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quarta-feira, 17 de abril de 2024

Assassinato de Mãe Bernadete é crime contra o povo negro

Rafael Freire | Redação


LUTA POPULAR – Choveu em Salvador até a sexta-feira, mas, no sábado, o céu se abriu e fez bastante sol. A terra, porém, continuou molhada. Eram as lágrimas de dor e de indignação do povo baiano pela vida ceifada de Maria Bernadete Pacífico, 72 anos, a Mãe Bernadete, ialorixá e líder do Quilombo Pitanga de Palmares. Ela foi assassinada com tiros no rosto, dentro de casa, na presença de seus netos, no dia 17 de agosto.

“Naquela noite, meus sobrinhos e meus primos estavam na casa. Quando ouviram a batida na porta, minha mãe mandou o mais novo, de oito anos, ver quem era. Dois homens entraram de capacete, pegaram os celulares de todo mundo, trancaram as crianças nos quartos e depois fuzilaram minha mãe”, relata Jurandir Pacífico, o filho.

O sepultamento, no sábado (19), no cemitério Quinta dos Lázaros, na capital, foi marcado por discursos e cânticos de revolta. “Mãe Bernadete, em nome de todos os orixás e inquices, nós continuaremos na luta e não decepcionaremos sua memória. Axé!”, exclamou o representante de um dos vários de quilombos presentes. Nos dias 18 e 24, ocorreram atos em repúdio ao genocídio do povo negro e que também renderam homenagens à líder quilombola.

“Eu conheci uma mulher que me ensinou a não desistir da luta. E, por sermos negros e negras, eu não quero que essa atrocidade se transforme em estatística. Essa mulher sempre me dizia, quando eu pensava em desistir: ‘minha oxum, se a gente, que é bom, silenciar, os ruins vão tomar conta’. Quem conheceu iá Berna sabia que esse era um de seus lemas”, falou muito emocionada uma jovem.

Donana, mãe de quilombo e líder do Quilombo Quingoma, Município de Lauro de Freitas, falou ao jornal A Verdade logo após a cerimônia de sepultamento. “A gente tem que se organizar pra Revolução! Chega de muita conversa, pois estamos morrendo. Nenhum órgão público vai resolver isso. Só com muita briga, com muita luta, vamos resolver. Eles atiram nos nossos rostos e a gente só chora, só lamenta. Berna foi em tantos cantos denunciar a morte do filho [Flávio Pacífico, o Binho do Quilombo, em 2017] e dizer que se sentia ameaçada. Em julho, falou para a presidente do STF lá nosso território. Estava no programa de proteção do Governo da Bahia. Mas nada disso foi capaz de lhe garantir segurança. No nosso corpo corre um rio de sangue que está sendo derramado há séculos. Foi nos navios, nos troncos, nas senzalas. Depois nas cozinhas dos brancos e hoje também nas fábricas. Basta de extermínio do nosso povo!”.

Pitanga de Palmares pertence ao Município de Simões Filho, mas está mais próximo de Camaçari, entre o Polo Petroquímico e a Refinaria Landulfo Alves, que recentemente foi privatizada. É uma terra cobiçada pela especulação imobiliária e por empreendimentos danosos. Possui um lençol freático farto, que abastece de água Simões Filho e Salvador, um manancial, um grande areal, Mata Atlântica fechada e minerais. Atualmente, 16 dutos de produtos químicos passam por baixo do território, que ainda não obteve a devida demarcação por parte do Incra. Além disso, nos últimos anos, a Prefeitura instalou um pedágio, uma Colônia Penal e um lixão na região.

“O lixão foi um dos principais motivos da morte do meu irmão. Binho brigou muito para que não fizessem esse lixão. No dia 03 de setembro de 2017, foi realizada uma audiência pública sobre o lixão e conseguimos embargar a obra. No dia 19, mataram Binho”, relata o irmão, Jurandir.

Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia pelo PT, afirmou que a principal linha de investigação da Polícia Civil sobre o assassinato de Bernadete é a disputa entre facções criminosas. O advogado Leandro Santos, que representa a família, classificou a declaração como “canalha, violenta e precipitada”. “Querem nos fazer engolir goela abaixo que Mãe Bernadete, que era uma referência moral, poderia estar num ambiente de contradição com facções criminosas. Isso é inaceitável. A polícia deveria investigar uma possível relação com o crime contra Binho, que ainda não foi solucionado”, conclui o advogado.

Matéria publicada na edição nº 278 do Jornal A Verdade.

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