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sexta-feira, 1 de março de 2024

Marcos Antônio Ribeiro: “A luta pela reforma urbana é uma luta de classes”

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Dando continuidade à série de entrevistas com coordenadores do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), o jornal A Verdade entrevistou Marcos Antônio Ribeiro (49 anos), morador de Natal (RN). Marcos sempre apoiou também a construção do MLB em vários estados e, nas últimas eleições, foi candidato a senador pela Unidade Popular (UP) defendendo que a moradia digna é um direito humano.

Redação


A Verdade – Marcos, qual é a sua trajetória de vida até se tornar coordenador do MLB?

Marcos Antônio – Sou o filho do meio de uma família de cinco irmãos. Nossa irmã mais nova faleceu aos nove meses. Meu pai faleceu aos 36 anos. Problema com álcool. Ele trabalhava numa fábrica de pré-moldados e minha mãe trabalhava como doméstica. Sempre moramos nos bairros periféricos da cidade. Minha avó era lavadeira e trabalhava dentro da base naval, lavando roupa para a Marinha. Mas isso nunca rendeu muito dinheiro, então a gente sempre passou por dificuldades. 

Trabalhei em diversas locais, mas nunca tive a carteira assinada. Sempre reparti o pouco que tinha com o próximo. Eu ia pescar na maré, pegava manga, e nos sítios eu pedia. O pessoal dava e eu dividia com os vizinhos, e eles retribuíam. Minha mãe trabalhava e só vinha pra casa a cada 15 dias. 

Depois de já morar no bairro dos Guarapes, ouvi falar pela primeira vez da Ocupação Leningrado e fiquei pensando: “Isso não vai dar em nada, o povo morando dentro do mato!”. Mas as famílias conquistaram o Conjunto Habitacional Emmanuel Bezerra. Daí eu comecei a acompanhar mais. E fui morar dentro da Ocupação Oito de Outubro. Vi aquele aglomerado de barracos, o pessoal dizendo que ali não era favela, que era uma ocupação. E a homenagem a Ernesto Che Guevara chamava a atenção. Isso foi estimulando minha curiosidade e eu passei a ajudar sem nenhum comprometimento, sem pedir nada em troca. Se precisava ligar a energia, eu ia lá e ligava, emendava os canos, etc., até que o pessoal me convidou para acompanhar os estudos.

Também me convidaram para entrar na coordenação da ocupação. Depois me convidaram para as primeiras reuniões como coordenador estadual. Nesse processo, viajei para vários outros estados para aprender um pouco mais sobre a luta pela moradia. Até que, enfim, me convidaram e perguntaram se eu gostaria de ser coordenador nacional e eu disse que era uma consequência, né?! Entrei na Coordenação Nacional do MLB com esse espírito de estar sempre ajudando e, assim, fui pegando mais experiência nas lutas do movimento.

Como você resumiria as principais lutas que o MLB travou no seu estado? 

Olha, eu diria que foram muitas lutas com muitos momentos marcantes no Rio Grande do Norte. A principal delas foi a Ocupação Leningrado. Foi um marco na nossa história, porque eram duas famílias tradicionais do estado, uma política e outra empresária, e todas duas se diziam donas daquela terra. Mas o MLB conseguiu resistir! E o resultado dessa resistência é que hoje nós temos o habitacional. 

Lutamos para ocupar áreas abandonadas que não cumpriam sua função social. Orientamos várias outras famílias também, como a Ocupação Frei Tito, onde as famílias conquistaram sua moradia. Teve outros momentos difíceis em que precisamos resistir, ficar na frente de tratores para não derrubarem nossos barracos, não derrubarem o pouco que a gente tinha. 

Houve lutas marcantes pelo direito à nossa cidade, como no momento do Plano Diretor, quando fomos pra cima reivindicando nosso direito de participar. A Prefeitura não aceitava e colocou os guardas municipais pra bater com cassetete e spray de pimenta. Essa trajetória foi nos fortalecendo cada vez mais para que hoje a gente pudesse dizer que o MLB completa 19 anos de luta no Rio Grande do Norte. Sempre que a gente faz uma nova ocupação, temos o relato de uma ocupação anterior, uma experiência acumulada que ajuda a que tenhamos conquistas concretas.

Na sua opinião, qual o papel dos núcleos de base do movimento?

Os núcleos de base têm um papel fundamental, que é a mobilização antes, durante e depois da ocupação. É nos núcleos que a gente apresenta a luta pela reforma urbana, onde a gente planeja as ocupações e onde a gente decide como resistir. É nos núcleos de base que a gente faz toda essa construção até a conquista dos empreendimentos, das unidades habitacionais. Os núcleos de base precisam ser fortalecidos para que a gente possa atuar mais firmemente no combate à desigualdade social.

Quando falamos que a luta continua, temos que pensar em núcleos de base sólidos. Para isso, é necessário ter formação política, para que as pessoas adquiram essa consciência de classe. Porque a luta pela reforma urbana não deixa de ser uma luta de classes. Os empresários, a especulação imobiliária, querem a população pobre na periferia. E a periferia reivindica o seu lugar e os seus direitos de cidadãos.

Os núcleos de base cumprem o papel de formar essas famílias para que elas nunca parem de lutar. Porque a nossa luta é diária, é uma luta de classes. Precisamos de emprego, de geração renda, precisamos deixar nossos filhos na creche, de transporte de qualidade e gratuito, etc.

E qual é a importância da ocupação como forma de luta?

A gente costuma dizer que a ocupação é a greve dos sem-teto. Do trabalhador desempregado, das pessoas que não conseguem morar dentro da mesma residência com os parentes ou de quem mora em área de risco. O MLB debate as regras nas assembleias, vai educando as famílias a se somarem, a se ajudarem e a garantirem a sua autossustentação. Então, a ocupação é uma das principais formas de conscientização dos direitos e deveres das famílias. 

As ocupações conseguem trazer a visão de que a gente deve lutar para garantir que a terra seja nossa, que a gente deva garantir que os prédios sejam reocupados. Por isso é importante fazer novas ocupações sempre. Porque enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito!

Pela sua experiência, como deve funcionar a Coordenação do MLB nos estados e em cada ocupação?

Acredito que a coordenação do MLB em todos os estados deva funcionar democraticamente, com todos podendo ter espaço e responsabilidades, podendo falar e ouvir ao mesmo tempo. As reuniões devem ter regularidade para que todos participem dessa construção, se somem e consigam avançar na sua formação política. Se as reuniões acontecerem regularmente e forem democráticas, a coordenação vai ficar mais unida e isso vai se estender para cada ocupação.

Se em um estado houver três, quatro ou cinco ocupações, a coordenação deve ter representantes de todas elas para que a troca de experiências aconteça e todas sejam organizadas com o mesmo entendimento. Por isso é importante o papel da Coordenação Estadual. Porque é lá que se dirigem as lutas e todas as ocupações.

Parece simples, mas não é. Ainda há disparidades no nível de organização de uma ocupação para outra. Há ocupações que precisam de uma maior cobrança para manter a contribuição com o movimento em dia, por exemplo. Em outras, que não correm risco de despejo, há uma tendência à acomodação. E nós precisamos combater isso para que uma ocupação ajude a outra. Para que a força de uma seja a força da outra. Assim, o MLB vencerá mais rápido suas batalhas e todos sairão ganhando.

Precisamos unificar as lutas do nosso trabalho de base. O trabalho dentro das nossas ocupações tem que ter um único direcionamento: promover uma verdadeira reforma urbana, derrubar a especulação imobiliária e construir uma nova sociedade, uma sociedade mais igualitária, uma sociedade socialista. Para que a gente possa dividir a riqueza entre os trabalhadores e dividir as conquistas entre todos os guerreiros e guerreiras da nossa luta.

Nesse sentido, é importante falar sobre a importância da Escola Nacional Eliana Silva, que vem trazendo várias experiências de lutas e dando maior oportunidade para formar mais rapidamente nossos coordenadores.

Já se vão 16 anos que ajudo a construir o MLB e espero continuar por mais 16, 32… porque não há outro caminho, senão a luta do povo trabalhador.

Entrevista publicação na edição nº270 do Jornal A Verdade.

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