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Colômbia e EUA usam tráfico de drogas para atacar a Venezuela

IMPÉRIO. Trump e o presidente colombiano Ivan Duque: unidos com o narcotráfico contra a Venezuela soberana (Foto: Reprodução)

O maior produtor e o maior consumidor se juntam para acusar a Venezuela dos delitos que eles mesmos perpetram. Não se trata apenas de distrair a opinião pública, mas também de usar o expediente para sustentar a tese de um Estado fora da lei e justificar assim os intentos de derrubar o governo Maduro e controlar as riquezas do país.

Por Clodovaldo Hernandéz
Publicado originalmente no diário VEA, de Caracas, em 23/09/2020

INTERNACIONAL – A desfaçatez, o descaramento, a falta de vergonha ou, como se diz ultimamente, a cara de pau do império, seus satélites, lacaios, fantoches e sua maquinaria midiática parecem não ter limites. Cada dia estes atores superam suas próprias marcas.

Quando estão em dificuldades ficam piores porque essas condutas não são meros caprichos, mas sim formas de atacar, defender-se ou contra-atacar, quer dizer, parte de sua luta pelo poder e a hegemonia.

Analisemos, por exemplo, a seguinte cena de absoluta desfaçatez: os Estados Unidos entregam seus não solicitados relatórios de certificação em matéria de luta contra as drogas, e o aluno mais vantajoso, aquele que passou isento foi a Colômbia!

Geralmente ocorre com os desavergonhados, o que parece uma piada. Mas a semelhança com o humor termina rápido porque não é algo engraçado. Há muita tragédia, muitas desgraças pessoais, familiares e nacionais envoltas na ironia. As risadas que provocam são amargas.

Uma potência na produção de drogas

A Colômbia é o principal produtor mundial de cocaína. Mais que isso, é uma potência agroindustrial da droga, quer dizer, que tem uma enorme produção da matéria-prima (a folha de coca) e uma correspondente capacidade instalada para processá-la industrialmente, para lhe dar valor agregado e transformá-la em mercadoria comercializável (a cocaína). Tudo isso requer uma boa quantidade de insumos químicos, equipamentos específicos, mão de obra qualificada e uma rede de fornecedores, distribuidores, transportadores (por ar, mar e terra) e pessoal de segurança comparável com o de qualquer indústria transnacional.

Como não se trata de uma atividade lícita, para que opere funcionalmente necessita de uma vasta rede de cumplicidades estatais, em todos os poderes públicos (Executivo, Legislativo, e Judiciário e Militar, a nível nacional, regional e local). Como são atividades não só ilegais, mas abertamente criminosas, outro componente fundamental é um aparelho dissuasivo e repressivo para corromper, comprar silêncios, neutralizar ou eliminar a quem se interponha no fluxo do negócio.

Tudo isto ocorre na Colômbia, que se vê a mercê de uma malha de cumplicidades que percorre a sociedade completa, sobre o qual há mares de provas e indícios, destacando as evidentes relações dos chefes do narcotráfico com quem tem o poder político. Isso está mais que certificado.

CONSUMO. Navio do banco JP Morgan apreendido com 18 toneladas de cocaína destinados aos EUA e Europa (Foto: Reprodução)

E os cartéis norte-americanos?

Acreditar que o gigantesco volume de cocaína exportado aos Estados Unidos e Europa é obra de pequenos laboratórios artesanais clandestinos é uma ingenuidade ou algo próprio de outros cúmplices.

Igualmente é absurdo pensar que um negócio ilícito dessas proporções pode ser dirigido à distância por máfias estrangeiras, sem que existam estruturas criminosas internas no país onde funciona o grande mercado, neste caso os EUA. Apesar disso, os EUA se dedicam a assinalar com o dedo os cartéis do narcotráfico (reais ou inventados) em vários outros países, mas nunca desmantela seus próprios cartéis. Washington anuncia grande operações militares antidrogas fora de seu território e de seus mares, enquanto dentro funciona uma atividade lucrativa bilionária que, obviamente, também requer uma logística e uma rede de cumplicidades. Os Estados Unidos examinam todo mundo, certificam a uns e não a outros, mas não se qualificam a si mesmos. Para isso são império.

Então, o que vemos quando os EUA aprovam a Colômbia em matéria de luta antidrogas é de uma desfaçatez, como dissemos antes, que parece uma piada. Trata-se de uma relação entre os sócios de um negócio redondo em que ambos fingem que estão contra a indústria da qual se beneficiam. Se reúnem para deplorar o auge da atividade e os estragos que causa, enquanto por debaixo da mesa repartem os lucros.

Os bodes expiatórios

Para desempenhar este jogo se valem de vários subterfúgios. Um deles é fazer dos elos mais vulneráveis do negócio bodes expiatórios. No lado do país produtor, são os camponeses cultivadores de coca nos quais se pretende depositar toda a culpa. Por isso é que os EUA “recomendam” que se retorne ao bárbaro procedimento da aspersão com glifosato, um produto destruidor de zonas cultiváveis e provadamente cancerígeno. Pretendem fazer ver que se se reduzir a superfície cultivada de folha de coca, a ponto de envenenar as plantas, baixará a produção e o consumo. Por normas elementares do sacrossanto mercado, eles sabem melhor que ninguém que não é assim que funciona. Mas é uma maneira muito midiática de promover o desemprego. Além disso, é um negócio para todos os envolvidos, incluindo a oligarquia agrária colombiana.

O bode expiatório do lado do país consumidor é o vendedor do varejo, o rústico, como lhe chamam por estes lados. Por isso é que os cárceres dos EUA estão lotados de afrodescendentes, latinos e brancos pobres processados ou condenados por delitos de narcotráfico, face ao qual o consumo não para de crescer, porque nos chefes e seus capangas os corpos policiais e militares não tocam quase nunca.

Outra tática para manter a aparência de que lutam contra as drogas é procurar um terceiro a quem lhe jogar a culpa de um negócio cujos extremos (produção e consumo) estão claramente nestes dois países. Nos últimos tempos, a Venezuela foi o bode expiatório ideal. Não produz cocaína, não é um consumidor importante, seu território não é uma rota significativa, comparada com as costas pacífica e caribenha colombiana e com as que partem do norte do Equador. Mas nada disso importa na hora de criar um relato que distraia a opinião pública do multimilionário negócio que EUA e Colômbia mantêm vento em popa e a toda vela.

O maior produtor e o maior consumidor se juntam para acusar a Venezuela dos delitos que eles perpetram. Não se trata sozinho de distrair à opinião pública, mas também de usar o expediente para sustentar a tese de um Estado fora da lei e justificar assim os intentos de derrocar o governo e tomar o controle do país através de seus fantoches ou diretamente, se for o caso.

É o cinismo concentrado: a potência agroindustrial da cocaína e seu importador mais destacado pretendem estigmatizar a um terceiro país como um narco-regime. Enquanto isso, da Colômbia seguem saindo carregamentos e mais carregamentos, que são recebidos, distribuídos e vendidos em todo os EUA. Tudo isso apesar de os governos colombianos permitirem que em seu território operem bases militares norte-americanas e a Agência Federal Antidrogas, a DEA, que, das duas uma: ou é cúmplice dos cartéis colombianos ou é de uma inépcia legendária.

FANTOCHES. Guaidó, Duque e o vice-presidente dos EUA Mike Pence selam acordo para atacar Venezuela (Foto: Reprodução)

A estrutura conspiratória

Semelhante infâmia não seria possível de acontecer se não fosse pela existência de uma estrutura adicional de alcance mundial, integrada por organismos diplomáticos, falsas organizações não governamentais e a onipresente maquinaria midiática. Estes três instrumentos se orquestram para garantir que os grandes sócios da indústria e do comércio dos narcóticos apareçam como os países que lutam de braços dados contra as máfias, enquanto que a Venezuela, que é, quando muito, um território de trânsito, seja apresentada como a narcopotência da América do Sul, o país que está envenenando os pobres jovens americanos.

A falta de vergonha, o descaramento, a desfaçatez, a cara de pau do império, seus satélites, seus lacaios e seus fantoches não seria possível sem estes três fatores de instauração e legitimação das matrizes de opinião e das calúnias.

Atores sempre secundários, mas que se empenham em fazer os papéis que mandam os libretistas, são os opositores venezuelanos. Eles também quebram seus recordes a cada passo. Vociferam que estão lutando contra uma ditadura que se financia com droga e têm a Colômbia como seu refúgio; organizam invasões mercenárias que partem de fazendas dos chefes do negócio e até se deixam transportar e fazem selfies com os narcotraficantes.

Em matéria de falta de vergonha, estes personagens estão mais que certificados…

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