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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

“A saída para o Brasil é um governo que defende os trabalhadores e os pobres”, afirma Leo Péricles

Iniciada oficialmente no último dia 16 de agosto, a campanha presidencial conta, pela primeira vez, com uma candidatura apresentada pela Unidade Popular (UP), partido que conquistou seu registro eleitoral em dezembro de 2019, após recolher mais de 1 milhão e 200 mil assinaturas de apoio junto a eleitores de todo o país. Na missão de ser o candidato a presidente da República pela UP está o mineiro Leonardo Péricles, 41 anos. Nesta entrevista ao jornal A Verdade, Leo apresentar alguns dos principais eixos do programa da UP para mudar o Brasil.

Rafael Freire, da Redação


A Verdade – Qual a primeira medida que a Unidade Popular pretende tomar à frente de um governo no Brasil?

Leo Péricles – A primeira medida de um governo popular da UP será suspender o pagamento da dívida pública e realizar uma criteriosa auditoria. Esta dívida aumento em 3.000% após as duas décadas de ditadura militar no Brasil e, após a redemocratização, os seguidos governos mantiveram fielmente o pagamento de juros e refinanciamentos, que hoje consome metade do Orçamento da União, cerca de R$ 2 trilhões, segundo estudo da Auditoria Cidadã da Dívida. Ou seja, metade de tudo que o Governo Federal arrecada de impostos é repassado diretamente para os cofres dos banqueiros.

Isso impõe um freio ao desenvolvimento do povo brasileiro, pois a política econômica do Brasil acaba sendo determinada pelos bancos e demais instituições financeiras, pelos conglomerados econômicos internacionais, que impõem ao Brasil que pratique uma taxa de juros exorbitante. Quem arca com essa conta é a Dona Maria, que compra no cartão de crédito todo mês, mesmo atolada em dívidas, pois dinheiro mesmo não tem, mas precisam botar alguma comida na mesa.

A dívida pública impõe medidas e leis que são contrárias aos interesses do povo, a exemplo da Emenda Constitucional 95, que congelou os investimentos públicos por 20 anos. No auge da pandemia, por exemplo, esse recurso fez muita falta e o resultado foi a morte de milhares de pessoas. Quantas vidas não poderiam ter sido salvas entre os mais de 680 mil mortos?! Só quem perde com isso é a classe trabalhadora, pois é quem usa o SUS e a escola pública.

Ainda em relação aos bancos, o que sua candidatura propõe?

Este é um dos pontos que mais temos abordado. Defendemos a nacionalização dos bancos e demais consórcios financeiros que atuam no Brasil. Não faz muito sentido ter vários bancos privados gerenciando o dinheiro da população. Ainda mais com o Estado brasileiro sustentando o sistema financeiro. Por exemplo, no início da pandemia, em 2020, o Governo Federal injetou nos bancos R$ 1,2 trilhão para que estes emprestassem a micro e pequenas empresas, mas os juros cobrados foram tão altos que houve pouca adesão e muitas pessoas que tinha um pequeno negócio faliram completamente no período mais severo da pandemia onde quase tudo fechou. Pra completar, os bancos embolsaram este enorme recurso e seus acionistas ficaram ainda mais ricos. O Estado capitalista, como está provado, serve para isso mesmo: salvar os bancos em tempos de crise. Portanto, defendemos que a economia nacional passe necessariamente pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, e não pelas mãos do capital estrangeiro.

Isso vale também para o setor de transporte coletivo. São concessões públicas dadas a empresas durante anos e, quando o povo mais precisou de um serviço de qualidade e com segurança sanitária no período mais forte da pandemia, o que se viu foi que os empresários e muitas prefeituras vivaram as costas e deixaram as pessoas sem ônibus ou sendo carregadas em veículos superlotados, disseminando a Covid-19 e a morte. Então defendemos a completa estatização do transporte coletivo nas cidades. Assim, sem um transporte a serviço do lucro de grandes empresários, podemos tranquilamente reduzir o preço das passagens e, ao mesmo tempo, garantir o pleno direito de ir e vir.

Uma vez recuperada esta metade do orçamento que vai para os banqueiros, quais seriam as prioridades de investimentos?

Amplo investimento nas áreas sociais, como educação, moradia, saúde, saneamento básico, e em ciência e tecnologia. Lembrando que estamos falando de cerca de R$ 2 trilhões e que este recurso tem volta porque vai gerar milhões de empregos e desenvolver nossa economia no sentido de acabar com a dependência nacional em relação a outros países industrializados.

Defendemos a Reforma Urbana com um novo modelo de cidades, garantindo a construção de milhares de unidades habitacionais para reduzir passo a passo o número de famílias sem teto, que já passa dos oito milhões, empregando essas pessoas em regime de frentes de trabalho emergencial. Serão lares também com saneamento básico, o que vai, na ponta do processo, reduzir enormemente a quantidade de casos de doenças entre a população mais pobre.

Falando mais na saúde, faltam muitos profissionais para atender o conjunto dos usuários do SUS. O problema não é o SUS, mas sim como ele vem sendo levado pelos governos no Brasil, servindo para desvios de verbas, com leitos superlotados e falta de medicamentos.

Aí entra também a questão do investimento em educação, ciência e tecnologia. Primeiro, apostar na cooperação com as universidades públicas que realizam importantes pesquisas, mas que sofrem com cortes de verbas nas bolsas estudantis, na política de permanência e com intervenções nas Reitorias. Muitos estudantes tiveram que abandonar a faculdade por não terem sequer o dinheiro para se alimentarem, sem condições de pagar a internet, aluguel, etc.

E qual a proposta da UP para a renda do trabalhador?

Primeiro, aumento de 100% do salário mínimo, o que já foi feito no Brasil, inclusive, na gestão de João Goulart à frente do Ministério do Trabalho. E isso é só o começo, pois o Dieese aponto que o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas no Brasil deveria ser de R$ 6.300 atualmente. A duplicação do salário mínimo para a casa dos R$ 2.500 já tiraria uma grande parcela da população do sufoco, pois, segundo o IBGE, 70% dos trabalhadores sobrevivem com uma renda de até dois salários mínimos mensais.

Saindo um pouco do ambiente das grandes cidades e refletindo sobre a toda a imensa extensão do território brasileiro, como a UP encara o problema da concentração de terra nas mãos de algumas famílias tradicionais ou grupos?

Defendemos uma Reforma Agrária que tenha como norte a produção de alimentos saudáveis e a baixo custo para matar a fome do povo brasileiro. Para além de dividir a terra, o Estado precisa assegurar as condições técnicas para que a agricultura familiar se amplie, produza ainda mais e possa escoar sua produção. E se fortalecermos as Conabs e os centros de distribuição de alimentos, também acabaremos com o monopólio das grandes redes de supermercados, pois as mercadorias serão vendidas a preços justos, com controle de estoque, sem especulação, com congelamento dos preços dos produtos básicos. Queremos acabar com o latifúndio, que vem desde os tempos da colônia, só preocupado em produzir para exportar, e não para alimentar o povo.

Por fim, como o partido pretende lidar com temas históricos, como os crimes cometidos pelo Estado na ditadura militar, a violência crônica, o racismo?

A UP sempre fez campanha pelo direito à memória, verdade e justiça no Brasil, por uma verdadeira justiça de transição em relação ao período da ditadura militar. Sem isso, continuaremos a ver chacinas e impunidade. Os jovens das periferias, em especial, continuarão a ser alvo de policiais fascistas e racistas, que as corporações militares formam justamente por não terem raiz democrática internamente. Sem escola, cultura, esporte, emprego, saúde e comida, o Estado só se faz presente nas periferias brasileiras com as forças policiais. Isso precisa ser invertido com uma política de segurança pública que seja resultado de uma sociedade igualitária. Pensamos uma segurança pública que combata a violência contra a mulher e a população LGBT, que patrulhe as imensas fronteiras do país para coibir o garimpo, a extração ilegal de madeira e outras riquezas, o tráfico de armas e de seres humanos.

E nosso povo negro e indígena está na base da Reforma Urbana e Agrária, na luta pela demarcação dos territórios ocupados pelos povos originários. A História precisa ser contado como ela foi, de fato: marcada por muito sangue do povo derramado em nome da Coroa Portuguesa, dos escravocratas, dos capitalistas britânicos, do imperialismo norte-americano, dos latifundiários, dos generais golpistas de 1964, dos negacionistas e fascistas do presente. Também uma História de muita luta e resistência, que hoje buscamos representar nestas eleições presidenciais e pelas candidaturas populares, feministas e negras da UP em todo o país.

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