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O que os povos da América Latina devem esperar da administração Biden

EUA superaram hoje a última etapa formal para a posse de Joseph Biden e Kamala Harris, com a certificação dos resultados eleitorais pelo congresso nacional; a partir de 20 de janeiro, toma posse um presidente do partido democrata, abrindo uma novo período de oportunidades e resistência para os países dependentes do continente.

Donald Trump segue não aceitando os resultados eleitorais de novembro, quando a votação deu vitória a seu adversário por uma margem de 81 a 74 milhões de votos. Após perder em todas as instâncias judiciárias e ver o colégio eleitoral sancionar o resultado, Trump ainda pressionou seu vice e presidente do congresso, Mike Pence, a impedir a certificação eleitoral em um congresso eleitoral cercado por manifestações que terminaram com ao menos uma mulher morta nos confrontos. Nada disso deu resultado, e agora apenas um golpe de força militar pode impedir a posse de Joseph Biden e Kamala Harris, em 20 de janeiro próximo.

 A administração Trump deixa como legado na América Latina o fortalecimento de uma extrema direita fascista com identidade própria e ação coordenada em quase todos os países do continente, fruto do trabalho do especulador financeiro, preso pela justiça dos EUA e libertado sob fiança, Steve Bannon, ideólogo maior de Donald Trump e sua família. Acumula, por outro lado, fracassos semelhantes às administrações democratas anteriores, falhando em sufocar os governos de Cuba, Venezuela e a insurgência colombiana, apesar de deixar um saldo de perdas econômicas bilionárias e também perdas humanas, com migração forçada, falta de acesso a remédios e fortalecimento de grupos terroristas e milicianos nesses países.

Trump também coleciona derrotas eleitorais, como a da Argentina, quando Maurício Macri – também apoiado por Bolsonaro – foi derrotado por Alberto Fernandez, em 2019. Na Bolívia, o golpe militar apoiado por Trump logo foi revertido pela eleição de Luiz Arce, do Movimento ao Socialismo (MAS), para a presidência.

Apesar do discurso anti-China protagonizado por Trump, com fortes características racistas, a região viu a presença econômica e cultural do imperialismo chinês ficar ainda mais forte nos últimos anos. Segundo o Global Development Policy Center, a região da América Latina e do Caribe alcançou níveis recorde de comércio com a China em 2018, tanto na importação como na exportação. A China continua sendo o mais importante mercado exportador da América do Sul e o segundo, atrás apenas dos EUA, em exportações vindas do Caribe. Talvez não seja demais recordar que aqui se trata de exportações de produtos primários, as famosas commodities.

O discurso de preservação do meio ambiente e de preocupação com as mudanças climáticas foi praticamente esquecido pelo governo dos EUA nos últimos anos e deve voltar com força, como instrumento político de pressão sobre os governos da América Latina e do Caribe.

Um novo campo político dos EUA no continente

O ano de 2021 começa com os EUA seriamente debilitado em sua posição de potência imperialista unipolar no mundo. A economia dos EUA não consegue mais vender o  sonho americano para sua população que enfrenta o desemprego, os baixos salários, a falta de moradia, uma pandemia de uso de drogas lícitas e ilícitas e centenas de milhares de mortos e sequelados pelos efeitos do novo coronavírus.

A grave crise vivida pelos Estados Unidos da América se expressou nas últimas eleições presidenciais: um país dividido, sem rumo, afundado em corrupção e escândalos. Este Estado degenerado detém, no entanto, a maior potência militar já construída na história da humanidade, muitas vezes superior à capacidade de guerra de todos os Estados adversários.

O primeiro movimento da administração Biden será, portanto, a reconstrução de um campo político de aliados dos EUA no continente, com o objetivo de pressionar os povos em defesa dos seus interesses. Este é um movimento que passará, necessariamente, por uma renegociação com os governos ditos progressistas da região, especialmente os da Bolívia, Argentina, Venezuela e México, em um jogo de pressões e chantagens nas instâncias diplomáticas e na esfera econômica.

O isolamento do governo brasileiro de Jair Bolsonaro parece ser inevitável frente ao novo governo dos EUA. Após um período em que o grande aliado de Bolsonaro na Casa Branca nada vez para aumentar investimentos ou favorecer políticas do governo brasileiro, derrotar Bolsonaro e sua política ambiental e de direitos humanos deve ser uma necessidade para Biden na construção de seu discurso e de seu campo político.

Os tradicionais aliados dos EUA na região parecem a postos para cumprir seu papel nessa nova jornada. Na América do Sul, a Colômbia do presidente Ivan Duque espera manter uma relação “estratégica, bipartidária e bicameral” com Biden, o que na prática significa total submissão política em troca dos bilhões de dólares em financiamento militar anualmente investido. Duque disse ter uma relação “amigável” com Biden, a quem descreveu como “um dos arquitetos no Senado do Plano Colômbia”, uma estratégia bilionária contra a insurgência e de apoio a milícias paramilitares.

No Caribe, a República Dominicana do presidente recém-eleito Luis Abinader vem dando sinalizações de alinhamento aos EUA na medida em que proclama o não reconhecimento às últimas eleições venezuelanas e ao governo de Nicolás Maduro.

Este campo político construído por Biden apoiará nas eleições da região governos de estilo liberal-democrata. Vai fortalecer, como é tradição dos democratas, inclusive com Barack Obama, redes de espionagem e inteligência através de suas conexões comerciais e diplomáticas. Esses redes têm se tornado cada vez mais argutas e têm se desenvolvido para além dos monopólios de mídia, dos oficiais das forças armadas e diplomatas até influenciarem, de maneira direta, os sistemas judiciários em uma corrente prática de uso da lei para ações de guerra, o chamado lawfare. Estão previstas em 2021 as eleições presidenciais do Equador (fevereiro), Peru (abril) e Chile (novembro), paíse chave para a influência dos EUA na região.

Do ponto de vista econômico, o combate à influência chinesa na região estará no topo das prioridades da política externa de Biden para a América Latina e o Caribe. Não é possível prever, no entanto, a estratégia que será utilizada em termos de política econômica concreta, realmente porque o governo dos EUA, há algum tempo, parece não ter uma direção neste tema. O período de forte investimento, da exportação de capitais através da implantação de plantas produtivas em países como Brasil ou Argentina, parece não ser capaz de voltar a acontecer. O período ultraliberal do consenso de Washington, de completa desregulamentação do mercado financeiro, austeridade social e controle monetário parece totalmente condenado ao fracasso e incapaz de oferecer qualquer saída para o período atual. O governo dos EUA parece paralizado frente a esses desafios e incapaz de liderar qualquer saída, como conseguiu fazer no século passado.

Essa posição defensiva é o que torna o imperialismo dos EUA potencialmente ainda mais agressivo nesta quadra histórica. Incapaz de liderar a comunidade de nações americanas por novas conquistas sociais, os estadunidenses, com Biden à frente, vão lutar para não perderem a influência e o controle econômico que exercem sobre o continente.

Será uma luta desesperada, que evidentemente trará ainda mais instabilidade política e social para a região, em um contexto de maior agravamento da situação econômica. A par dos perigos, esse novo momento abre também uma nova oportunidade para os países dependentes da região, de construírem na luta sua soberania nacional e fortalecerem a unidade anti-imperialista no continente, edificando um caminho de independência econômica e política que só pode surgir a partir da luta social organizada.

Sandino Patriota, São Paulo.

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