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Capitalismo impede o fim da pandemia de Covid-19

Ludmila Outtes
Presidente do Sindicato dos Enfermeiros no Estado de Pernambuco (SEEPE)


Apesar do bloqueio econômico, Cuba avança seu processo de vacinação. Foto: José Correa / Granma.

BRASIL – Para existir, o capitalismo necessita que uma minoria, dona dos meios de produção, explore a maioria da população. Com seu avanço, o grau de exploração aumenta na mesma proporção em que se acumulam as riquezas e se amplia a distância entre os ricos e pobres. E nem a pandemia fez isso parar.

Aos que defendem que o vírus não escolhe ricos ou pobres, negros ou brancos, basta olhar os números da pandemia para perceber que a sentença não é de todo certa: mesmo nos países com acesso universal ao sistema de saúde, a maior parte dos mortos está nas classes menos favorecidas, e os negros são os mais atingidos. No Brasil não foi diferente. Basta lembrar que a primeira vítima da Covid-19 foi uma empregada doméstica.

Infelizmente, com a vacina não está sendo diferente. Na corrida pela vacina, os países mais ricos do mundo – que representam apenas 14% da população mundial – compraram mais da metade das vacinas em desenvolvimento, segundo estudo publicado pela Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg (EUA). Essas vacinas são suficientes para imunizar três vezes a população total desses países. Ou seja, a corrida não é apenas para imunizar seu povo, mas sim para estocar o produto mais cobiçado do momento e, quem sabe futuramente, usá-lo como fonte de lucro.

Na contramão, em 67 nações pobres do mundo, estima-se que apenas 1 em cada 10 pessoas terá acesso à vacina até o final deste ano. África, Américas do Sul e Central somam só 6% das vacinas aplicadas no mundo (CNN Brasil, 20/02/2021). Na África, uma proporção significativa da população nem mesmo será vacinada até 2024 (ActionAid, 11/02/2021).

O grupo People’s Vaccine Alliance, que acompanha a produção e distribuição da vacina contra a Covid-19 em todo o mundo, solicitou às companhias farmacêuticas que compartilhem a tecnologia e a propriedade intelectual com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e que os governos se comprometam a enviar vacinas aos países mais pobres, visando a redução da disparidade econômica entre as nações. “Ninguém deve ser impedido de conseguir uma vacina que salva vidas por causa do país onde vive e/ou da quantidade de dinheiro no bolso”, disse Anna Marriott, gerente de políticas de saúde da ONG Oxfam, uma das instituições que compõem a People’s Vaccine Alliance.

No discurso de abertura do Comitê Executivo da OMS, em 18 de janeiro de 2021, o diretor geral Tedros Adhanom também advertiu sobre os efeitos danosos que essa iniquidade irá causar. “Devo ser franco: o mundo está à beira de um fracasso moral catastrófico, e o preço desse fracasso será pago com as vidas e meios de subsistência dos países mais pobres”, declarou.

 

Saúde como mercadoria

Hoje, muitas empresas têm buscado ainda a fabricação e eficácia de vacinas contra a Covid-19. Entre as farmacêuticas que conseguiram finalizar os testes e comprovar eficácia das vacinas estão a Moderna (EUA), Oxford/AstraZeneca (Reino Unido), Sinovac (China), BioNTech/Pfizer (Alemanha), Sputinik V (Rússia), Sinopharm (China) e Covaxin (Índia). Porém, apesar da imensa necessidade, a produção dessas vacinas ainda encontra barreiras para sua expansão, principalmente devido às restrições ligadas ao direito de propriedade intelectual e de tecnologia, necessárias para a produção em massa dessas substâncias.

Numa tentativa de massificar a produção das vacinas e possibilitar uma distribuição mais rápida, ampla e barata, a África do Sul e a Índia pediram à Organização Mundial do Comércio que renunciasse a certos direitos de propriedade intelectual dadas as atuais circunstâncias. Porém, os Estados Unidos, União Europeia, Japão, Canadá e Suíça estão entre os maiores oponentes dessa proposta (ActionAid, 11/02/2021).

Durante a pandemia de HIV, a ActionAid viu em primeira mão como as regras de propriedade intelectual e outras barreiras limitaram artificialmente os suprimentos para o tratamento e aumentaram os preços, resultando em milhões de mortes desnecessárias. Não devemos permitir que a história se repita”, declarou Julia Sánchez, secretária-geral da ONG ActionAid.

Porém, é exatamente isso que está acontecendo com a produção das vacinas e o mesmo que faz girar a roda do mercado farmacológico em todo o mundo: o que importa para essas empresas não é salvar vidas, mas sim se aproveitar da necessidade do povo para elevar seus lucros. A corrida pelo desenvolvimento da vacina para os cientistas têm como intuito dar fim à pandemia e evitar novas mortes, mas para os donos das empresas significa apenas quem pode ganhar mais dinheiro, mais rapidamente.

 

Quando a sede de lucro mata

Assim, devido à ganância sem fim da burguesia, a pandemia não parece estar indo embora. Apesar de no nosso país as dificuldades serem bem maiores (um presidente que tem como política matar os pobres, um governo que desvaloriza a ciência e precariza o SUS), vemos que no mundo a Covid-19 ainda está longe de ter fim, mesmo com o avanço da vacinação em alguns países.

Vírus não tem fronteiras, então essa falta de equidade vacinal gera uma proteção aparente – ou seja, quando países ficam sem vacinas isso propicia o surgimento de variantes que afetarão também os países vacinados”, explicou Rodrigo Stabeli, pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz.

Isso é tão verdadeiro que já está começando a acontecer: em fevereiro, um italiano foi infectado com a variante brasileira do novo coronavírus mesmo após ter recebido a vacina. Também já foi confirmado por estudo que uma nova cepa encontrada na África do Sul é capaz de reduzir em dois terços a proteção de anticorpos da vacina desenvolvida pela Pfizer/BioNTech. Ainda se estuda se essas cepas são mais virulentas (maior capacidade de ser transmitida) e mais letais que as demais.

De toda forma, já fica claro que enquanto não houver uma urgente distribuição equitativa entre as nações, a pandemia estará longe de ter um fim, ceifando mais vidas, principalmente entre os mais pobres, que são os que têm menos acesso à assistência à saúde.

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