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A Impunidade no caso de Mariana Ferrer

VIOLÊNCIA CONTRA MULHER – Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, acontece um estupro a cada 11 minutos, mas a mulher ainda é vista como a principal culpada pela sua própria violência sexual. (Fotos: Reprodução/Redes Sociais)

Anne Fernandes

TERESNA (PI) – Até onde o poder e a influência podem destruir a vida de uma jovem? O caso de Mariana Ferrer foi divulgado algumas vezes, pela própria jovem, para que seu sofrimento não fosse silenciado como o de muitas outras mulheres em nosso país. Finalmente caso ganhou mais repercussão nesta semana, mas infelizmente pela injustiça da sentença final.

O que seria uma noite de diversão comum a qualquer moça de 21 anos acabou por se tornar um momento de terror que mudou completamente a vida da influenciadora digital, Mariana Ferrer. Ela trabalhava como embaixadora de um beach club de Florianópolis – ambiente frequentado por pessoas de classe média alta – e divulgava o mesmo em suas redes sociais.

Em 15 de dezembro de 2018, trabalhando como modelo na casa noturna, Mariana foi deixada sozinha por seus amigos e dopada intencionalmente. Em seguida, as câmeras do local mostram-na sendo conduzida pelas escadas para uma área privada – apenas para sócios – por um homem identificado posteriormente como o empresário André de Camargo Aranha, proprietário do estabelecimento. Minutos depois, Mariana aparece retornando pelas mesmas escadas a procura de seus amigos.

Mari conseguiu sair do local sozinha por ter salvo o endereço de sua mãe em um aplicativo. O motorista, em depoimento, afirmou categoricamente que a modelo parecia estar sob efeito de entorpecentes, o que – junto com os vídeos em que ela aparece alterada e sem condições de se equilibrar sozinha – confirmam o fato da modelo ter sido drogada. Mariana chegou na residência de sua mãe com as roupas ensanguentadas e rasgadas.

Ela tinha acabado de sofrer a pior violência que uma mulher poderia sofrer na vida: A violência Sexual.

Visto que o abusador é uma pessoa muito conhecida da cidade e sob forte influência na região, Mariana tentou chamar atenção das mídias para o seu caso durante todo o processo de investigação – para que todos soubessem o que estava acontecendo. Na averiguação do caso, Mari foi abusada psicologicamente e teve mais uma vez seu corpo violado, tendo suas partes íntimas fotografadas, sendo questionada por policiais a todo tempo e, inclusive, sendo indagada pelos estilos de roupas que costumava usar –informação anexada como prova pelos advogados de defesa de André de Camargo Aranha, como se fosse uma possível justificativa do ato tenebroso que o réu cometeu.

No último dia 10, a sentença para André de Camargo Aranha foi a absolvição pelo estupro de Mariana. Sim! Mesmo com todas as provas, mesmo com todos os vídeos, áudios, laudos médicos concluindo que havia sêmen do acusado na vítima e nas roupas, ele foi inocentado. Os advogados de Mariana ainda devem recorrer da sentença e nós não devemos esquecer deste caso e nem o deixar impune.

Casos como o de Mariana Ferrer, infelizmente, representam a ponta de um iceberg do terror da violência sexual na vida das mulheres de nosso país.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, acontece um estupro a cada 11 minutos, mas a mulher ainda é vista como a principal culpada pela sua própria violência sexual. Uma pesquisa do DataFolha, que entrevistou 3.625 pessoas, revelou que 37% concordam com a afirmação de que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas” e que para 30% dos homens as mulheres que usam ‘’ roupas provocantes’’ não devem reclamar por serem estupradas ou assediadas.

O que vemos refletido nessas violências – incluindo o resultado de pesquisas e estudos na sociedade – é na verdade a relação capitalismo/patriarcado. Já que no sistema capitalista as mulheres são vistas como mão de obra barata que podem ter duplas ou triplas jornadas de trabalho, para manutenção do mesmo sistema econômico, e ainda sendo vistas como propriedades e objetos do sistema patriarcal em que homens podem nos tocar sem nossas permissões e não devem ser ouvidas nem podem reivindicar.

Para que haja verdadeiramente a emancipação feminina devemos lutar contra esses sistemas que nos oprimem, porque essas lutas são indissociáveis. Devemos inserir ainda a discussão de gênero nas políticas públicas educacionais como parte dos currículos escolares e enfrentar as forças conservadoras do Brasil e do fascista Bolsonaro com toda sua corja misógina.

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