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General Bolívar Meirelles: “Um poder popular é difícil, mas não impossível”

ABAIXO A DITADURA – General Bolívar Meirelles luta contra a ditadura militar fascista de 1964. (Foto: Reprodução/Ricardo Borges)

Entrevista com o general Bolívar Meirelles, preso e cassado pela ditadura militar.
Denise Maia e Felipe Annunziata

RIO DE JANEIRO (RJ) – Ao longo da história brasileira, as Forças Armadas sempre cumpriram o papel de fiel defensora da propriedade privada e do domínio das classes ricas contra o povo.

Durante os 21 anos de Ditadura Militar (1964-85), membros do Exército, Marinha e Força Aérea foram responsáveis pela perseguição, prisão, sequestro, tortura, estupro e assassinato de milhares de brasileiros. Fizeram isso a mando de um outro país, os Estados Unidos, com o objetivo de manter as velhas estruturas econômicas e sociais inalteradas e impedir que o Brasil seguisse um caminho de desenvolvimento independente e soberano.

Para cumprir com essa triste missão, os comandantes golpistas perseguiram também seus colegas de farda que ousaram defender a democracia e se rebelaram contra o golpe. De acordo com a Comissão Nacional da Verdade, entre 6.500 e 7.500 membros das Forças Armadas e das polícias militares foram perseguidos, presos, torturados ou cassados pela ditadura. Os números da repressão aos militares desfazem o mito de que as Forças Armadas estavam “unidas e coesas” em torno do golpe de 1964.

Um desses militares que ousaram dizer “não” ao golpe foi Bolívar Marinho Soares de Meirelles, 80 anos, hoje general reformado. Nascido no Recife, aos 16 anos se tornou membro do Partido Comunista do Brasil (PCB). A opção pela revolução e pelo socialismo continua firme. “Quando o povo brasileiro resolver caminhar para um Estado socialista, não existirá um tampão armado que possa impedir esse processo de transformação”, disse à equipe de A Verdade que o entrevistou no Rio de Janeiro, onde está em quarentena se protegendo da Covid-19.

Os Primeiros Contatos com o Comunismo

Bolívar entrou para a escola preparatória de cadetes do Exército brasileiro, em São Paulo, no ano de 1956. “Venho de uma família de muitas lutas. Meu tio, Ciro Meirelles, participou do Movimento Tenentista, em 1922. Estava na Escola Militar sob a direção do coronel Xavier de Brito, quando Siqueira Campos se levanta no Forte de Copacabana com outros tenentes. Naquela época, existia um movimento na sociedade por transformações”, explica.

Sua aproximação com as ideias comunistas aconteceu cedo e dentro da própria casa. “Em 1922, o Partido Comunista é criado. Cristiano Cordeiro, um dos fundadores do partido em Pernambuco, frequentava a minha casa junto com outros militantes. Tive contato com vários militantes que vieram do Tenentismo. Logo após a estruturação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), ocorrem alguns levantes e parte desses militares foi presa, entre eles Luiz Carlos Prestes. A minha tia, Rosa Meirelles, também foi presa depois do Levante de 1935. Ficou na mesma cela com Olga Benario, Eneida [de Moraes, jornalista] e outras mulheres combatentes”, conta.

Em 1945, com o fim da 2ª Guerra Mundial e a vitória das forças aliadas contra o nazifascismo, os comunistas presos são libertados e uma nova fase de crescimento da luta popular se inicia no Brasil. Dessa época, Bolívar guarda na lembrança três momentos. “Presenciei o retorno das tropas que combateram o nazifascismo na Itália, recebi com pétalas de rosa Anita Leocádia com sua tia Lígia, que retornavam do México, e vi a libertação de Luiz Carlos Prestes, tão exigida pelo povo brasileiro”.

Aos 16 anos, já estudando para se tornar oficial do Exército, participa do movimento de oposição à participação do Brasil na Guerra da Coreia. “Havia dentro das Forças Armadas um movimento nacionalista, em defesa dos interesses dos trabalhadores e do país, como o petróleo”, afirma.

Porém, aos poucos os elementos nacionalistas e progressistas dentro das Forças Armadas vão perdendo força e passam a ser isolados pelos militares entreguistas, submissos aos Estados Unidos e à grande burguesia. São esses militares que articulam e promovem o golpe de 1964, que atinge diretamente o jovem oficial Bolívar. “Observei que aquela influência positiva que obtive de minha família já não era mais a realidade. O Exército não estava ao lado dos interesses da minha pátria e do povo brasileiro. A guerra ideológica criada após a 2ª Guerra Mundial construiu aparelhos ideológicos, como a Escola Superior de Guerra, que tem uma simetria com a sua matriz norte-americana, a National War College, onde foi criado e cultivado todo o pensamento conservador”.

O Golpe de 1964

O general Bolívar é firme ao dar sua opinião sobre o golpe militar fascista de 1964. “O golpe de 1964 foi o levante dos grandes monopólios e oligopólios nacionais e internacionais contra o governo de João Goulart, que realizou projetos progressistas em vários setores da sociedade. Na educação, o método Paulo Freire; a reforma agrária; a limitação de lucro para grandes empresas internacionais, que pegou o imperialismo norte-americano. As Forças Armadas foram o instrumento do golpe patrocinado por esses monopólios”. E continua: “O inimigo interno para os militares conservadores golpistas era o povo brasileiro, que estava lutando pelos seus direitos e por sua liberdade. A partir de 1964, houve uma limpeza em todo o pensamento articulado pelos mais progressistas e pelos comunistas dentro do Exército. Muitos militares foram expulsos e cassados”.

Sobre a anistia em 1979, acredita que faltou ao povo e às forças de esquerda impor sua voz. “A anistia foi negociada. Não houve força política para se impor uma anistia ampla, geral e irrestrita. Não podemos esquecer que Ulysses Guimarães, Severo Gomes e Sobral Pinto apoiaram o golpe de 1964, junto com uma parcela da sociedade. Inclusive, essa Constituição, dita ‘cidadã’ por Ulysses Guimarães, tem como resíduo esse artigo 142, que foi negociado com o ministro da Guerra do Governo Sarney para garantir o poder militar dentro da Constituição”.

O Capitão e Seus Generais

Atualmente, os setores dentro e fora das Forças Armadas que defendem um novo golpe militar (repaginado com o nome de intervenção) reivindicam justamente o artigo 142 da Constituição Federal para respaldar seus planos de acabar com a democracia brasileira. O próprio presidente, o ex-capitão Jair Bolsonaro, costuma citar o tal artigo em seus discursos e “lives”.

Sobre o fascista Bolsonaro, Meirelles não mede palavras. “O governo desse capitão, que hoje dirige alguns generais que atuam em áreas que desconhecem, mantém o Ministério da Saúde entregue a um general paraquedista do Exército, quando deveria estar sob o comando de uma forte equipe médica, de sanitaristas, com competência técnica e política para desenvolver um projeto de saúde sanitária para o povo brasileiro. Esse governo defende a militarização da sociedade. Outro absurdo, pois trata-se de criar uma ideologia na educação através dessas escolas cívicas militares. Um ensino fascista que impede que as crianças tenham um pensamento de libertação. Essa é a mesma lógica do militarismo autoritário do Estado Novo e do Golpe de 1964”.

Bolívar acredita que a chegada de um presidente despreparado e incompetente como Bolsonaro ao Palácio do Planalto deve-se também à não punição dos crimes da ditadura. “Os torturadores não foram presos, condenados. Isso proporcionou uma caminhada sem obstáculos para a ascensão desses militares reacionários, conservadores, que estão nas entranhas do governo do capitão”.

“Na minha época, o que representava a formação dos militares era a inteligência sistematizada, como a do general Nelson Werneck Sodré, cujo contraponto era o general Golbery do Couto e Silva, um pensador de direita, preparado intelectualmente, diferente desses generais do capitão Bolsonaro, que são analfabetos, conservadores e reacionários”, afirma. “Esse general Braga Netto, por exemplo, foi para o Rio de Janeiro para resolver os problemas das milícias e do narcotráfico, mas não resolveu e ainda foi promovido a ministro no Governo Bolsonaro. Provou a incompetência dele no Rio de Janeiro e foi promovido a ministro-chefe da Casa Civil do capitão!”, ironiza Meirelles.

“Meu desejo é uma pátria sem fronteiras”

Em nenhum momento da nossa conversa o general Bolívar Meirelles demonstrou pessimismo ou desesperança. Ao contrário, sua fé no povo brasileiro é infinita. “Se o povo brasileiro resolver caminhar para um Estado socialista, não existirá um tampão armado que possa impedir esse processo”, acredita.

Ao ser perguntado como se poderia trabalhar para uma mudança na sociedade, ele pensa um pouco e responde: “Acho que temos que ter o otimismo e a paciência histórica, porque o mundo não pode continuar eternamente vivendo da exploração do ser humano por outro ser humano. Tem que ser construída uma força, um poder popular. É difícil, mas não é impossível. Com o tempo, teremos uma força armada popular e dirigida pelo povo”.

Questionado sobre os meios pelos quais se daria essa mudança, retrucou: “Sempre votei e continuo votando. Mas não acredito que as eleições resolverão o problema do povo brasileiro. Quem resolverá as mazelas do povo será o povo organizado, na busca do poder popular e construindo um governo popular. Vislumbro mais do que esse nacionalismo pequeno. Desejo uma pátria sem fronteiras, sem misoginia, sem discriminações, sem racismo, sem discriminações de classe. Essa é a minha visão, minha esperança”. Bela frase para se ouvir de um general!

Ao final da entrevista, o general Bolívar quis deixar uma última mensagem aos leitores do jornal: “Sonho com uma frente concreta da esquerda porque ela está muito diluída. Espero que vocês atuem no sentido de melhorar as condições do povo brasileiro, na luta, num processo permanente, até o povo assumir o poder e a direção da própria Nação que construiu. Essa é a minha mensagem de otimismo e esperança”.

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