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Do luto à luta, os nordestinos em São Paulo

INDIGNAÇÃO – Trabalhador nordestino que perdeu o filho por conta do descaso do governo encontra na luta organizada uma forma de evitar que mais crianças sejam assassinadas pelo estado burguês. (Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade)

Jorge Ferreira

SÃO PAULO – No início deste ano, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) foi até Francisco Morato, cidade a 80 km da capital paulista, prestar solidariedade a uma família de trabalhadores negros, nordestinos, que acabava de perder um filho de apenas 10 anos de idade pelo descaso do Governo.

Essa história precisa ser contada do início e seus detalhes são comuns na caminhada de milhões de nordestinos que vivem no Sudeste. Cirilo deixou amigos e familiares na Bahia e foi para São Paulo em busca de um trabalho. Desde que chegou, nunca parou para descansar. Apesar de sofrer preconceito, inclusive dos patrões, sempre provou na prática sua dedicação ao trabalho.

Cirilo casou, teve filhos. Economizou tudo o que pôde para comprar um pequeno terreno e construir uma casa para morar com sua família. Foi então que sua vida cruzou com Francisco Morato, cidade onde milhares de trabalhadores todos os dias pegam o trem rumo à capital antes mesmo de o sol nascer e retornam para seus lares exaustos após longa jornada de trabalho.

Naquela quinta-feira, dia 20 de fevereiro, dia de muita chuva, Cirilo, ainda de madrugada, havia saído para trabalhar. Quando chegou, à noite, recebeu a notícia de que Alexandre, seu filho, havia morrido soterrado. Os noticiários da burguesia disseram que o motivo tinha sido a chuva. A Prefeitura ainda tentou culpar Cirilo e sua família por morarem em área de risco. O que eles não contaram é que, não bastasse o IPTU do imóvel estar em dia, Cirilo, há poucas semanas, havia solicitado na Prefeitura auxílio para retirar o barranco que ficava próximo de sua casa.

O descaso não parou por aí. Alexandre foi resgatado com vida pelos vizinhos, porém nenhum resgaste conseguiu entrar na rua onde mora sua família e nenhum carro conseguiu sair de lá a tempo, devido aos grandes buracos na rua, que lembram uma cena de guerra, mas refletem bem o descaso da Prefeitura. Apesar de todos os dias milhares de moratenses acordarem cedo e entregarem suas horas para os patrões, apesar de pagarem seus impostos e contribuírem para o Estado, suas ruas continuam esburacadas, suas casas continuam nos barrancos, bastando uma chuva para suas crianças correrem o risco de morrer.

O MLB construiu uma campanha de solidariedade para apoiar Cirilo e sua família. Na luta coletiva, ele encontrou forças para denunciar na cidade o descaso que matou seu filho. Passados quatro meses, organizou no seu bairro a primeira Brigada de Solidariedade para arrecadar e distribuir alimentos para outras famílias que estão sofrendo com a fome nesta pandemia. Mas ele não quer parar por aí. Está disposto a ir até o fim para conquistar o asfaltamento do bairro, a moradia digna e a destruição deste sistema que mata crianças.

A história de Alexandre se confunde com a de milhares de outras crianças e jovens que perderam a vida por conta de um Estado que serve apenas para explorar os trabalhadores e garantir o lucro de uma minoria. Da mesma forma, a história de Cirilo, que, quatro meses após perder seu filho, faz agitação no bairro apresentando um jornal dos trabalhadores na luta pelo socialismo, se confunde com a história de tantos outros negros e nordestinos que vivem em São Paulo.

Na época em que os ricos condenam milhões de trabalhadores a viverem na miséria, a perderem seus filhos, tudo para manterem de pé um mundo velho e atrasado que não serve ao povo, os retirantes, os nordestinos, o povo negro, os operários que construíram São Paulo, se convencem da necessidade de travar a luta por uma revolução socialista, de forma consequente, até o fim.

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