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Slam lugar de luta: entrevista com slammer Daniel Carvalho de Almeida

RESISTÊNCIA – Slam é um espaço de resistência cultural das periferias (Foto: Reprodução)

Gabriela Lisboa e Felipe Gonçalves da Silva

SÃO PAULO – A poesia Slam é um fenômeno de poesia oral em que poetas, conhecidos como slammers, abordam criticamente temas como racismo, violência, drogas, entre outros, e buscam despertar a plateia para a reflexão, a tomada de consciência e a atitude política. Em 2008 o Slam chegou ao Brasil por meio de Roberta Estrela D’Alva, a mais conhecida slammer brasileira, que conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de Poesia Slam 2011, em Paris.

As batalhas de slam acontecem em várias regiões e são organizadas por fases, com três minutos para cada participante: esse é o tempo que eles têm para fazer sua apresentação, que precisa ser autoral e feita sem auxílio de figurinos ou instrumentos musicais; qualquer pessoa pode participar, basta se inscrever, e os jurados são escolhidos aleatoriamente. Essas são as regras mais comuns, podendo mudar de acordo com a região.

O jornal A Verdade entrevistou o slammer Daniel Carvalho de Almeida, 32 anos, professor e morador da COHAB I, Zona Leste de São Paulo.

Como você conheceu o slam e ingressou no movimento?

No ano de 2014, iniciei um projeto de literatura numa escola da periferia (Zona Leste), esse projeto teve retornos positivos, recebeu três vezes o prêmio Paulo Freire e os alunos publicaram livros de poesia. Mas, como profissional da educação, sempre questionei a produção de poesia que aprendi nas universidades, esse campo limitado, eurocêntrico. Eu e um amigo, Lucas Barbosa, tínhamos um projeto de fazer algo autoral, pois partilhávamos da mesma visão sobre a poesia clássica; no entanto nossa formação tinha muitas lacunas em relação à literatura contemporânea, afro e oriental.

Nessa busca conhecemos o sarau da Casa Amarela em São Miguel, que tem poetas e artistas bons e pouco reconhecidos. Depois, vimos um vídeo do slam e pensamos “quero fazer isso aí”. Conhecemos o Slam da Guilhermina e, naquele momento, não conhecia nenhum poeta, mas senti que os conhecia de alguma forma, pois tudo que elas falavam era de certa forma o que eu sentia como sujeito periférico. Eu me lembro de uma frase do Marcel Proust: “Não é a gente que lê o texto, e sim o texto quem nos lê.” Naquele momento tive a certeza de que era aquilo que eu queria fazer.

Qual sua referência de poesia?

Tenho várias referências, fica até difícil dizer uma, mas, Manoel Barros, pois ele ensina a perceber as coisas com um olhar simples e com detalhes, traz um olhar poético sobre a vida e isso é importante. Já referência no slam, diria Clamant, João Paiva, Luiza Romão.

O que ajuda a criar um roteiro, uma apresentação para o slam?

A própria realidade do país. geralmente minhas apresentações são sobre temas críticos, políticos e catastróficos; o som da palavra me expira também e a questão da performance, mas isso eu exploro pouco, pois não tenho conhecimento tanto em teatro. O slam tem muito a poesia do corpo, a ideia de corporeidade, essa ligação entre som e corpo acaba levando muitos MCs, atores e atrizes a fazerem slam também.

Qual é a importância da poesia para você? E a importância do slam?

Vou responder essa pergunta com Vygotsky: “A arte é um mecanismo biológico permanente e necessário de superação de excitações não realizadas na vida.” Ou seja, sem arte não existe existência humana. Vygotsky mostra duas saídas para a crise, para as coisas que não realizamos em vida: a sublimação e a neurose. A sublimação conseguimos atingir por meio da arte, desviamos alguns dos nossos problemas, há uma pulsão que desvia para arte; já a neurose leva para outros caminhos, é uma “saída” patológica e individual.

Vygotsky mostra que pra gente sair dos dilemas patológicos e individuais, a arte que caminha para questão da sublimação, é algo socialmente útil. Assim, o slam se torna um espaço de pessoas que têm sua cultura negada, claro que há bastante diferença entre cada um, existem seus recortes, mas todas as pessoas que moram na periferia têm sua arte negada, sua cultura e sua literatura negadas. O slam vira palco para isso, ele dá visibilidade, ele traz um espaço de pertencimento.

Como você entende a importância da poesia neste período de quarentena/isolamento social?

Vou responder com uma frase da Michèle Petit: “a literatura pode ser uma forma de recuperação de danos psíquicos e sociais”. Ela mostra a literatura como uma forma de resistência ao caos interior e à exclusão social. Eu gosto muito de trazer Michèle Petit, é uma antropólog francesa, pois ela explica como a literatura pode servir como recurso terapêutico; lógico, ela não vai substituir uma terapia, existem vários recursos terapêuticos como, por exemplo, meditação, yoga, atividade física, uma boa alimentação, a poesia e a arte.

Pensando no momento que estamos vivenciando, a Michèle Petit traz, nos seus livros, exemplos de quando a crise é intensa e como a literatura serviu como espaço de acolhimento, uma grande aliada para suportar o que está acontecendo.

O Slam tem como característica atitudes de resistência que visam o compartilhamento dos sentimentos. Por assumir esse caráter político podemos considerá-lo enquanto um espaço de enfrentamento às desigualdades sociais? Como você acha que o slam interfere na agenda cultural das periferias?

O slam tem característica de resistência aqui no Brasil, em outros lugares é um pouco menos. É um espaço de enfrentamento das desigualdades que dá visibilidade, ele é um lugar em que as pessoas podem ter voz. Porém, tem seus problemas, não dá para colocar o Slam como um símbolo de revolução, porque ele tem muitas coisas para debater, ele é fruto do capitalismo e coloca a poesia como competição, precisa colocar isso para as pessoas se reunirem, pois o mundo é competitivo e, se não fosse isso, seria um sarau, algo que muitos slammers consideram “chato”, “parado”.

Os problemas com a competitividade levam ao progressismo liberal, essa onda política de uma juventude que se esquece do recorte de classe em suas análises, nas suas falas e nas suas posturas, que refletem questões do neoliberalismo, que foi também um problema no rap, esse lance de pensar o empoderamento como consumo, como andar de corrente de ouro, essas coisas tem no slam também.

Não dá pra falar que é um espaço revolucionário, mas é um espaço de enfrentamento; ele interfere nas agendas culturais da periferia, alguns conseguem a partir do slam, por exemplo, fonte de renda, uma ajuda financeira.

Nas agendas culturais, em eventos de cultura, o slam tem permeado bastante, vem crescendo, virando destaque, ele aparece até em vestibulares, nos livros, nas reportagens, ele vem se tornando um elemento de cultura, ou melhor, vem sendo reconhecido como elemento de cultura, como literatura.

Com esse espaço de reconhecimento, ele interfere bastante na agenda cultural a partir do momento que é notado. Essa agenda cultural começa a se moldar por conta dele. Antes o Slam era excluído, agora começa a moldar essa agenda. Vejo dessa forma, o reconhecimento do Slam leva ao reconhecimento dos sujeitos periféricos que o produzem e, com isso, o reconhecimento do território, que é periférico, à margem.

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