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Contradições das empresas privadas sem fins lucrativos

Por João Maranhão, Militante da UJR Pernambuco


No Brasil, tem-se observado no decorrer da última década, um crescimento nas pequenas empresas na área de inovação e tecnologia. No Recife, o Porto Digital vêm incubando e ajudando a desenvolver várias delas. Muitas dessas novas empresas possuem ideias inovadoras que tenham um grande impacto social, logo, muitas delas são empresas privadas, porém sem fins lucrativos. Mas o que é uma empresa privada que não visa o lucro? Tem como organizarmos pessoas, pagarmos a elas salários sem que haja nenhum grupo de pessoas que lucrem em cima da exploração?

A resposta é sim e não. Vou explicar. A começar pela definição dessas instituições tão singulares. Segundo Richard L. Daft, especialista no estudo das organizações e PhD pela Universidade de Chicago, numa discussão em que diferencia uma empresa com fins lucrativos de uma sem, fala que “os administradores de organizações sem fins lucrativos direcionam seus esforços na geração de algum tipo de impacto social.” Ora, uma empresa dentro do sistema capitalista que direciona seus esforços para impactar positivamente a sociedade sem ter como princípio o lucro? É muito bom para ser verdade! E acredito que não tenha frase melhor para caracterizar este tipo de Pessoa Jurídica.

Dentro do sistema capitalista, não há órgão, privado ou público, que consiga manter uma ética no ambiente de trabalho e sequer respeito à classe trabalhadora e aos demais oprimidos pelo sistema. No caso desse tipo de organização da qual estamos falando, acredito que as contradições presentes dentro delas sejam de fato uma das piores. E quais são algumas dessas contradições?

Muitas das contradições que vamos expor aqui envolvem a prioridade de ações e recursos secundários das organizações que, supostamente deveriam levar ao impacto positivo na sociedade, acima do objetivo final que é justamente impactar positivamente a sociedade. A primeira contradição é sobrepor a concorrência ao impacto social. É fato que cada vez mais, as organizações buscam mais participação no setor econômico em que atuam, isso é até “compreensível” para empresas com fins lucrativos. Mas para uma organização em que o objetivo final é simplesmente melhorar a sociedade de alguma forma, a competição torna-se não só algo não recomendado, como é em si uma contradição. Não bastasse a competição em organizações sem fins lucrativos ser uma contradição por si só, essas entidades privadas sobrepõem esse ato doentio do capitalismo ao próprio objetivo final da empresa. Como exemplo temos a Make-a-Wish Foundation, empresa sem fins lucrativos que tem como missão ajudar a completar os desejos de crianças em estado terminal entre 2 e 17 anos de idade.

Em primeiro plano é uma ideia sensacional. Infelizmente, o capitalismo transforma essa organização com uma missão linda em um monstro que ao invés de focar em ajudar as crianças foca em acabar com a concorrência competindo crianças em estado terminal com outras organizações sem fins lucrativos, como se fossem o último pedaço de uma pizza. Em entrevista ao The Wall Street Journal, o diretor do Children’s Wish Fund, uma concorrente menor da Make-a-Wish, diz: “não deveríamos ter de competir por crianças ou dinheiro […] eles (Make-a-Wish) utilizam toda a sua força e dinheiro para conseguir o que querem.” E, no final, o Make-a-Wish não queria dar alegria às crianças em estado terminal, mas queriam simplesmente acabar com a concorrência, não usaram o dinheiro para focar no impacto social que causariam na vida de milhões de crianças, mas usaram para esmagar seus “concorrentes”.

Algumas organizações sem fins lucrativos, além da concorrência, se preocupam demasiadamente com o faturamento e o poder de investimento da empresa. Como não há lucro, pois não há proprietário, a organização foca em ganhar mais dinheiro para crescer e conseguir um impacto maior. Mas quem dera que fosse esse seu objetivo quando busca dinheiro. A busca por dinheiro vai muito além de um investimento interno, mas está interligada com uma visão de monopólio, de controle do setor, uma visão doentia onde essas organizações fazem de tudo para não deixar que outras empresas participem desses atos que jamais podemos chamar de solidários. E quando não é uma luta ao monopólio, é uma ao oligopólio, onde grandes organizações se juntam para que apenas elas faturem naquele setor sem a mínima intenção de colocar o impacto social pelo qual foram criadas em foco.

Muitas igrejas protestantes, por exemplo, ao invés de distribuir mensagens de amor, distribuem ódio, medo e quem não forem daquela exata igreja irá queimar no inferno. E o único objetivo dessas entidades é faturar com o dízimo dos fiéis e com a venda de outros produtos, às vezes com preços absurdos por serem “abençoados pelo Senhor”. Não é e nem nunca foi o objetivo principal dessas entidades religiosas, a salvação dos seus fiéis através da aceitação de Cristo, mas explorar a fé alheia para faturar como organização sem fins lucrativos.

Entrelaçado com as contradições que essas organizações apresentam na concorrência e no faturamento, temos também sobreposto ao objetivo final o marketing interno e o branding da empresa. Elas estão tão ocupadas pensando na sua imagem e na divulgação do seu trabalho, focam tanto na sua reputação e na venda da sua marca que não focam no que realmente é necessário, impactar a sociedade. Uma coisa seria divulgar o impacto, mas vai muito além dessa premissa. As organizações novamente através dessas estratégias de mercado querem aumentar a sua participação no setor em que atuam. Tudo que possa fazer as organizações terem maior participação e faturar mais está sempre acima do impacto social que querem causar.

Por fim, temos uma contradição clássica de toda empresa no sistema capitalista que tem empregados assalariados. A contradição do salário, explicada por Karl Marx na sua obra Salário, Preço e Lucro, onde ele irá explicar como os trabalhadores assalariados passam parte do dia de trabalho pelo seu salário e outra parte para que o capitalista lucre, e é assim que surge a exploração no capitalismo. Com as organizações sem fins lucrativos não é diferente. A única diferença é que ao invés de uma pessoa lucrar com isso, só faz aumentar o faturamento da empresa, e com certeza não é pior e muito menos melhor do que a exploração clássica de uma empresa com fins lucrativos.

Toda empresa impacta a sociedade (seja positiva ou negativamente), a diferença está no objetivo final (se é o próprio impacto social ou o lucro em cima disso). Uma empresa sem fins lucrativos não é nem um pouco diferente de uma com fins lucrativos, a exploração acontece do mesmo jeito, o dinheiro e a competição estão sempre a frente de tudo e o impacto social não é o foco. Sem a socialização dos meios de produção é impossível termos organizações que se preocupem de fato com a sociedade em que estão. Afinal de contas, no socialismo as organizações serão representadas pelo povo de fato e não por burgueses ou conselheiros que não dão a mínima para a sociedade. Sem o socialismo, sem a solidariedade, sem os fortes sentimentos de amor que movem o revolucionário, organizações asquerosas como essas serão uma realidade no mundo.

Fontes:

 Lisa Bannon, “Dream Works: As Make-a-Wish Expands lts

Turf, Local Groups Fume, “The ‘Xla / 1 Street Journal (8 de julho de 2002), A 1, AS.

DAFT, Richard L. Organizações Teorias e Projetos. 2014. 11ª edição; CENGAGE  Learning.

http://blogs.lentreprise.com/deco-bureau/page/2/

 

 

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