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Guariba: A greve dos cortadores de cana (1984)

Depoimento do advogado Leopoldo Paulino, que viveu de perto o episódio da greve dos cortadores de Cana da cidade Guariba-SP, na região de Riberão Preto.

Logo depois do encerramento da greve dos cortadores de cana de Guariba, em maio de 1984, pensei em escrever um livro sobre aquele episódio, que se traduziu na maior conquista obtida por aquela categoria, em toda a História de nosso país.

Acabei não o fazendo, absorvido pelo tempo ocupado como militante de esquerda, advogado sindicalista e vereador, terminando por deixar uma lacuna, que possibilitou a alguns falseadores da História contarem os fatos de forma a distorcer completamente a realidade.

Recentemente, assisti a um vídeo de dez minutos sobre o tema, editado pelo PT, ode se estampa a versão dada por aquele partido aos acontecimentos da época.

No vídeo, aparecem apenas declarações de membros do Partido dos Trabalhadores, demonstrando de modo falso que aquele partido foi o responsável pelo movimento.

O vídeo se encerra com uma imagem da assembleia final da greve, quando o acordo foi aprovado.

Na edição das do vídeo, os petistas colocam minha fala encerrando a assembleia, mas chegam ao extremo de eliminar minha imagem, de modo a narrar aquela parte importante da História do país de forma distorcida e mentirosa.

Indignado, decidi escrever este texto, contando a verdadeira História da greve de Guariba, não deixando espaço para aqueles que buscam se promover politicamente, através de falsidades.

O Movimento

O movimento teve início no dia 14 de maio de 1984, quando centenas de trabalhadores, revoltados com o brutal aumento dos valores da taxa de água, destruíram o prédio da SABESP em Guariba, saqueando também um supermercado, que ficou parcialmente destruído.

Na verdade, a população daquele município, composta majoritariamente por cortadores de cana, estava profundamente insatisfeita pela exploração a que eram submetidos pelas Usinas de Cana de Açúcar da região e por seus intermediários, os agenciadores de mão de obra conhecidos como “gatos”.

A repressão contra os trabalhadores foi muito violenta, com efetivos da PM espancando homens, mulheres e até crianças, invadindo casas e atirando, deixando no chão o cadáver de Amaral Vaz Meloni.

Na madrugada do dia 15 de maio, eu, Élio Neves, então militante do PCB e outros dirigentes, da FETAESP (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de São Paulo), chegamos a Guariba e passamos a organizar os trabalhadores rurais, transformando sua justa revolta  em um forte movimento grevista, que passou a exigir do patronato os direitos que eram negados aos cortadores de cana.

O movimento cresceu em poucas horas e logo, todos os trabalhadores rurais de Guariba, responsáveis pelo abastecimento de cana às usinas São Carlos, de Guariba e São Martinho, de Pradópolis, paralisaram o trabalho.

Juntamente com Élio Neves, organizamos com eles algumas reuniões e assembleias, nas quais, já no dia seguinte, elaboramos uma pauta de reivindicações proposta pelos trabalhadores e que passou a ser o rol de exigências dos grevistas.

Organizei também, no final daquela tarde, uma reunião no estádio Municipal de Guariba, com cerca de 500 cortadores de cana, onde propus que fossem por eles escolhidos quinze representantes, que seriam o elo entre os trabalhadores e o sindicato da categoria.

Entre os quinze escolhidos, um deles foi José de Fátima Soares, que passou a integrar o grupo.

Poucos dias depois, o patronato decide negociar, reconhecendo a força do movimento e temendo por mais prejuízos, pois a safra estava em andamento e, além da paralização, os trabalhadores passaram a atear fogo nos canaviais, atividade da qual participei com empenho, já que, após a queima, a cana tem que ser cortada em 48h, sob pena de não poder ser mais aproveitada pelas usinas.

Dias depois do início da greve, começaram a chegar a Guariba alguns membros do PT paulista, com o objetivo de apoiarem a greve, destacando-se a atuação do deputado José Cicote, o único deles que se pôs a serviço do movimento sem pretender ser o “dono” do mesmo.

Os visitantes petistas passaram a assediar José de Fátima que, despolitizado, encantou-se andando em veículos oficiais com motoristas e com jantares em lugares em que nunca havia frequentado.

No dizer de Chico Buarque, “quem brincava de princesa, acostumou com a fantasia”.

Os líderes petistas passaram, então, a andar com José de Fátima a tiracolo, levando-o a dar entrevistas para diversos meios de comunicação do país, outorgando-lhe ainda o título de “Lula Rural”.

O sucesso da greve fez com que o patronato rural sentasse à mesa de negociação e então foi marcada uma reunião pelas partes em contenda, que teve Leopoldo, Élio Neves e o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Guariba, como representantes dos trabalhadores.

Representando os patrões usineiros, sentou-se à mesa Roberto Rodrigues, capitalista agrário que anos depois, seria Ministro da Agricultura do Presidente Lula.

Esteve presente também o Secretário das Relações de Trabalho de São Paulo, que chegou a Guariba para participar da reunião.

A negociação durou seis horas e meia e finalizada, coube a mim divulgar para representantes da imprensa de todo o país, que lá se encontravam, os importantes pontos que o vitorioso movimento dos trabalhadores rurais havia conquistado para a categoria, com grande melhoria nas relações de trabalho, que teriam reflexo em todo o Brasil.

Em seguida, nós, representantes dos trabalhadores, no dirigimos ao Estádio de Futebol de Guariba, oportunidade em que Élio Neves e os demais dirigentes sindicais presentes, pediram que apenas eu falasse e passei então a ler os termos do acordo que acabara de ser aceito pelas partes na reunião.

Antes de subir ao palanque, o secretário Pazzianoto me indaga: “Quem vai garantir minha segurança nesse ato?” Prontamente, respondi que quem garantiria sua segurança eram os dez mil trabalhadores presentes no Estádio.

Assim, falando para dez mil cortadores de cana, li os termos do acordo e coloquei a proposta em votação, quando dez mil braços se ergueram em aprovação, tendo eu tecido as considerações finais sobre o movimento e encerrado a histórica assembleia.

O “Atentado”

Poucos dias depois da greve, eu estava aguardando para participar como advogado de uma audiência na cidade de Jaboticabal, quando me chamam ao telefone do Fórum para atender a um jornalista de algum órgão da imprensa nacional.

Para meu espanto, a pergunta foi se eu confirmava ou não haver mandado matar José de Fátima Soares.

De imediato, perguntei o que havia acontecido, e disse meu interlocutor que Fátima havia levado um tiro, disparado por um revólver calibre 22 que não o acertando, furou sua camisa.

Em seguida, a autoridade policial de Guariba tomou seu depoimento, tendo ele declarado que eu era o suspeito de ter praticado o crime, pois alguns dias antes eu teria dito a algumas pessoas que “José de Fátima teria que desaparecer, nem que fosse à bala”.

Minha resposta à imprensa foi curta:

– Não mando matar!

– Não uso 22!

– Não erro tiro!

Jamais havia feito também nenhum tipo de declaração a mim atribuída por ele e nunca ameacei José de Fátima Soares.

Para mim, estava claro que Fátima não fez essa armação sozinho e seguramente agiu por orientação do grupo político que o comandava.

A “Festança”

No dia seguinte, o PT convoca uma reunião na casa do médico David Aidar, à época presidente do diretório municipal do partido, com a presença do então senador Eduardo Matarazzo Suplicy, onde diante de toda a imprensa nacional, José de Fátima, a estrela do espetáculo , me acusa de ser o mandante de uma tentativa de assassinato contra ele.

A Investigação

A investigação sobre a tentativa de homicídio contra José de Fátima Soares durou 48 horas e a polícia de Guariba, mostrando competência e honestidade, elucidou os fatos com muita rapidez.

O autor do disparo fora uma um antigo desafeto de Fátima, que já o havia ameaçado por assediar sua mulher.

Ficou provado ainda que Fátima reconheceu de imediato o atirador e seguramente decidiu me acusar para satisfazer interesses políticos do PT.

Desmontara-se a farsa, sem que nenhum membro do Partido dos Trabalhadores me pedisse desculpas pela infâmia.

Maluf

Pouco tempo depois, aliciado por Paulo Salim Maluf, José de Fátima Soares, o “Lula Rural”, vende-se por 30 dinheiros e assina a ficha de filiação do PDS, o partido da ditadura militar.

Epílogo

Essa é a verdadeira História da greve de Guariba, apesar das distorções e mentiras do PT a respeito daquele fato histórico. Afinal: “Lupus et capillus non perdit suam extra ferocitas”.

Parafraseando o guerrilheiro heroico: “O PT apronta, apanha, mas sem perder a arrogância jamais”.

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