UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 21 de abril de 2024

Vamos organizar as mulheres trabalhadoras em cada estado

Como organizar uma mulher que trabalha o dia todo e tem que cuidar da casa, dos filhos, etc.? Alguns dizem que é impossível! Que até tentam, mas as mulheres não vêm. Se as mulheres são tão exploradas e oprimidas assim, são também muito interessadas em mudarem suas vidas. 

Carol Vigliar e Luiza Fegadolli | São Paulo


MULHERES – As mulheres representam, segundo dados da PNAD de 2021, 51% da população brasileira. Somam 44% do total da força de trabalho e são a maioria entre os desempregados: 55,5%. Dentre as pessoas que trabalham na indústria e na construção, 23% são mulheres e ganham 17% a menos que os homens; representam 42% dos trabalhadores do comércio e reparo, mas recebem 24% menos. Dentre os trabalhadores da educação, saúde e serviço social as mulheres são a grande maioria, 75%, mas recebem 32% a menos.

Em resumo, as mulheres são uma parcela considerável da força de trabalho, mas ainda hoje recebem menores salários e são a maioria entre os desempregados. 

Mesmo trabalhando fora, ainda são responsáveis, na maioria dos casos, por toda a esfera da reprodução social: cuidar de crianças, idosos e doentes, lavar, passar, cozinhar, fazer compras, limpar. Planejar como o dinheiro da família será gasto. Chegar em casa e preparar o jantar e, muitas vezes, a comida do dia seguinte. Em média, as mulheres trabalham 21 horas por semana em afazeres domésticos, enquanto os homens apenas 11 horas.

Isso significa que as mulheres recebem menores salários pelo mesmo trabalho, perdem primeiro seus empregos, ocupam os postos mais precarizados. Como se isso já não bastasse, a jornada de trabalho da mulher não acaba quando ela bate o cartão ou recolhe sua barraca de vendedora ambulante em uma calçada. Não. Sua jornada se estende por mais cerca de quatro horas por dia em tarefas domésticas.

No capitalismo, a força de trabalho de uma pessoa é uma mercadoria. O que define a classe trabalhadora é não possuir nada mais para vender do que sua força de trabalho. Sem vendê-la, o trabalhador não receberá um salário e não poderá comprar aquilo que é essencial para a sobrevivência humana. Porém, a força de trabalho não é uma mercadoria qualquer. Ela precisa nascer, ser cuidada e alimentada, educada. Quando cresce, continua precisando desses cuidados. 

É isso o que chamamos de reprodução social: parir, amamentar, alimentar, cuidar, lavar, cozinhar, administrar a vida da família, etc. Esse trabalho é fundamental para o capitalismo e as mulheres não recebem nada por ele. Ele é confundido com amor e afeto. Mas é apenas mais uma forma de exploração das mulheres da classe trabalhadora.

Não é à toa que, até hoje, ainda recai sobre os ombros das mulheres toda essa infinidade de tarefas que poderiam ser socializadas. Quando falamos em trabalho socializado, estamos dizendo que o trabalho que é considerado obrigação da mulher dentro da sua casa, deveria ser papel do Estado, como acontece hoje com as creches. Ninguém discorda da importância do Estado no cuidado com as crianças na fase inicial da sua vida, mas nem sempre foi assim. Só com muita luta das mulheres que se conquistou esse direito.

Outras tarefas também podem ser socializadas, como restaurantes coletivos, lavanderias coletivas, etc. Ao deixar todo esse trabalho nas costas das mulheres, os capitalistas podem aumentar seus lucros, reduzindo o salário de toda a classe trabalhadora e deixando de investir em saúde, lavanderias coletivas, escolas de tempo integral, restaurantes comunitários, saúde integral, etc., porque as mulheres estão fazendo todo o trabalho da reprodução social de forma individual, no espaço privado dos seus lares e, na maioria das vezes, sendo oprimidas pela família para continuar fazendo isso sem questionar.

Esse trabalho é essencial para a roda do capitalismo continuar girando. Por isso, manter as mulheres oprimidas e cumprindo esse papel é essencial para manter a sociedade de classes e a burguesia explorando toda a classe trabalhadora. Assim, não é possível pensar em transformar a sociedade, em fazer uma revolução proletária em nosso país, sem a participação ativa das mulheres.

Sem as trabalhadoras, é impossível a revolução

Mas como organizar uma mulher que trabalha o dia todo e tem que cuidar da casa, dos filhos, etc.? Alguns dizem que é impossível! Que até tentam, mas as mulheres não vêm. Porém, se as mulheres são tão exploradas e oprimidas assim, são também muito interessadas em mudarem suas vidas. E a história nos oferece muitos exemplos de mulheres trabalhadoras organizadas. Não foram poucas as greves protagonizadas por mulheres.

No início do século 20, as operárias têxteis realizaram inúmeras greves nos Estados Unidos. Em março de 1917, milhares de mulheres marcharam por pão, paz e terra na Rússia pré-revolucionária. No Brasil, nesse mesmo ano, mulheres anônimas somaram-se à Greve Geral de 1917, reivindicando melhores condições de trabalho, aumento salarial, fim do trabalho infantil e redução da jornada de trabalho.

No final da ditadura, mulheres trabalhadoras das periferias da Zona Leste e Sul de São Paulo organizaram um grande movimento contra a carestia. Laudelina de Campos Melo e Margarida Maria Alves foram duas importantes lideranças sindicalistas na cidade e no campo. Esses são apenas alguns exemplos para mostrar que mulheres nunca se ajoelharam diante desse sistema.

Por tudo isso, é hora de irmos aos locais de trabalho onde estão as mulheres. É hora de organizarmos as mulheres trabalhadoras para lutar pelo direito à creche, pela redução da jornada de trabalho, por aumento do salário mínimo e igualdade salarial.  Pelo direito de faltar ao trabalho para acompanhar seus filhos ao médico. Organizar as mulheres contra o assédio no local de trabalho, por lavanderias públicas comunitárias, por restaurantes populares. Precisamos mostrar que existe uma outra forma de viver, falar sobre o socialismo.

Devemos realizar panfletagens e brigadas do jornal A Verdade em fábricas, telemarketings e outros locais de trabalho com maioria de mulheres. Começar entregando um panfleto, vendendo um jornal, montando uma banquinha com café, conversando e ouvindo as denúncias das mulheres. Precisamos conquistar a confiança das mulheres e isso só com tempo e constância.

Devemos organizar núcleos do Movimento Olga Benaria e do Movimento Luta de Classes (MLC) com as mulheres trabalhadoras para estudar e organizar as lutas em cada categoria, pois é nos coletivos onde a consciência dessas mulheres vai se desenvolver. A organização das mulheres trabalhadoras é urgente. Precisamos ir até elas, organizá-las onde estão e construirmos uma grande campanha de organização de mulheres trabalhadoras!

Matéria publicada na edição nº 277 do Jornal A Verdade.

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