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quarta-feira, 6 de julho de 2022

As enchentes, os desastres do verão e o racismo ambiental

Enchentes na Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais deixaram centenas de milhares de pessoas desabrigadas em 2022. Foto: reprodução

Caio Souza 


SALVADOR – No último período de chuvas, que é característico do verão no Brasil, o povo pobre sofreu com enchentes e alagamentos em diversas cidades do país. Itabuna e outras cidades do sul da Bahia foram as capas de jornais da grande mídia durante várias semanas, mas o que a grande mídia não mostrou é que além das enchentes, a população brasileira também é vítima de um outro tipo de problema: o racismo ambiental.

Na Bahia, no último verão, mais de 400 mil pessoas foram afetadas pelo forte volume das águas das chuvas e quase 30 mil pessoas foram desalojadas. Cerca de 165 municípios decretaram estado de emergência e a tragédia contou com dezenas de mortos que deixaram suas famílias em total estado de angústia.

Em Minas Gerais, o número de desabrigados foi mais que 70 mil pessoas. O que se repete em outros estados do Brasil, provando que os problemas ambientais dos grandes centros urbanos as cidades do interior é fruto da política de morte do povo pobre e negro pregada pelo Estado brasileiro.

Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 80% da população baiana se autodeclarava negra, em 2018. O mesmo instituto informa que cerca de 500 mil casas na Bahia se enquadram no que é chamado de “aglomerado subnormal”. Estas são moradias caracterizadas por um padrão urbanístico irregular, carentes de serviços públicos essenciais e localizadas em áreas que apresentam restrições à ocupação. Em todo o Brasil, das palafitas de Belém-PA e Santos-SP aos morros do Rio de Janeiro, cerca de 12 milhões de domicílios também estão nessa situação.

Favelas cumprem função importante para manter a desigualdade em cidades pensadas para os ricos

São nas favelas em que se encontram a maioria da população pobre dos maiores centros urbanos no Brasil. É nesse tipo de moradia que a população não tem acesso à água potável, a coleta de lixo, a educação, a saúde, espaço de lazer e tantos outros serviços básicos.

E assim o povo negro historicamente foi forçado a ocupá-los pela necessidade de ter um teto para dormir. Sem condições dignas de moradia, o povo pobre e negro é palco dos desastres ambientais que esses ambientes estão sujeitos, como as enchentes, os desmoronamentos e o consumo de água poluída.

Com as garagens abertas eles lavam os carros, desperdiçam a água, eles fazem a festa

O trecho da música Fim de Semana no Parque gravada em 1994 pelo grupo Racionais MC’s faz uma crítica a forma de uso da água feito pela população de maioria branca de um bairro rico da capital paulista. Enquanto a população negra que é maioria nas favelas não tem acesso aos serviços básicos de saneamento. Mostrando a desigualdade no acesso a recursos naturais por diferentes classes.

O racismo ambiental se trata da injustiça que o povo negro, quilombola, indígena e demais comunidades racializadas sofrem relacionado ao meio ambiente. Desenvolvido pelas elites capitalistas para manter a exploração e a humilhação do povo pobre, justificar e culpabilizar as próprias vítimas pelos problemas ambientais sofridos. Além da manutenção de toda a violência ser alicerçada no próprio Estado brasileiro que é conivente com a forma de ordenamento das cidades e omissos aos crimes ambientais cometidos por mineradoras e setores agroindustriais.

Das vítimas do rompimento da barragem de Mariana e Brumadinho aos territórios indígenas contaminados por agrotóxicos, dos barracos desmoronados nas favelas e das casas inundadas pela água da chuva, são inúmeros os casos de pessoas negras ou indígenas que sofreram com racismo ambiental. Ambientalismo sem luta de classes não enxerga as necessidades do povo brasileiro e não passa de uma mera ilusão que não se consolida na luta anticapitalista. A luta ambiental a fim de acabar com a exploração do homem pelo homem requer recorte de classe, de raça e de gênero.

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