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Governo de São Paulo abandona professores

CONTRA O SUCATEAMENTO – Professores do estado já estão acostumados a ter que combater o sucateamento da educação pública e a lutar também por melhores condições de trabalho. (Foto: Reprodução/APEOESP)

Renan Almeida

SÃO PAULO – No mês de março, com o avanço da pandemia causada pela Covid-19, o governador do Estado de São Paulo João Doria (PSDB) e seu secretário da Educação Rossieli Soares modificaram o calendário escolar, adiantando os recessos de professores e alunos e implantando o ensino a distância.

Tanto alunos quanto professores estão passando por grandes dificuldades para se adaptar a essa forma de ensino. A Secretaria de Educação do Estado fez grandes investimentos para a ampliação do aplicativo Centro de Mídias São Paulo (CMSP), que transmite aulas ao vivo para estudantes e passou a utilizar o canal da TV Cultura para transmissão de algumas aulas. O Secretário de Educação faz aparições diárias para divulgar a grande inovação do chamado “ensino mediado por tecnologia”. Apesar de todas as propagandas para se promover, dizendo que os alunos da rede pública não serão prejudicados, pois o ensino será garantido, mais da metade dos 3,6 milhões de estudantes da rede estadual não estão conseguindo acompanhar as aulas, pois o aplicativo tem grande instabilidade e colocava em dúvida sua eficácia.

Indignada com a adoção de um modelo sem consulta aos professores, Solange, docente do Município de Diadema, no ABC Paulista, comenta: “o governo às vezes viaja, acha que está em outro mundo, não é possível. Estão colocando um ensino igual para todos, sendo que a realidade não é a mesma. Para eles, quem tem celular acompanha as aulas, quem não tem, eles falam para acompanhar pela TV Cultura. Mas como o aluno vai tirar dúvidas e falar com um professor pela televisão?”. Inconformada, a professora ainda relata que, muitos estudantes foram à sua casa pedir ajuda para a realização das atividades e para acompanhar as aulas. “Atendi eles pelo lado de fora do portão, não conseguem ter acesso a computador e celular para fazer as aulas. Como sempre, os alunos pobres são os mais prejudicados”.

O fato é que, antes mesmo de colocar o ensino a distância em prática, chamando-o de ensino mediado por tecnologia, a Secretaria de Educação ignorou os apontamentos feitos pelos professores e por pais de alunos. Parece mesmo que o governo de João Doria não está preocupado se os estudantes estão, de fato, aprendendo ou mesmo se conseguem acompanhar as aulas, o que mais importa para esse governo são as propagandas, querem enganar os pais e a população mentindo que estão ensinando seus filhos.

As dificuldades com o ensino a distância não param por aí. Felipe, 27 anos, professor da rede estadual, ainda denunciou que a Secretaria de Educação não lhes deu nenhum subsídio para a realização do trabalho: “Nós temos que planejar aulas, montar atividades, corrigir e fazer uma série de trabalhos sem recurso nenhum, não nos disponibilizaram notebook, nada para nos auxiliar, sai tudo do nosso bolso”, afirma o docente.

As Más Condições de Trabalhos 

Além dos professores concursados, também existem os professores que trabalham com regime de contrato, conhecidos como “categoria O”. O contrato com os professores impõe uma série de regras absurdas para seu trabalho. “Temos um limite de duas faltas no ano! Não podemos sequer pegar um atestado. No início deste ano, eu precisava estar de repouso, acamado mesmo, mas fui trabalhar me arrastando. Até meus alunos me chamaram de guerreiro. No entanto, eu os respondi que não sou guerreiro, é apenas a necessidade e Deus me faz ser forte, não posso correr o risco de ter meu contrato extinto por cinco anos”, relatou o professor Joaquim, do Município de São Bernardo do Campo.

O fato é que, só no ano de 2018, 53.276 professores foram afastados por problemas relacionados à saúde mental. Lidar com salas de aulas lotadas e cargas de trabalho absurdas para compensar os baixos salários, coloca grande peso sobre os ombros dos professores. Agora, com a pandemia, os professores estão sem receber nenhum centavo e, ainda por cima, não podem receber o auxílio emergencial oferecido pelo governo federal, pois têm um contrato ativo com o governo.

“Antes mesmo da Covid-19, eu já tinha passado por situações terríveis como eventual. Ano passado, eu cheguei a ir para a escola onde atuava e, por não ter nenhuma aula disponível maquele dia, não ganhei nem o dinheiro da passagem. Neste ano, consegui atribuir seis aulas e estava completando minha carga eventualmente. Agora, não estou conseguindo manter a casa”, relata Carla, que também é professora de Diadema e está se mantendo com a ajuda dos colegas de profissão.

Uma estratégia muito utilizada pelos governos tucanos no Estado de São Paulo é a contratação temporária dos docentes como alternativa para a abertura de concursos. O que seria uma forma de suprir a falta de professores virou uma regra. Aquilo que foi criado para resolver um problema imediato tornou-se solução para economizar na folha de pagamento dos governos. A crise na educação, escancarada pela Covid-19, coloca na ordem do dia à necessidade da luta em defesa dos direitos dos professores, por melhores condições de trabalho e pela abertura de concursos. A luta pela efetivação dos professores com regime de contrato, contra a superlotação das salas de aulas, por melhores salários é também uma luta pelo fim do sistema capitalista e deve ser dirigida por nós professores.

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