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Bertha Lutz, a mulher que revolucionou a biologia no Brasil

LUTA PELA IGUALDADE – Bertha Lutz na Conferência que aprovou a Carta da ONU em 1945 nos Estados Unidos da América. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é negar justiça à metade da população”.
Lucas Marcelino

SÃO PAULO (SP) – O alarme soou em 02 de setembro de 2018: um incêndio destruiu boa parte do arquivo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Era o ápice do descaso com a cultura e a ciência no Brasil. E ali se unia a história de Bertha Lutz com a de outras mulheres cientistas.

Não que fosse novidade. Todos os anos, recebemos a notícia de que algum local de pesquisa ou arquivamento – como institutos e museus – queimou vítima do pouco valor dado ao conhecimento no Brasil e no mundo.

Prova dessa desvalorização é o fato de a Catedral de Notre-Dame, na França, ter arrecadado cerca de R$ 4 bilhões (750 milhões de euros) em doações para sua reconstrução após um incêndio enquanto o Museu Nacional recebeu apenas R$ 316 mil.

Respeitando o valor cultural, da religião e histórico da Catedral, não há comparação com o valor inestimável das coleções, arquivos e exemplares perdidos no incêndio do Museu Nacional. Alguns itens eram únicos, o que significa que parte da história da humanidade foi destruída de forma semelhante ao incêndio na lendária Biblioteca de Alexandria.

Mas não são apenas incêndios e perdas culturais que unem a grande biblioteca grega e seu famoso incêndio às cinzas mais recentes do Museu Nacional. Em ambos os casos, um pouco da participação das mulheres na ciência também virou pó.

Histórico de apagamento

Na história da humanidade, são pouco numerosos os exemplos de grandes cientistas, filósofas, pensadoras, heroínas ou políticas. E não porque não existiram, mas sim porque foram queimadas – literalmente ou não –, apagadas e escondidas pela versão masculina da história.

Hipátia é um dos maiores exemplos: grande matemática, filósofa e astrônoma; participava das assembleias ocupadas pelos homens e recebia pessoas de diversas partes para ouvir seus ensinamentos. Era também amiga de Orestes, prefeito de Alexandria. Ela, uma mulher pagã, ele um praticante da recente religião chegada ao Império Romano: o cristianismo.

Orestes era tolerante com os não-cristãos e permitia diferentes religiões e culturas. Mas como na onda neopentecostal que atinge o Brasil e queima terreiros de umbanda e candomblé, os cristãos de Alexandria foram ganhando força e passaram a pressionar para que todos os poderosos se convertessem. Viram em Hipátia uma barreira para a conversão de Orestes e uma inimiga de suas pretensões de dominação do maior Império da História.

Foi assim que um dia Hipátia foi atacada por uma horda de cristãos, esfolada viva com cacos de telhas, esquartejada e queimada como em um sacrifício a um deus pagão.

Cerca de 1.500 anos depois, no início do século XX, em um mundo que se considerava moderno, mulheres faziam grandes descobertas científicas. Uma delas trabalhava junto ao seu marido: Marie Curie.

Seus estudos sobre a radioatividade eram dignos de um Prêmio Nobel de Física, mas apenas os dois homens que trabalhavam com ela foram indicados. Por consciência ou amor, Pierre-Curie exigiu que sua mulher e parceira de pesquisas fosse indicada também, afinal, ela não era apenas uma ajudante, mas sim uma das mentes mais brilhantes da História, sendo, até hoje, a única pessoa a ganhar dois prêmios Nobel na área de ciências: um em Física e outro em Química, além de ter uma filha também ganhadora do Nobel em Química: Irene Joliot-Curie.

A mesma sorte não teve Rosalind Franklin – a bióloga descobridora do formato de dupla hélice do DNA. Seus “parceiros” de pesquisa deram um golpe e roubaram suas descobertas, anunciando como se fossem suas. Além de mudar a História da humanidade e se tornar uma das imagens mais tradicionais dos livros de biologia, também foi digna de um Prêmio Nobel, que Rosalind não recebeu.

E assim foi com tantas mulheres, como a paleontóloga Mary-Anning e a brasileira Bertha Maria Júlia Lutz.

Nunca haverá paz enquanto as mulheres não ajudarem a criá-la

Em 02 de agosto de 1894, nasceu Bertha Lutz. Bertha era filha do famoso cientista brasileiro Adolfo Lutz e da enfermeira inglesa Amy Fowler.

Ela se formou em Biologia pela Universidade de Sorbonne, em 1918 – uma das poucas universidades da Europa a aceitar mulheres como estudantes e a mesma onde Marie-Curie se formou e deu aulas.

Depois se tornou pesquisadora de anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) e deu continuidade aos estudos de Adolfo Lutz. Muitos de seus estudos acabaram creditados ao pai devido ao machismo da época.

Mas não foi só ciência que Bertha aprendeu na Europa.

Em 1911, estava no auge o Movimento Sufragista na Inglaterra. Por lá as mulheres exigiam seu direito ao voto como forma de conquistar mais direitos, já que tinham jornadas de trabalho enormes com salários menores que os dos homens e constantes assédios.

De volta ao Brasil, Bertha colocou em prática seus conhecimentos científicos catalogando 4.400 espécies de anfíbios anuros. Mas colocou em prática também seus conhecimentos políticos, exercendo grande trabalho na luta pelos direitos das mulheres.

Criou a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que organizaram o 1º Congresso Feminista do Brasil, em 1922. Sua trajetória se cruzou com a de Marie-Curie novamente quando, em 1926, foi responsável por receber a cientista polonesa e sua filha em uma visita ao Brasil.

Ao mesmo tempo em que fazia grandes contribuições científicas, liderava a campanha pelos direitos das mulheres e pelo voto feminino – conquistado em 1932 quando o presidente Getúlio Vargas instaurou um novo Código Eleitoral.

A participação das mulheres continuou limitada já que só as mulheres assalariadas podiam votar e, ainda, esse pequeno avanço foi retirado novamente em 1937, quando o mesmo Getúlio Vargas deu o golpe do Estado Novo, fechando o Congresso Nacional e instaurando uma ditadura no Brasil.

Mesmo assim, Bertha Lutz foi eleita suplente de deputada federal nas primeiras eleições com participação feminina, em 1934, e assumiu o cargo em 1936 até o golpe (após a morte do titular), exercendo o cargo com forte atuação pelos direitos das mulheres e por mudanças na legislação trabalhista como a igualdade salarial, licença maternidade de três meses e redução da jornada de trabalho.

Mas sua atuação não parou por causa da ditadura de Vargas. Ela representou as mulheres brasileiras na Assembleia Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos EUA e, em 1945, foi enviada pelo Itamaraty como delegada brasileira na Conferência de São Francisco, que fundou a Organização das Nações Unidas (ONU).

Havia ali apenas 3% de mulheres do total de 160 participantes de 50 países! Mas, graças a sua força e luta, foram incluídas no texto da Carta de Fundação da ONU menções sobre a igualdade de gênero.

Bertha teve que lutar, inclusive, contra a vontade de delegadas britânicas e estadunidenses. As delegadas latino-americanas apresentaram posições mais progressistas, segundo as pesquisadoras Elise Dietrichson e Fatima Santor, que estudaram os documentos da Conferência.

Pela força de Bertha Lutz, está escrito logo no segundo parágrafo do preâmbulo (introdução) da Carta de Fundação da ONU: “Nós, os povos das nações unidas, resolvidos a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e valor da pessoa humana e na igualdade de direitos de homens e mulheres.”

Sua história não pode virar pó

Em 1919, Bertha passou em primeiro lugar num concurso e se tornou a primeira secretária do Museu Nacional além de ser a segunda mulher a assumir um cargo público concursado no Brasil. Lá ela se aposentou como chefe do setor de botânica, em 1964.

Depois de uma vida toda dedicada à ciência nacional e à luta das mulheres, seu trabalho foi queimado no incêndio do mesmo Museu Nacional.

Viva Bertha Lutz: uma grande cientista, política e mulher brasileira que catalogou mais de 4.400 espécies nacionais; organizou e conservou os trabalhos e arquivos de material botânico e zoológico de seu pai e seus estudos, gerando um total de mais de 8.000 páginas; e que lutou pela igualdade entre homens e mulheres no Brasil e no mundo!

Nenhum incêndio ou apagamento será capaz de destruir a memória de Bertha Lutz para a ciência e a política do Brasil.

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