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Ser ferreiro e livre em Minas e em Angola

COLONIZAÇÃO. Trabalho escravo foi a base da exploração das riquezas nacionais durante quase quatro séculos no Brasil (Imagem: Arquivo Nacional)

O ofício para um escravo poderia representar um meio de adquirir e manter a liberdade, conquistando espaços importantes seja enquanto cativos – por meio das relações de compadrio e proteção, por exemplo –, ou quando conseguiram alcançar a liberdade – herdando bens do senhor. Isso não exclui a presença de conflitos, pois mestres e cativos usaram de subterfúgios, táticas e acordos para concretizarem seus interesses. A escravidão estrutural formava hierarquias internas entre mestres e aprendizes, senhores e escravos.

Crislayne Alfagali
Professora de História, (PUC-Rio), autora dos livros “Em casa de ferreiros: os artesãos do ferro em Vila Rica e Mariana (séc. XVIII) e “Ferreiros e fundidores da Ilamba”, sobre ferreiros em Angola


HISTÓRIA – Quando lembramos das Minas Gerais setecentistas, personagens como Tiradentes, Aleijadinho, mestre Ataíde e Chica da Silva logo surgem no nosso imaginário. Em suas tendas, fundindo e forjando ferro, os ferreiros, ferradores, latoeiros e outros artesãos foram igualmente responsáveis pelo universo material e cultural mineiros, embora notícias de suas vidas sejam menos frequentes nos manuais escolares.

Na pedra e cal que apoiava a cantaria, nas ferramentas que sustentavam a mineração e a agricultura, nas cadeias e algemas que aprisionavam e torturavam escravizados e os que se rebelavam e fugiam da norma política, social e religiosa de então. Evoco aqui a trajetória de um deles: outro Ataíde, Eusébio da Costa Ataíde, nascido em 1727, em Vila Rica do Ouro Preto, filho de pai incógnito e de Francisca Mendonça, africana de “nação” Mina (como era comum identificar a possível procedência dos escravizados à época, é possível que ela tenha alcançado a liberdade).

Eusébio alcançou notoriedade em Ouro Preto exercendo seu ofício e, em 1804, aos 77 anos, “ainda era o mais solicitado entre todos os profissionais de sua especialidade”, como diz um censo de então (de Herculano Mathias). Morava na “Ladeira dos caldeireiros”, que indica uma relação de vizinhança entre trabalhadores do mesmo ofício. Uma escrava, a Bárbara, de um dos seus colegas ferreiros, Baltazar Azevedo, indicou Eusébio como seu fiador para o pagamento da sua liberdade. E conseguiu porque Eusébio era “muito abonado e suficiente como é notório”, como disse o juiz que decidiu a favor da escravizada.

Participou de uma irmandade de “homens pardos”, a de São José, ligada aos artesãos, e foi juiz e examinador do ofício de ferreiro. Ou seja, havia um percurso burocrático para exercer o ofício, que era controlado por mestres e pelas câmaras municipais. Teve casas, oficina e ao menos 11 escravos. Alguns de seus cativos receberam a liberdade ou a coartação, que era uma alforria condicional, que seria efetivada mediante pagamentos parcelados. Ao “rapaz Francisco pardo”, que foi criado por Eusébio, alforriou no testamento, com a condição de que só seria livre quando tivesse “suficiência completa de poder trabalhar pelo seu ofício de serralheiro (…) que se acha aprendendo”. Contudo, uma família escravizada sob seu poder, que tinha como pai “Francisco crioulo”, ferreiro, fugiu no momento da partilha dos bens porque seu filho Adão (4 anos) não foi agraciado com a alforria. Adão foi preso em 10 de julho de 1825, depois de viver anos refugiado em companhia de sua mãe, nas “partes da Boa Morte ou Paraopeba”, com cerca de 22 anos. Consta que era “ex-oficial de ferreiro”. Foi vendido e arrastado novamente à escravidão.

O ofício para um escravo poderia representar um meio de adquirir e manter a liberdade, conquistando espaços importantes seja enquanto cativos – por meio das relações de compadrio e proteção, por exemplo –, ou quando conseguiram alcançar a liberdade – herdando bens do senhor. Isso não exclui a presença de conflitos, pois mestres e cativos usaram de subterfúgios, táticas e acordos para concretizarem seus interesses. A escravidão estrutural formava hierarquias internas entre mestres e aprendizes, senhores e escravos.

Por fim, cabe ressaltar um episódio derradeiro da longa vida do nosso biografado – 79 anos (1727-1806). Seu nome aparece nos Autos da Inconfidência Mineira porque hospeda um dos inconfidentes, o civil Crispiniano da Luz Soares, que foi preso por conversar com Salvador Gurgel “à porta da casa de Eusébio”. Crispiano era um homem mulato, alforriado e alfaiate e declarou que: “viera das bandas do Sabará, por ocasião da Semana Santa (5 a 12/04/1789) e que nela fora hóspede de Eusébio da Costa Ataíde, onde sempre residiu”. Ligações no mínimo intrigantes. Infere-se que os artesãos estavam integrados a um debate político que não se restringiu à elite, pois o ferro em barras, ou já obrado, fazia parte de um grupo de mercadorias necessárias e não disponíveis na Capitania, como o aço, o chumbo, o cobre e o estanho. A taxação sobre esse produto era lucrativa para a Coroa e abusiva para os colonos e havia as restrições à fundição de ferro e comercialização de produtos obrados. Um assunto que era fundamental para os ferreiros e também para os inconfidentes letrados.

Neste ponto, vale lembrar dos conhecimentos metalúrgicos africanos, que em Minas, eram majoritariamente oriundos da África Centro-Ocidental. No século XVIII, em Angola, a Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras foi edificada pela iniciativa colonial lusa e funcionou por anos. Era suntuosa e foi planejada para funcionar como as ferrarias hidráulicas do Norte da Espanha. Quatro mestres biscainhos foram enviados para Angola para garantir a correta execução dos planos do governador luso. Contudo, a fundição que realmente foi bem-sucedida foi apagada no terreno e na memória, escondida nas entrelinhas da documentação oficial. Encontramos a “Casa de fundição dos pretos”, onde trabalhavam ferreiros locais e toda a ferraria de Nova Oeiras foi produzida. Na pequena fundição, ao lado da grande fábrica, fornos escavados na terra, foles cobertos com pelos de cabrito e pedras serviam de ferramentas para os ferreiros e fundidores africanos exportaram aproximadamente 60 toneladas de ferro e aço de 1765 a 1800, além de 30 a 40 quintais (1,8 t a 2,4t) mensais que abasteciam Angola. E é nesse local que as conexões atlânticas sobre técnicas de fundição cruzam-se. Do outro lado do Atlântico, inúmeros quilombos, em Minas, tinham “casas de ferreiro”.

A Real Fábrica de Nova Oeiras não é um tema novo para a historiografia sobre Angola Setecentista. Pelo contrário, diferentes gerações de historiadores, com perspectivas igualmente diversas, revisitaram o projeto do famoso administrador-filósofo, o governador que era expressão máxima do esforço reformista da ilustração portuguesa. É por isso que começo essa história de outra forma, buscando lógicas e determinações locais, com Pedro Manoel, um fundidor do interior de Angola. Seu ofício era complexo e desgastante, por isso contava com a ajuda de auxiliares e aprendizes, sempre acompanhado por dois foleiros ou “tocadores de foles”. Os ajudantes rasgavam serras de pedra em busca de minério de ferro, que era partido em pedaços pequenos para ser mais bem fundido. Esse era só o começo do trabalho: era preciso cortar lenha, preparar o carvão, construir o forno, recolher feixes de papiro, controlar meticulosamente o tanger dos foles, entre outras tarefas. Por meio de métodos que misturavam conhecimentos práticos com saberes secretos, do mundo invisível, adquiridos pelos seus antepassados e aperfeiçoado durante muitas gerações, Pedro fabricava ferro e aço de excelente qualidade.

Pedro e outros nomes de ferreiros e fundidores locais não foram citados anteriormente. Para os meus objetivos, é de suma importância perguntar: O que Pedro Manoel, o fundidor, pensou de tudo isso? Essa é uma resposta difícil de encontrar nas fontes, já que seu nome e seu ofício são praticamente tudo que sabemos sobre ele. Porém, enquanto grupo de artífices – os ferreiros e fundidores –, ele e seus companheiros deixaram algumas impressões sobre a fábrica de ferro, nas entrelinhas da documentação oficial. Foi esse rastro de vestígios que procurei seguir.

Os líderes locais do antigo Reino do Ndongo, que no século XVIII tornou-se o Reino de Angola, e ferreiros mineravam ferro há séculos na região, inclusive por meio de minas subterrâneas. Em muitos mitos fundadores das sociedades da África Central, era frequente a associação entre o ferreiro e o poder político. O primeiro rei do Ndongo teria sido um ferreiro que era chamado de gongolhas (sic) (em kimbundu/kikongo ngangula ou no plural jingangula) – o que fazia com que a ocupação fosse muito estimada e envolta por prestígio social e econômico.

O governador luso queria transformar ferreiros que tinham uma posição social, religiosa e econômica relevante nas suas comunidades em trabalhadores da fábrica. Antes fundiam o ferro em estações específicas, com ritos e técnicas sagradas. Na fábrica, deveriam trabalhar o ano inteiro, longe de suas famílias e aprender novas técnicas, as europeias, vindas da Biscaia. A reunião de trabalhadores em um ambiente laboral controlado, colocava em jogo o controle técnico do processo de trabalho, da produtividade e da comercialização dos produtos. O governador oferecia também uma parca remuneração para incentivar o trabalho em Nova Oeiras.

Adianto o resultado dessa experiência industrial em Angola, os jingangula recusaram o modelo fabril, modos de vida opostos aos seus ao ponto de o governador luso ordenar a um de seus subordinados: “vossa mercê deixará os Negros Ferreiros e Fundidores livres ao seu arbítrio para obrarem o que bem lhes parecer, visto que não há outro meio de conduzir semelhantes gentes”. Ora, “semelhantes gentes” não parecem ter sido tão facilmente cooptadas, “conduzidas” como o govenador esperava: nem com “persuasão” e nem com “módicos salários”. Os ferreiros e fundidores recusaram o ritmo de trabalho e as exigências de produção que o projeto da Real Fábrica do Ferro tentou impor. Isso porque seguiam outro ritmo que nada tinha a ver a disciplina da fábrica, fundiam e forjavam “segundo os seus ritos”, como citam as fontes. Ao seu modo, buscaram a sua visão de liberdade, em Minas e em Angola.

 

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