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quarta-feira, 12 de junho de 2024

MLB marca um ano de luta em Franco da Rocha

Após um ano da tragédia que matou 18 pessoas em Franco da Rocha, MLB resiste na luta por moradia junto às famílias atingidas.

Stefanie Bertholini | Coordenadora do MLB em Franco da Rocha


FRANCO DA ROCHA (SP) – Um ano após a Tragédia da São Carlos, uma multidão vestida de branco se reuniu para prestar homenagens às 18 vítimas fatais do deslizamento de terra.

Em 30 de janeiro de 2022, após fortes chuvas, essas mortes e o desalojamento de centenas de pessoas marcaram para sempre a vida dos moradores do Parque Paulista, em Franco da Rocha, cidade da Grande São Paulo. Além das casas derrubadas no desbarrancamento, cerca de 50 casas ao redor foram derrubadas pelos tratores da prefeitura.

Joselita Bonfim, 52, diarista, perdeu 7 familiares e amigos no desastre, foi uma das organizadoras da homenagem. “Muitas pessoas, inclusive a Marinalva, a mãe dos três que faleceram, dos gêmeos e do Diego, não tinham voltado ao local ainda, assim como outras pessoas, que ao chegar no local se emocionaram muito”, relatou a dificuldade de voltar ao local que desperta tanta dor.

“Houve uma desorganização, não foi bem como eu esperava, a família tinha algo pra falar”, queixou-se Joselita, alegando que o responsável pelo microfone foi levado por um vereador do bairro, mas que ele deu mais espaço para fala das figuras políticas presentes do que para os familiares das vítimas.

Estavam presentes e fizeram falas o deputado federal Kiko Celeguim (PT), os vereadores Kinho (PTB) e Edilson Marques (PSB), e o Secretário Executivo do Gabinete da Prefeitura de Franco da Rocha Marcus Brandino Celeguim de Morais.

Delvina Bonfim, 41, agente da CPTM, preparou um poema para a homenagem, mas não conseguiu ler por conta da desorganização e da chuva que fez finalizar o ato às pressas. “Sei que aqui todos têm boas e lindas lembranças dos que se foram, que hoje lembram da última conversa ou daqueles momentos inesquecíveis, no aniversário, no natal, no ano novo, e que por mais que vivamos, vamos nos deparar com essas lembranças” recitou na casa do familiar que ainda mora no bairro, após a homenagem para os mais íntimos.]

Tragédias anunciadas

O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) esteve presente no ato para se solidarizar com as famílias e amigos das vítimas e também para denunciar a desigualdade social, que joga a população pobre para morar em áreas de risco, e cobrar das autoridades públicas o seu dever em garantir moradia digna à população. Desde as primeiras semanas do desastre o movimento tem estado presente na cidade organizando a população, realizando atos e buscando diálogo com o prefeito Nivaldo da Silva Santos, do PTB.

A prefeitura de Franco da Rocha reconhece a existência de, no mínimo, duas mil famílias morando em situação de risco. O bairro Vila Lemar é uma dessas áreas ameaçadas, onde mais de cinquenta famílias enfrentam o medo do deslizamento de terras em épocas de chuva. “Quando estou em casa me sinto em perigo constante” afirma Marlene do Rosário, que com 70 anos de idade é doméstica e militante do MLB.

“A gente tá cobrando deles (prefeitura) que faça um muro de contenção para que ninguém tenha que sair daqui” afirma a moradora Dinalva Ribeiro de 52 anos, doméstica e militante do MLB na cidade desde o seu início. Ela e sua família moram há 25 anos nesta casa e reclamam não terem condições de morar em um lugar melhor.

Em novembro de 2022, em uma audiência pública solicitada pelo MLB, a prefeitura afirmou não ser possível a realização dessa obra de contenção neste bairro por inviabilidades técnicas e orçamentárias. Mas Marlene protesta: “Não acredito e não aceito que o poder público não possa resolver o nosso problema aqui”.

Já no Parque Paulista, local do desastre, a prefeitura informou que a obra do muro de contenção começou em outubro e está avaliada em 8 milhões de reais. O projeto é em parceria com o governo do estado de São Paulo e o prazo de conclusão é de seis meses. Moradores alegam que a obra tenha iniciado há algumas semanas e demonstram preocupação com o tempo da obra.

Região atingida pelas chuvas passa por obras, mas famílias ainda não tem onde morar (Foto: Stefanie Bertholini/ MLB).

No centro da cidade estão sendo construídos dois piscinões desde o início do ano passado, o EU-08 e EU-09, para mitigar os problemas recorrentes com as enchentes. A obra está sendo realizada em parceria com o governo estadual. Os reservatórios terão capacidade para acumular 366 mil m³ de águas pluviais e a previsão de conclusão é de 24 meses. A população se queixa da demora no andamento da obra.

Os moradores reclamam que todos os anos a história se repete na época das chuvas. No centro de Franco da Rocha tem enchentes e nos bairros deslizamentos de terra. O tempo de projeção e execução das obras não acompanha a condição de urgência que a população vive.

O Auxílio Moradia Emergencial pago pela prefeitura para as 500 famílias cadastradas é de R$608,94, menos da metade do salário mínimo nacional. “Não dá pra pagar aluguel com esse valor” afirmou Joselita, que precisou se juntar com outro familiar que recebe o auxílio para juntos pagarem um aluguel.

A moradora Dinalva perdeu seu direito ao auxílio ao permanecer em sua residência “a média do aluguel na região é de R$1.200”. Os moradores reclamam não terem condições de pagar aluguel, nem as contas básicas e a alimentação se saírem de suas casas.

Frente à demanda de moradias em áreas de risco na cidade, a prefeitura tem um projeto de construção de 692 unidades habitacionais populares a serem realizadas em parceria com o governo estadual e federal. Em uma reunião com a prefeitura foi informado que as famílias passarão por uma análise de renda. As famílias com renda entre 1 a 5 salários mínimos pagarão 20% de sua renda no financiamento da moradia.

Vivendo com o medo e a pobreza, a população de Franco da Rocha sofre aguardando pela execução desses projetos, que ainda não são suficientes para abranger toda estas necessidades. Também estão previstas outras 12 obras de contenção, estimadas em R$6 milhões, que serão realizadas em parceria com o Governo Federal, contudo, ainda está em fase de aprovação de projeto.

O MLB tem firmado o seu compromisso com a população de Franco da Rocha na luta pelas moradias e obras de contenção há um ano. Cada trabalhador e trabalhadora que compõe essa luta tem colocado em prática o seu poder popular pela Reforma Urbana e o Socialismo.

Em memória de: José Bonfim Filho, 86; Diego dos Santos, 30; Lucas Santos Sampaio e Leticia Santos Sampaio, gêmeos de 17 anos; Cleber José Bonfim, 37; Anderson da Costa, 26; Vinicius da Costa, 13; Verlenia Rodrigues, 51; Caio Rodrigues, 36; Vitória Rodrigues, 22; Vitor Rodrigues, 10; Diana Rodrigues Costa, 32 anos, grávida de dois meses; José Ailton Vitor Santos, 30; Adriana Silva Santos, 26; Oziel Vitor, 2; Tamires Aparecida Santos, 31; Gabriel Souza CArdoso, 27; ; Amanda da silva Sales, 26. Lutamos para que essa história não se repita, suas mortes não serão esquecidas!

 

O Jornal A Verdade reproduz abaixo uma das homenagens realizadas as vítimas dos deslizamentos:

Carta em Homenagem às vítimas da Tragédia São Carlos, por Delvina Bonfim

“Morrer é ser esquecido.

Claro que as pessoas não são lembradas e nem deve porque foram malévolas.

Há outras que não deveriam ter existido porque não nos faz falta, mas tem gente que nos faz uma falta imensa.

Às vezes, você vai para um almoço, uma conversa, e aquela pessoa, que não foi porque já não vive, faz uma imensa falta,

e outras que não nos dão uma imensa alegria, são aquelas que nos dão o agradável prazer de sua vez.

Enquanto alguém lembrar de você, derramar uma lágrima de saudades, cheirar uma roupa que você deixou, sentir o aroma da comida que você fazia, rir de algo que aconteceu contigo e que foi engraçado, assobiar a música que você assobiava, você continuará vivo.

Morrer é ser esquecido.

Sei que aqui todos tem boas lindas lembranças dos que se foram, que hoje lembram da última conversa ou daqueles momentos inesquecíveis, no aniversário, no natal, no ano novo, e que por mais que vivamos, vamos nos deparar com essas lembranças.

Nesse momento vamos agradecer a Deus por ter o prazer de tê-los nas nossas vidas e vamos com isso, pegar a missão de se fazer o bem e de viver fazendo o melhor, para que um dia nós sejamos melhores, as melhores representações.

Obrigada Cleber, Diego, Anderson, Vinicius, Amanda, José Airton, Adriana, Oziel, Verlenia, Caio, Vitória, Jose, Lucas, Letícia, Tamires, Gabriel, Diana e Vitor, por terem existido nas nossas vidas.”

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