveis que é proposto pelos Lundgren sem levar em consideração o tempo que esses ex-operários passaram sendo explorados dentro dessas indústrias têxteis. 

O calor incessante nas salas, ou melhor, nas jaulas trancafiadas da CTP e da CTRT, das engrenagens quentes que passavam dias e noites ligadas, das mãos que conduziam as máquinas de tecelagem, do sangue jorrado no chão após uma fatalidade típica da condição local, e aos milhares de famintos com suor vivo descendo no rosto: foram estes que fizeram a Companhia de Tecidos Paulista, Rio Tinto e tantas outras indústrias funcionarem; estes que foram, e ainda são, forçados a manter a riqueza dos Lundgren intacta; são estes, a classe proletária internacional, que alimentam o motor da história, pois são forçados a vender a sua mão de obra para a burguesia.

As ruínas da Companhia de Tecidos Paulista e Rio Tinto ainda existem atualmente. As chaminés das indústrias, que ainda estão de pé, antigamente expeliam vapor a todo instante. Hoje em dia não funcionam mais e simbolizam, como diz o hino da cidade de Paulista, a “graça” e o labor desses locais. Mas, a “graça” de quem?

Quando vejo as chaminés é como se eu estivesse enxergando um fantasma, mas sei que é muito pior. As chaminés da antiga Companhia de Tecidos são o reflexo da burguesia: são resistentes como os grossos tijolos que as compõem, são gigantes quando olhadas de baixo, mas que depende de uma base para continuar em pé e uma massiva mão de obra para continuar sua operação – sem a classe trabalhadora, a burguesia perde todo o seu sentido.

Referências:

NEVES​, Anna Maria Litwak. O direito que temos é o de morrer de fome – Os operários da Companhia de Tecidos Paulista e a busca por direitos na Justiça do Trabalho (1950-1952). https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/34417

VALE​, Eltern Campina. Os Usos da Justiça na Busca por Direitos: Estratégias de Reivindicação Operária na Cidade-Fábrica Rio Tinto (Paraíba, 1959-1964). ​Revista Mundos do Trabalho​, vol. 2, n. 3, janeiro-julho de 2010, p. 261-280. https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/download/1984-9222.2010v2n3p261/13426

SANTOS​, Letícia de Carvalho. Pesquisa etnográfica e historiográfica: o caso das mulheres operárias da Companhia de Tecidos Rio Tinto.  http://www.ufpb.br/evento/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/738/749

 MARX​, Karl.​ ENGELS​, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. ​Editorial Avante, Lisboa, Portugal, 1997. https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm

 NUNES​, Angélica. Despejo de 1.200 famílias de terreno da família Lundgren é debatido na ALPB, Jornal da Paraíba​. 24/08/2017. Disponível em: <​http://www.jornaldaparaiba.com.br/politica/despejo-de-1-200-familias-de-terreno-da-familia-lundgren-e -debatido-na-alpb.html​> 

REYNALDO​, Renata. Ações trabalhistas refletem drama dos operários da Companhia de Tecidos Paulista. ​ASCOM UFPE​. 02/10/2019. Disponível em: <​https://www.ufpe.br/agencia/pesquisas-bkp/-/asset_publisher/rIL2cIuRIxA4/content/acoes-trabalhistas-r efletem-drama-dos-operarios-da-companhia-de-tecidos-paulista/40623​> 

GOMES​, Ellyka. RIO TINTO VIVE CONFLITO ENTRE MORADORES E EX-FUNCIONÁRIOS DE COMPANHIA DE TECIDOS. ​Correio da Paraíba​. 16/09/2018. Disponível em: <​https://correiodaparaiba.com.br/economia/rio-tinto-vive-conflito-entre-moradores-e-ex-funcionarios-decompanhia-de-tecidos/​>

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1 COMENTÁRIO

  1. Amei esse trecho meu deus

    “Quando vejo as chaminés é como se eu estivesse enxergando um fantasma, mas sei que é muito pior. As chaminés da antiga Companhia de Tecidos são o reflexo da burguesia: são resistentes como os grossos tijolos que as compõem, são gigantes quando olhadas de baixo, mas que depende de uma base para continuar em pé e uma massiva mão de obra para continuar sua operação – sem a classe trabalhadora, a burguesia perde todo o seu sentido.”

    E esse artigo ta perfeito, parabéns

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