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A luta pela memória dentro do movimento camponês

REFORMA AGRÁRIA – A luta pela terra faz parte da história de construção do Brasil (Foto: Reprodução)

Diogo Romão

SÃO PAULO – Em 2021 completam-se 25 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, o maior massacre já realizado pelo Estado brasileiro ao movimento camponês, onde 21 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) foram assassinados friamente pela Polícia Militar enquanto lutavam pela reforma agrária.

A repressão aos movimentos de luta pela terra é uma prática que faz parte da história do Brasil, passando pela invasão dos Europeus no país, pelo desenvolvimento do trabalho escravo e por todo o sistema colonial. Dessa forma, os movimentos atuais da luta no campo, como o MST, são herdeiros de uma longa e contínua história de luta por direitos que viu no século XX um de seus mais importantes momentos, como consequência do radicalismo político do momento e da influência dos comunistas na luta campesina que levou à levantes, revoltas e greves em fazendas de café e cana-de-açúcar.

Na década de 40, logo após sua posse como Presidente em 1946, Eurico Gaspar Dutra, dito presidente democrático, coloca o Brasil em aliança com os Estados Unidos durante a Guerra Fria e inicia uma luta anticomunista no país, cassando a participação dos comunistas no sistema político-partidário brasileiro e reprimindo violentamento os movimentos populares no campo que reivindicavam melhores condições de trabalho, de educação para as crianças, de transporte e de acesso à terra.

Apesar da violenta repressão e da perseguição política, muitos heróis brasileiros se forjaram na luta no campo pela reforma agrária, grande parte deles foi excluída da história contada pelos ricos. Jôfre Corrêa Netto, por exemplo, chamado pela grande imprensa no período pré-golpe de 1964 de “Fidel Castro do Sertão”, lutou junto à 800 famílias contra sua expulsão das fazendas da fronteira agrícola do noroeste do estado de São Paulo, em Santa Fé, conquistando importantes vitórias. Outro exemplo é o de José Honorato Lemos, agricultor alagoano que migrou para o Pontal do Paranapanema, interior de São Paulo e região com um dos maiores conflitos fundiários do país, na década de 40; na luta pela terra José fundou o Sindicato de Sitiantes e Arrendatários de Mirante do Paranapanema e confrontou o poder local do latifundiário e grileiro Labiano da Costa Machado, que tentava expulsar os posseiros que ocupavam terras na região, sendo assassinado em 1953 pelo polícia do governo de Getúlio Vargas.

O apagamento dessas e outras histórias de rebeldia no campo está intimamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo agrário no Brasil e ao ideário de progresso e modernização do agronegócio. Segundo essa ideologia, os “com-terra” e os “sem-terra” teriam interesses convergentes e complementares e formavam uma relação comparada a uma família, “o clã fazendeiro”. Longe de ser verdade, essas relações eram e são permeadas por forte exploração, autoritarismo e diversas barbáries.

A ideia propagada pela burguesia de que os camponeses, até 1959, eram um povo passivo, sem tradição de luta e participação política, nada mais é do que uma narrativa que apaga a própria história de mobilização camponesa e uma série de levantes, revoltas, greves, motins, etc.

O reconhecimento dessas outras histórias não só interfere diretamente no comportamento do presente como também contribui para minar a percepção da perpetuidade do reino da dominação. Parafraseando Walter Benjamin: O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo de todos aqueles convencidos de que nem os mortos estão em segurança enquanto a burguesia continuar a existir.

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