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Prêmio Nobel reflete falta de representatividade na ciência

Medalhe do Prêmio Nobel nunca foi entregue à um negro na área da ciência.

Lucas Marcelino, professor da rede estadual de SP e especialista no ensino de química


SÃO PAULO – Todos as grandes premiações para os seres humanos mais destacados em suas áreas passaram por questionamentos nos últimos tempos devido a baixa diversidade entre os vencedores. O Prêmio Nobel, um dos mais antigos e prestigiados em todo o mundo, passou ao largo da discussão e premiou apenas uma mulher entre os treze vencedores dos seis prêmios distribuídos em 2021.

Em toda a história do Prêmio Nobel, apenas cerca de 5% dos prêmios foram entregues para mulheres. Entre as nacionalidades, os prêmios estão concentrados em países ricos e imperialistas como EUA, Alemanha, Reino Unido e França e nunca um negro ou uma negra foi premiado na área de ciências.

A discussão sobre representatividade foi muito forte no meio artístico com o Oscar e o Emmy. A pressão surtiu efeito e levou a uma alteração importante: o júri se tornou mais diversificado e os resultados também.

Mas por que isso não aconteceu no ambiente científico muitas vezes reconhecido pelo elevado grau de liberdade em relação a religiões, opiniões políticas, questões morais e outras pressões que impõem certas concepções preconceituosas a seus praticantes?

Muitas vezes a ciência é vista como neutra e alheia à sociedade, seguindo seu caminho em meio aos momentos mais tensos e complexos da história. Mas acontece que a ciência é feita por seres humanos e suas instituições que estão longe de serem livres de preconceitos e, assim como qualquer discriminação, sofrem influência de questões econômicas, sociais e políticas. Ou seja, a ciência não é neutra, mas fruto da sua época.

É verdade que a ciência venceu com maior rapidez alguns debates que ainda são necessários na sociedade e já demonstrou que posições preconceituosas e discriminação por raça, orientação sexual, gênero, religião ou qualquer outra não contém nenhum embasamento natural.

Mas o debate sobre diversidade na ciência existe há mais de um século desde que Marie-Curie quase ficou de fora da premiação pela explicação do fenômeno da radioatividade e da descoberta de dois elementos químicos. Em anos recentes foi retomado pelo resgate de mulheres como Rosalind Franklin que não foi reconhecida pela descoberta do formato de dupla hélice do DNA.

Diploma de Marie Curie. Foto: Sofia Gisberg

Nos dois casos, e em muitos outros, mulheres foram vistas como meras assistentes dos homens responsáveis pelas descobertas – mesmo tendo participação fundamental. No caso de Marie-Curie, seu marido e colega de trabalho exigiu sua presença na lista. Já com Rosalind foi diferente: seus colegas foram laureados, mas ela ficou de fora pois ela havia morrido e não são dados prêmios póstumos.

A história de Alan Turing, importante desenvolvedor da ciência da computação, da inteligência artificial e do possível primeiro computador, foi contada pelo cinema e premiada pelo Oscar, mas esquecida pelo Nobel. As descobertas de Turing ajudaram a vencer o nazismo e livrar a humanidade da besta preconceituosa, mas não venceu o preconceito na Inglaterra pelo fato de ser LGBT.

O preconceito no Nobel também ocorre por questões políticas. Faz certo sentido que países economicamente avançados, que investem mais em ciência, tenham mais premiados. Mas ficam algumas questões que talvez qualquer pessoa entenda antes de alguns cientistas importantes:

Por que a China, atualmente um dos países que mais desenvolve a ciência e tecnologia, tem poucos premiados? Por que Barack Obama e políticos israelenses ganharam o Nobel da Paz mesmo autorizando e dando ordem ao bombardeio de pessoas inocentes na Palestina e no Oriente Médio? Porque países pobres da América Latina, África e Ásia tem a maioria dos prêmios em literatura e paz, sendo muitos por lutarem contra governos adversários dos EUA e da Europa?

Outro bom exemplo é o caso do Brasil que é conhecido por não ter nenhum prêmio Nobel – embora exista sim um vencedor brasileiro em Medicina e Fisiologia. Nunca tivemos cientistas dignos de Nobel? Deixo alguns exemplos esquecidos pela A Real Academia Sueca de Ciências e a Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska e pelas instituições que fazem a escolha:

Até hoje Carlos Chagas é conhecido como um dos poucos cientistas a explicar todo o mecanismo de uma doença; Oswaldo Cruz, Emilio Ribas, Vital Brasil e Adolfo Lutz foram responsáveis por estudos importantes das doenças tropicais; Bertha Lutz foi a responsável por colocar as mulheres na Carta dos Direitos Humanos da ONU como contei aqui (https://averdade.org.br/2020/10/bertha-lutz-a-mulher-que-revolucionou-a-biologia-no-brasil/); César Lattes foi co-descobridor do méson-pi e indicado sete vezes ao Nobel, mas somente seu chefe recebeu o prêmio; Mário Schenberg fez importantes descobertas na física e astronomia; Johanna Döbereiner estudou a fixação biológica de nitrogênio que permitiu reduzir o custo e o preço dos alimentos em todo o mundo, Jorge Amado e Carlo Drummond de Andrade estão entre os mais importantes escritores do mundo.

Em mais de um século muita coisa mudou na ciência e na sociedade. Nas universidades do Brasil e do mundo as mulheres são maioria e contribuem para grandes descobertas, países antes atrasados desenvolveram a ciência e a tecnologia a níveis inimagináveis, negros(as) e LGBTs aos poucos assumem postos importantes em instituições científicas.

A ciência avança a passos largos e parece que a consciência da comunidade científica anda ainda mais rápido, quase na velocidade da luz, onde o tempo permanece quase parado e o Nobel parado no tempo

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