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sábado, 2 de março de 2024

Operações policiais constantes aterrorizam moradores do Complexo da Maré (RJ)

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Operações policiais constantes na Maré deixam casas invadidas, escolas fechadas, moradores mortos e violam inúmeros direitos. Nesta quinta-feira (2), foi realizada a quinta operação policial na comunidade somente este ano. 

Alexandre Verçosa | Rio de Janeiro


BRASIL – Nesta quinta-feira (2), a Polícia Civil realizou mais uma Operação no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Alegando como objetivo evitar conflitos entre as duas maiores facções que disputam territórios na região e em outras áreas da cidade, invadiram a comunidade, dispararam tiros e deixaram 43 escolas sem aulas.

De acordo com a corporação, agentes do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) atuaram na ação. A operação foi realizada após um levantamento de informações e dados de inteligência. Esses dados teriam indicado uma enorme tensão entre as duas organizações criminosas atuantes na Maré, o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), após a soltura de um dos líderes de uma das quadrilhas.

Participaram da ação agentes das Delegacias de Repressão a Entorpecentes (DRE); de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC); de Roubos e Furtos de automóveis (DRFA), e outras unidades do DGPE, além da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).

A operação policial foi iniciada por volta das 10h, na região que vai da Baixa do Sapateiro até a favela Salsa e Merengue e começou com intensa troca de tiros e voos rasantes do helicóptero que sobrevoava a região e disparava em partes do território. Há relatos de pessoas mortas e feridas.

Há informações de invasão de casas no Morro do Timbau. Professores de cerca de 20 unidades escolares das favelas tentaram manter as crianças em proteção, que seguiram dentro das unidades escolares deitadas no chão e aterrorizadas. 

O Centro Municipal de Saúde Vila do João precisou realizar o acionamento do protocolo de acesso mais seguro e, para segurança de profissionais e usuários, interrompeu o funcionamento devido ao intenso tiroteio que tomou conta da região.

Rotina de medo

A operação seguiu nesta sexta-feira (3) em seu segundo dia consecutivo. Por volta das 5h da manhã, moradores das favelas Parque União e Nova Holanda já eram surpreendidos pela presença de agentes e veículos blindados do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) na região. Ainda no início do dia eram diversos os relatos de moradores que tiveram suas residências violadas por policiais, sem mandados; além de famílias intimidadas e ameaçadas por agentes do Estado.

No início da tarde a operação se expandiu para as favelas Baixa do Sapateiro e Vila dos Pinheiros, com registro de muitas trocas de tiros. A assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar não confirmou ou informou sobre a expansão da ação. 

Foi o segundo dia seguido em que milhares de moradoras e moradores da Maré lidaram com o impacto de operações policiais que desrespeitam diversos direitos. 

Após o recente retorno às aulas, no pós carnaval, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação, 41 unidades escolares suspenderam as atividades presenciais e prestaram atendimento remoto aos alunos. A Secretaria Estadual de Educação informou que o Colégio Estadual Professor João Borges e o Ciep Professor César Pernetta tiveram as aulas suspensas “em virtude da insegurança”.

O Centro Municipal de Saúde Vila do João e as Clínicas da Família Jeremias Moraes da Silva, Augusto Boal e  Adib Jatene interromperam o funcionamento nesta sexta-feira (3). A Clínica da Família Diniz Batista dos Santos manteve o atendimento à população, com a suspensão de atividades externas realizadas no território.

Operação vai contra a ADPF das Favelas 

Uma das normas estabelecidas pela ADPF das Favelas, ou ADPF 635, acatada pelo Supremo Tribunal Federal, ressalta sobre o uso do helicóptero blindado como plataforma de tiro, proibindo essa prática nas operações policiais do RJ. 

A coordenadoria de Operações Especiais da Polícia Civil possui um helicóptero blindado, ou seja, um helicóptero de guerra na mão da polícia judiciária, o que em si já é um contrassenso. Para o coordenador do Geni/UFF, Daniel Hirata, já faz anos que a Polícia Civil atua também de forma operativa tanto quanto a polícia militar.

“Esse helicóptero é utilizado não só como apoio logístico no momento das operações, a possibilidade de olhar de cima, mas também como plataforma de tiro, o que diversos especialistas já apontaram que é de uma enorme imprecisão. Nem precisa ser especialista para imaginar que a precisão de um tiro de um helicóptero em movimento é baixíssima. Não é uma plataforma adequada para se realizar um disparo”, explica Hirata.

O distanciamento do perímetro das unidades escolares e a presença de ambulâncias para socorro a vítimas também são pedidos da ADPF. Todas essas determinações, que poderiam parecer óbvias para a execução de operações policiais em outras partes da cidade, são descumpridas com recorrência nas operações policiais que acontecem na Maré e nesta quinta e sexta-feira, dias 2 e 3 de março, isso foi vivenciado mais uma vez pelos moradores das favelas da Maré. Essa é a quinta operação policial que acontece na Maré somente este ano.

Quais as razões e os efeitos das operações policiais?

Mais uma vez as Forças Armadas, sob o governo reacionário de Claudio Castro, descumprem uma série de direitos humanos que, na prática, não vigoram nas favelas. O povo clama por emprego, saúde, cultura e educação de seus filhos, mas o Estado burguês lhes envia helicópteros atirando sobre a população, policiais invadindo casas e caveirões nas ruas.

Para a professora Jacqueline Muniz (UFF), os efeitos das constantes operações policiais “Justificam gastos excessivos e pouco transparentes com armamentos, munições, etc, e a demanda sempre crescente por tecnologias sem demonstração de sua pertinência; Criam a ilusão de que o governo está enfrentando um crime cada vez mais feroz; Criam mortes com merecimento, ou seja, quem foi morto, fez por merecer; Fazem subir o preço dos acordos, dos arrendamentos dos territórios e das mercadorias ali exploradas, possibilitando que se governe com o crime e não contra ele; Servem para redefinir a distribuição territorial dos domínios armados.”, conclui.

Qual a serventia da “guerra contra o crime”? Qual o saldo político e econômico da banalização das operações policiais no Rio de Janeiro? Contrariando a realidade dos policiais públicos e estatais que geram controle sobre território e população, a tal “guerra” em sua ostentação e encenação tem como base a promoção da insegurança pública como projeto de poder. Impõe o medo, a violência e a imprevisibilidade como modo de agir. 

O Estado burguês transforma a segurança em mercadoria e coloca trabalhadores sob cerco. Estes casos são o reflexo de uma polícia e política militarizadas, assassinas, que servem para reprimir o povo a favor dos mais ricos.

 

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