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A criminosa retomada do futebol gaúcho

Por Lucas Neumann*

A retomada das Ligas Europeias em Junho reacendeu as esperanças de cartolas brasileiros pela continuidade dos campeonatos nacionais. Liderados por Flamengo e Vasco, o Campeonato Carioca foi o primeiro a retornar e isso influenciou nas discussões dos demais estaduais pelo país. No Rio Grande do Sul, os presidentes da Dupla Grenal se aliaram à imprensa esportiva e estiveram à frente daqueles que pleiteavam a retomada, mas estavam impedidos devido ao veto do governo do estado e municípios

Imprensa esportiva ataca

Aliada dos clubes, a imprensa gaúcha liderada por Pedro Ernesto Denardin (narrador da Rádio Gaúcha/Grupo RBS) esbravejava diariamente em seus programas pelo retorno a qualquer custo do Campeonato Gaúcho, atacando até mesmo seus aliados, como o Prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. (PSDB), chamado de incoerente por permitir treinos por 12 semanas, mas impedir a realização dos jogos, empurrando o problema para outra cidade, além de afirmar que os prefeitos que vetam os jogos estariam de “frescura”.

Contudo, o que Pedro Ernesto e seus asseclas não revelam é que por trás de todo esse interesse na volta do Gauchão está a garantia do retorno do investimento feito pela sua empregadora, que monopoliza os direitos de transmissão do campeonato na televisão, assim como dedica para o futebol grande parte da programação em sua principal rádio. Além disso, enquanto ele faz seu trabalho de casa, técnicos e operadores de câmera são obrigados a se deslocar até os estádios e se colocar em risco. 

Faixa na frente da sede da RBS em Porto Alegre. Foto: Reprodução

Governador cede, prefeituras se dividem

Após semanas de debates, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) anunciou a volta do Campeonato Gaúcho para o dia 22 de julho. O principal fator foi a mudança de tom repentina do governador do estado, Eduardo Leite (PSDB), que vinha afirmando que o futebol não era prioridade, mas após pressão feita diariamente pela imprensa, aliada dos clubes e da Federação, acabou cedendo. Ele vinha se alternando com Marchezan em Porto Alegre em uma confusa política de liberar e proibir os treinamentos dos clubes de futebol. A Prefeitura acabou liberando os treinamentos, mas ao passo que o governador autorizou o retorno do Gauchão, o prefeito impediu a realização de jogos na capital, barrando o primeiro clássico grenal na cidade.

Em contrapartida, tentou-se a realização do clássico em cidades da região metropolitana como Novo Hamburgo e São Leopoldo, mas foram barrados novamente. A Prefeitura de Nova Hamburgo vetou toda e qualquer partida de futebol, mas São Leopoldo por sua vez adotou a curiosa postura de permitir somente a realização dos jogos do Aimoré, clube da cidade.

Em Pelotas, um dos jogadores do Esporte Clube Pelotas testou positivo para covid-19 e a Prefeita da cidade, Paula Mascarenhas (PSDB), vetou a realização do clássico local contra o Brasil de Pelotas, além de orientar que todos que tenham entrado em contato com ele fiquem 14 dias de quarentena, ou seja, o elenco profissional inteiro do clube.

Em Caxias do Sul, o vice-prefeito Edio Elói Frizzo (PSB) declarou que a Prefeitura permitiu a mudança da realização do clássico Grenal para a cidade devido a aprovação por parte do governo do estado, que permitiu a volta do Campeonato independente do sistema de bandeiras indicar bandeira vermelha na cidade.

Logo, as posições adotadas pelas diversas Prefeituras demonstram a total aleatoriedade frente à política de bandeiras do governo do estado. Afinal de contas, qual é a lógica de sinalizar regiões com a bandeira vermelha, indicando uma situação muito grave, e ao mesmo tempo flexibilizar a volta de atividades como o futebol?

Grenal da morte

Apesar de seu clube ter retomado atividades há alguns meses, o treinador do Grêmio, Renato Portaluppi, notório parceiro do fascista Bolsonaro, que tem sido constantemente consultado pelo Presidente em conversas sobre a retomada do futebol, permaneceu no estado do Rio de Janeiro, há milhares de quilômetros de seus atletas, sob a justificativa de que era do grupo de risco, contudo ele foi flagrado jogando futevolei na praia de Ipanema, mostrando qual a sua real preocupação.

Enquanto isso no RS, a capital gaúcha amanheceu o dia do clássico com faixas dizendo “90 min > 80 mil mortos” e “Grenal da Covid: UTIs e Cofres lotados”, em frente à Federação Gaúcha de Futebol (FGF), denunciando a negligência por parte dos dirigentes do futebol gaúcho perante o estado crítico da pandemia que o estado tem enfrentado.

Faixa na frede da Federação Gaúcha de Futabol. Foto: Reprodução

A realização de um jogo como o Grenal instiga as pessoas a se reunirem para confraternizar e assistir junto, além de procurarem bares, como foi o caso das torcidas organizadas do Inter que foram recepcionar a chegada de jogadores e comissão técnica na cidade. A realização do clássico e dos demais jogos da rodada demonstrou como não havia condições sanitárias, muito menos esportivas para sua realização, tendo restado apenas gramados péssima qualidade, rebaixando ainda mais o nível técnico do futebol apresentado pelos clubes, insatisfazendo torcedores de todos os clubes.

Após o jogo, a dupla Grenal seguiu em busca de novos gramados para disputarem suas partidas, tendo em vista a manutenção do veto pela Prefeitura de Porto Alegre. O Grêmio conseguiu a liberação para jogar no seu centro de treinamentos (CT) em Eldorado do Sul, já o Inter tentou liberação do seu CT junto à Prefeitura de Alvorada e num primeiro momento obteve a negativa, mas poucos dias depois, sem alterações no quadro de contágio, voltou atrás e liberou os jogos do clube.

Faixa na frede da Federação Gaúcha de Futabol. Foto: Reprodução

Em seguida, aumentou a pressão dos clubes e também dos empresários de Porto Alegre pela abertura do comércio. A insatisfação desses setores culminou na abertura de um pedido de Impeachment do prefeito Marchezan, que além de permitir a realização de jogos na capital, incluindo o último Grenal (realizado no dia 6/8) e a abertura de shoppings e loja para o dia dos pais.

Futebol para quem?

A situação do nosso país é gravíssima, já atingimos a triste marca de 100 mil óbitos em decorrência de contaminação pelo Covid-19, sendo cerca de 50 mil casos registrados no Rio Grande do Sul, ultrapassando o número de 1200 mortes até o momento.

A retomada do futebol vem de encontro com o pico de casos registrados no estado, sendo agravados pela baixa temperatura do inverno gaúcho. Em duas semanas do mês de julho, o número de óbitos pelo novo Coronavirus dobrou em Porto Alegre, totalizando mais de 200 mortes, incluindo um dos vice-presidentes do Grêmio, Marco Bobsin, que veio a falecer na última semana de julho, após mais de 100 dias internado em estado grave. 

Além disso, os tão aclamados protocolos de segurança da Dupla Grenal tem mostrado uma grande ineficiência, tendo um jogador de cada clube testado positivo na véspera do jogo, totalizando mais de 10 jogadores, num universo de 60 jogadores profissionais da dupla, contaminados desde a implantação das chamadas ilhas sanitárias. 

E qual a última resposta do governo Marchezan? Sentou pra conversar com FGF e presidentes da Dupla e cedeu a volta dos jogos na capital gaúcha. Essa medida já teve suas  consequências, com pessoas sendo retiradas de quadras de futebol e empresários ligados ao comércio, com é o caso do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindha), que pressiona pela flexibilização, ao passo que mais de 90% dos leitos estão ocupados.

Tudo isso demonstra qual tem sido a principal preocupação de governantes, imprensa e clubes: o seu faturamento e de seus patrocinados. O que vemos nos gramados são imagens desoladoras, de jogos de baixa qualidade técnica e o silêncio das arquibancadas, devido a impossibilidade do público estar lá para festejar os triunfos e amargar com as derrotas, resta apenas a indiferença de estádios vazios, mas enquanto o bolso continuar a se encher de dinheiro, para eles pouco importa o que acontece na vida do torcedor.

*Militante da Unidade Popular no RS

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