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sexta-feira, 12 de julho de 2024

5 anos em busca de justiça para Marielle e Anderson

No dia 14 de março, completa-se cinco anos do covarde assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Até hoje, os mandantes do crime não foram descobertos e inúmeras perguntas permanecem sem resposta. Quem mandou matar Marielle e Anderson?

Samara Martins, vice presidenta da Unidade Popular


BRASIL – O dia 14 de março de 2018 foi um dia dolorido para todos nós, especialmente para as mulheres pretas. A notícia daqueles 13 tiros nos atingiu em cheio. Quem não sentiu um aperto no coração ou chorou copiosamente nas enormes manifestações por Marielle no dia seguinte ao seu assassinato? Todas nós sentimos! Marielle se agigantava naquele momento e em todo o mundo ecoava o pedido de justiça para ela e Anderson Gomes, seu motorista, também executado covardemente.

Marielle semente

LEGADO. A revolta com seu assassinato levantou milheres de “Marielles”. Foto: Duvulgação/Mídia Ninja.

Em meio à dor, mentiras – as famosas fake news – se espalharam aos montes sobre Marielle, sua vida e sua conduta. Mentiras questionando sua capacidade, sua formação acadêmica, sua orientação sexual, insinuando o seu envolvimento com o crime no Rio de Janeiro e a defesa de “bandidos”.

Para a classe dominante e para os mandantes de seu assassinato, suportar uma negra da favela da Maré num espaço de poder era inadmissível. Não podiam aceitar que ela era socióloga e mestre em administração pública (escolaridade não cobrada aos políticos homens, brancos, que só precisam ser “filhos” de outros parlamentares igualmente brancos e ricos). Não podiam engolir que uma mulher assim tivesse tido mais de 40 mil votos e fosse a quinta vereadora mais votada.

Essa mulher negra, que defendia os pobres, os favelados, os oprimidos, os violentados, que defendia direitos humanos, não podia viver. Isso incomoda demais os “cidadãos de bem” que planejaram e executaram a sua morte.

Os executores de Marielle e Anderson estão hoje presos, mas seus mandantes seguem desconhecidos. Ambos achavam que ali terminava a jornada, a militância dela. Achavam que naquela noite calariam a voz da vereadora que “falava demais”. Mal sabiam eles que o sangue derramado naquela noite era semente. Toda dor e revolta sentida com aquela morte levantaria milhares de “Marielles”. Milhares de mulheres negras seriam sua voz, continuariam sua luta e vingariam sua morte encapando a luta do povo preto e pobre desse país. As periferias e favelas se levantariam contra a opressão e a violência policial. A morte de Marielle não seria em vão.

São incontáveis as vezes em que nós, mulheres negras, militantes, presidentas, candidatas, somos chamadas de Marielle: “você parece a Marielle”; “você me lembra muita aquela mulher que mataram”; “você tá igual à Marielle”. Todas essas frases invariavelmente são seguidas de “cuidado!” ou “você não tem medo?”, deixando nas entrelinhas que a gente deve se afastar desses espaços de poder, pois não são para mulheres, muito menos para mulheres pretas. Apesar disso, muitas de nós segue resistindo e não vamos desistir!

Relembrando o caso

As primeiras pistas da investigação levaram a milicianos do Rio de Janeiro, ex-policiais e políticos, como Marcello Siciliano, então vereador pelo PHS (seu envolvimento foi descartado posteriormente), e o ex-PM Orlando Curucica, que, em depoimento, citou o “Escritório do Crime” como responsável pela execução.

Em dezembro de 2018, o então secretário de Segurança do RJ, general Richard Nunes, afirmou em entrevista que Marielle teria sido morta por milicianos que viam nela uma ameaça aos negócios de grilagem de terras na zona oeste da capital.

Próximo de completar o primeiro ano do crime, em março de 2019, Ronnie Lessa, policial reformado e vizinho do então presidente Jair Bolsonaro, e o ex-militar Élcio Vieira de Queiroz são presos como os assassinos de Marielle e Anderson. Ambos ainda não foram julgados.

Em 2020, a operação “Os Intocáveis” foi deflagrada no intuito de prender milicianos que atuavam no bairro de Rio das Pedras extorquindo, grilando terras e cometendo assassinatos. Um desses “intocáveis” era Adriano da Nóbrega, ex-policial do Bope e apontado como chefe do “Escritório do Crime”, também considerado suspeito pelo assassinato de Marielle e Anderson.

Adriano, por “coincidência”, também era amigo da família Bolsonaro e foi por duas vezes homenageado na Assembleia Legislativa do RJ pelo hoje senador Flávio Bolsonaro. O ex-presidente, por sua vez, fez discurso na Câmara Federal em defesa de Adriano quatro dias depois de uma condenação por homicídio, dizendo que compareceu ao seu julgamento e que Adriano era um “brilhante oficial”. Além disso, a ex-esposa e a mãe de Adriano trabalharam como fantasmas no gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ e mandavam parte dos salários para Fabrício Queiroz, no esquema que ficou conhecido como “rachadinha”.

Caçado pela polícia, Adriano foi cercado e assassinado em confronto na Bahia (queima de arquivo?). Logo após a sua morte, Bolsonaro deu declarações de que poderiam forjar mensagens e áudios no telefone de Adriano para incriminar pessoas inocentes pela morte de Marielle. Por que tanta preocupação?

Ao longo desses cinco anos de investigação, os delegados da Polícia Civil responsáveis pelo caso foram mudados cinco vezes e passaram pelas mãos de três grupos de promotores do Ministério Público. A polícia, apesar de defender a tese de que há também mandatários para o crime, além dos executores, não chegou nem perto de responder o que todos queremos saber: “Quem mandou matar Marielle?”.

Um sopro de esperança

Uma das primeiras medidas do novo ministro da Justiça, Flávio Dino, foi determinar que a Polícia Federal abra inquérito para investigar os assassinatos de Marielle e Anderson. Sílvio Almeida, ministro dos Direitos Humanos, em discurso na ONU, disse que o novo governo lutará para que o assassinato de Marielle não fique impune.

Derrotar Bolsonaro nas urnas foi, portanto, para além de golpear o fascismo, também dar um passo importante em direção ao desfecho e punição dos assassinos de Marielle.

Por que a família Bolsonaro tem tanto envolvimento no caso Marielle? Por que os filhos, amigos e vizinhos do ex-presidente são citados e ativos no caso? Dizer que a morte de Marielle é parte do plano de avanço do fascismo no Brasil não é especulação, é constatação. Instaurar o terror, oprimir os mais fracos, explorar ao extremo e eliminar todos os “diferentes” fazem parte da lógica de morte do fascismo.

O legado de Marielle

LUTA. Marielle mostrou que nossa ancestralidade importa. Foto: Divulgação/Mídia Ninja.

Um dia antes da sua morte, Marielle postou em suas redes sociais: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Ela estava se referindo a mais uma operação letal da polícia militar em uma comunidade do RJ. Apesar do trágico fato, Marielle é hoje um símbolo de resistência, de enfrentamento aos poderosos, aos milicianos, aos opressores e exploradores do povo negro. Seu nome e seu rosto seguem estampados em cada canto do mundo. Seus algozes devem babar de raiva, de ódio, pois “nada causa mais horror à ordem do que mulheres que lutam e sonham” (José Martí).

Marielle deixou um legado importante para as mulheres pretas ocuparem cada vez mais o parlamento. Que elas encarem altivamente esses espaços de poder e decisão. Que a violência política não deve nos parar e que a misoginia e o machismo não deve mais nos calar.

“As rosas da resistência nascem do asfalto. A gente recebe rosas, mas vamos estar com o punho cerrado falando do nosso lugar de existência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas”, disse Marielle em um de seus últimos discursos, no Dia Internacional das Mulheres.

Essa mulher preta da favela da Maré mostrou que a nossa ancestralidade tem peso e importância e que não aceitaremos açoites, opressão e violência. Como cantou a Mangueira, campeã do carnaval de 2019, “Brasil chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês…”.

Pela punição dos golpistas, assassinos e torturadores de ontem e de hoje! Justiça por Marielle e Anderson!

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