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terça-feira, 23 de julho de 2024

Trabalhadores são encontrados em situação análoga à escravidão em Guaíba (RS)

Seis trabalhadores da construção civil foram resgatados de um estabelecimento na cidade de Guaíba, onde eram mantidos em situação análoga à escravidão por empreiteiro que já responde a crimes semelhantes em outros estados.

Bibiana Assis e Gustavo Ramos, de Guaíba (RS)

No mês de agosto, seis trabalhadores da construção civil foram encontrados pela Polícia Civil em situação análoga à escravidão na cidade de Guaíba, região Metropolitana de Porto Alegre, em mais um triste caso do tipo no estado gaúcho. Vindos da Bahia, Minas Gerais, Pará e do próprio Rio Grande do Sul, os trabalhadores resgatados viviam em condições profundamente insalubres, em um alojamento no bairro Ipê, na periferia da zona norte da cidade.

A partir de uma denúncia enviada à delegacia do município por email no dia anterior, uma equipe policial foi enviada ao local e encontrou os trabalhadores na situação absurda a qual eram submetidos. A proposta oferecida aos trabalhadores pelo empreiteiro responsável pelo local era: trabalho de carteira assinada, pagamento de  R$ 3 por metro construído, com hospedagem e três alimentações por dia. O inferno vivido pelos trabalhadores foi outro: vieram mal agasalhados, sem qualquer apoio do patrão, forçados a dormir no chão, sem cama e tomando banho frio em pleno inverno.A única refeição do dia era a comida estragada e como não haviam copos ou canecas tinham de usar uma garrafa pet cortada pela metade.

De acordo com a delegada responsável pelo caso, assim que o primeiro trabalhador percebeu o abuso à sua frente, decidiu se rebelar pedindo o pagamento prometido e, em seguida, dizendo que iria embora no que foi ameaçado e expulso do alojamento com truculência por uma equipe de “seguranças” contratados pelo proprietário. Daí, o usaram como “exemplo” para os colegas que ficaram, que perceberam também o sumiço das chaves do alojamento logo depois do ocorrido e tiveram de passar a dormir com as portas destrancadas, em uma tentativa de intimidação clara para todos.

O proprietário do local foi preso em flagrante e , após mais investigações, foi descoberto que o mesmo é dono da empreiteira paulista Alice Construções, que já responde a dois crimes semelhantes cometidos no estado de São Paulo.

TRABALHO ESCRAVO NO RIO GRANDE DO SUL E NO BRASIL

O caso é mais um na longa lista de flagrantes de trabalho análogo à escravidao no estado do Rio Grande do Sul e por todo o país. Em fevereiro, foram quase 300 trabalhadores, em sua maioria nordestinos, resgatados das vinícolas Salton, Aurora e Garibaldi na cidade de  Bento Gonçalves na serra gaúcha, caso que ganhou ainda mais notoriedade quando Sandro Fantinel, vereador bolsonarista de Caxias do Sul, fez declarações racistas e xenófobas sobre os trabalhadores nordestinos. Mesmo após forte manifestação do povo Caxiense e de todo o resto do estado, dentre eles a militância da Unidade Popular e dos movimentos que a constroem, a cassação do vereador fascista foi rejeitada pela votação da câmara de vereadores de Caxias do Sul.

Mas a situação não se restringe ao estado gaúcho, como relata a matéria de capa da edição No. 274 do Jornal A Verdade, sobre os 273 trabalhadores encontrados em situação análoga à escravidão na indústria da cana-de-açucar no município de Varjão de Minas. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, somente no ano de 2023 foram resgatadas mais de 523 pessoas em situação semelhante por todo o país, e isso só até o mês de março. A classe trabalhadora, encontra nestas ofertas de emprego mentirosas uma esperança de melhoria de vida, e muitas vezes migra de um estado para outro se deparando lá com o inferno do trabalho escravo, desumano e vil.

As políticas de governo do fascista Bolsonaro e seu antecessor golpista Michel Temer (como a reforma trabalhista e da previdência) facilitaram muito para que esse tipo de situação ocorresse e passasse despercebida pela fiscalização. Sua derrota nas urnas foi um passo importante na direção ao combate a esse sintoma nefasto do capitalismo, e tem garantido alguma fiscalização e punição a esses casos, porém essa “punição” não é  suficiente, visto as indenizações no geral serem de valor muito baixo, além da demora do processo judicial. Exemplo disso é o casal de imigrantes bolivianos Briyan Vargas e Gabriela Chura que espera há quase um ano e meio a indenização de cerca de 260 mil reais pelo caso chocante flagrado em 2020 em uma confecção que prestava serviço à marca Program. No local sofriam com ameaças e falta de comida; na época Gabriela estava grávida e deu à luz durante a operação de resgate.

Não é coincidência a recorrência desses casos, nem são acontecimentos isolados no Rio Grande do Sul, Minas ou São Paulo. É uma cicatriz exposta do passado e do presente do nosso país sob o jugo do sistema capitalista e do imperialismo. O trabalho escravo, ainda que criminalizado por lei, é imprescindível para a manutenção desse sistema. Não temos noção de quantos milhares de trabalhadores estão na mesma situação, e não importa quantos destes forem descobertos e resgatados, esse ciclo vicioso só será encerrado com o fim do capitalismo pelas mãos da classe trabalhadora.e isso, por sua vez, será erguido somente pela organização da classe trabalhadora na luta de classes, na luta pelos seus direitos e demandas em unidade de ação, tendo em vista a construção do socialismo.

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