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sábado, 13 de abril de 2024

Trabalhador liderou insurreição de 1935 no Rio Grande do Norte

A experiência da Insurreição Comunista de 1935 trouxe uma inestimável lição para os trabalhadores brasileiros. O povo, a classe operária e as massas trabalhadoras podem e devem derrotar as classes dominantes e construir o seu governo, verdadeiramente popular e revolucionário.

Alex Feitosa | Natal


HISTÓRIA – O livro Praxedes, um operário no poder – A Insurreição Comunista de 1935 vista por dentro, publicado em 1985 pela editora Alfa-Omega foi  resultado de um longa entrevista dada pelo sapateiro José Praxedes de Andrade, membro do Governo Popular Revolucionário de 1935 no Rio Grande do Norte, ao jornalista Moacyr de Oliveira Filho. Um documento histórico com riqueza de detalhes, e uma defesa intransigente da ousadia dos revolucionários que “assaltaram os céus” do Rio Grande do Norte. Como afirma o autor em sua dedicatória: “Este livro é todo de José Praxedes de Andrade, que dedicou sua vida à luta pela liberdade e pelo socialismo.”

Após quase 50 anos vivendo anônima e clandestinamente, José Praxedes foi encontrado vivendo em uma casa humilde no município de Simões Filho no estado da Bahia. Com receio de represálias, por sua participação destacada na Insurreição de 1935, passou a se chamar Eduardo Pereira da Silva desde o ano de 1938.

Nascido no dia 06 de abril de 1900 em uma comunidade pobre, às margens do rio Potengi, Praxedes perdeu seus pais ainda na infância e cresceu aos cuidados do líder católico Cândido de Medeiros. Ainda jovem desperta para as lutas sociais e se encanta com as notícias da revolução Russa de 1917. “Eu já tinha aquela coisa de Poty e do Frei Miguelin, herói da Revolução de 1817, a Confederação do Equador na cabeça e quando comecei a ler sobre a Revolução Russa fiquei ainda mais animado.” 

As prisões

Em 1921, junto a outros trabalhadores, reorganiza a União dos Sapateiros e em 1926 ingressa no PCB, após uma reunião realizada por Lourenço Justino, enviado da cidade de  Recife com a missão de dar início à organização do partido entre os trabalhadores potiguares.

Em pouco tempo a atividade partidária se amplia e se torna inevitável a disputa com Café Filho, um advogado Getulista, que tinha influência em alguns sindicatos de trabalhadores. Em 1930, com a vitória de Getúlio na chamada Revolução de 30, Café Filho se torna chefe de polícia e manda prender Praxedes. 

Em 1932 Praxedes é preso pela segunda vez, consegue escapar e se refugia no Rio de Janeiro até 1933 quando é designado pelo partido para participar de um curso de formação em São Paulo. “O curso durou seis meses… As aulas eram dadas pelo Herry Berger, por um tal de Lino, que era secretário do Comitê de SP, por um tecelão chamado Mauro e pelo Rodolfo Ghiodi.” 

Praxedes retorna ao RN em 1935 e dá início a preparação da insurreição. Após tomar conhecimento de um movimento golpista nas Forças Armadas, o partido no RN decide denunciar publicamente que o objetivo dos golpistas era implantar uma ditadura contra o povo. Cresce a agitação e influência do partido junto às massas. Após o fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL) intensifica-se a preparação do levante popular e no RN as disputas entre as oligarquias locais se aprofundam permitindo uma grande oportunidade para o alargamento da atuação dos comunistas.

A insurreição

No dia 23 de novembro de 1935, dá-se início a Insurreição Comunista, ampla, popular e de massas e que, apesar de ter durado apenas 4 dias, adotou, entre outras medidas, a gratuidade nos transportes, garantia de alimentação a toda a população e, no meio de um turbilhão de acontecimentos, preparou o jornal A Liberdade, que tinha como objetivo agitar o programa da Aliança Nacional Libertadora. 

Após a derrota dos revolucionários em embate na Serra do Doutor contra os jagunços de Dinarte Mariz, que contava com tropas da PM da PB, o cabo Giocondo Dias, um dos líderes da Insurreição, entra em desespero, liberta os prisioneiros (alegando a preservação de suas vidas) e dispersa soldados insurrectos. Praxedes desmente: “Não passava pela cabeça de ninguém matar os prisioneiros…Os prisioneiros seriam nossa principal arma para escapar do cerco.” 

Com parte da junta revolucionária abandonando suas tarefas, Praxedes encontra com Santa – codinome de João Lopes designado do CC do PCB para acompanhar a insurreição no RN – e diz: “Santa está tudo consumado. Giocondo soltou os prisioneiros e os mandou para as corvetas mexicanas e agora está evacuando o resto da tropa. Não há mais o que fazer. Quando ouve isso, o Santa põe a mão na cabeça… e grita: ‘fomos traídos.’” Para Praxedes, com os prisioneiros era possível romper o cerco, encontrar as tropas revolucionárias que estavam dispersas no interior e seguir para Pernambuco onde havia focos de guerrilha. 

A lição

A experiência da Insurreição trouxe uma inestimável lição para os trabalhadores brasileiros. O povo, a classe operária e as massas trabalhadoras podem e devem derrotar as classes dominantes e construir o seu governo, verdadeiramente popular e revolucionário. Nas palavras de Praxedes: 

“De qualquer forma, a experiência de 1935 deixou um ensinamento importante. Quanto mais glórias se produz, mais glórias se colhe. A Insurreição mostrou, também, que quando o povo se revolta e pega em armas contra um regime de arbítrio ele pode sair vitorioso. Essa foi sua grande lição.”

Os revolucionários brasileiros têm muito que conhecer dessa história e da vida dos operários que lutaram e deram suas vidas para construir um poder dos trabalhadores no Brasil, infelizmente esse importante da vida política nacional é bastante deturpada pela historiografia oficial. Compreender os seus acertos, o papel da vanguarda, das massas trabalhadoras, da ousadia dos revolucionários e também os erros e debilidades é um passo decisivo  para que o próximo levante do povo brasileiro seja certeiro e complete a tarefa iniciada pelos heróis de 1935.

Matéria publicada na edição nº 273 do Jornal A Verdade. 

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