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quinta-feira, 30 de maio de 2024

Mitos e resistência negra no Brasil

“Eu peço companheiro brasileiros, e não brasileiros, negros, e aqueles que se dizem negros. É necessário que todos ponham na cabeça que este Brasil racista só vai mudar no momento em que a gente começar a pressionar este sistema educacional,  esta educação e todos os setores sociais façam uma mudança, esta mudança só acontece no momento em que cada brasileiro comece a mudar sua cabeça para a transformação total” Zezito Araújo, confundador da Fundação Cultural Palmares e ex-docente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Alberes Simão | Recife – PE


Todos nós somos vítimas da história mal contada do negro no Brasil. Fomos condicionados a “ver” o negro apanhar no tronco, calado e sem resistir. No cinema e na televisão, não há nenhuma resistência aos castigos de absurda crueldade. Nas cenas que as mídias de comunicação visual mostram, em geral, não há nenhum movimento de revolta negra. Cenas de novelas globais que ganharam destaque, como Sinhá Moça, nos causam a seguinte pergunta: que coisa! como pode o povo brasileiro assistir passivamente o negro ser chicoteado no tronco até a exaustão e a morte? Por que será que não unem forças e não resistem?

A resposta destas perguntas não é difícil, porque os autores da História brasileira escreveram e publicaram de norte a sul de nosso país aos moldes da classe dominante, com a intenção de apagar a resistência negra e indígena. Este modo de escrever fomenta o conto, a novela ou o roteiro de cinema de tal modo que o senhor branco, dono e chefe da casa grande liberta os escravizados por “compaixão”. Como no caso anteriormente citado, que vimos em Sinhá Moça.

Não obstante, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que durante muitos anos esteve à frente do Ministério da Educação, fez com que a historiografia brasileira fosse inteiramente branca e, em seus livros, como o Casa Grande & Senzala, uma das mais conhecidas obras sociológicas sobre o tema, exemplifica que os negros tinham entre eles uma forma de “democracia” e conviviam bem entre senhores, mercadores e traficantes de escravos, e daí que surge a falsa Teoria da Democracia Racial.

Sabemos que Gilberto Freyre é e sempre foi um misógino e racista da crítica social (Lopes, 1983), e colocava que o negro teve um tratamento humano no Brasil enquanto monarquia e império. Dessa forma, a história brasileira criou dois grandes mitos: o mito do senhor bondoso e o mito do negro submisso. Torna-se evidente que a historiografia brasileira oficial cultuou e patrocinou este tipo de sistema criado por Freyre que constou nos livros didáticos escolares, constituído como a “oficialização” da história mal contada.

Basicamente, aceitar o contrário, ou seja, a rebeldia negra, significaria permitir a discussão de tais causas da rebeldia, que está evidentemente ligado ao tratamento desumano que negros e negras sofreram desde a imposição do sistema do latifúndio feito pelos colonizadores e senhores de engenho que hoje estão agrupados na política local, estadual e nacional. O sistema ainda é o mesmo, as grandes famílias, donas dos latifúndios, da indústria e dos empreendimentos se modernizaram e estão tomando como posse as cidades que desde a colonização as pertenceram.

A constituição desses mitos teve no governo um forte aliado quando o então ministro Rui Barbosa ordenou oficialmente a queima de toda a documentação. Foram queimados todos os papéis referentes, por ordem do senhor ministro Rui Barbosa (Sant´ana,1988), ou seja, documentos de relevância incontestável para a reconstituição da história do negro no Brasil.

Portanto, temos a possibilidade de reconstituir essa história e garantir o lugar de destaque que cabe a negritude afro brasileira, um diálogo com autores como Clóvis de Moura, Lélia Gonzales, Abdias do Nascimento, Silvio Almeida, Conceição Evaristo, Maria Carolina de Jesus, assim como tantos outros autores negros e negras para avançarmos no processo de destruição do racismo no Brasil, que vem acompanhado do processo de ruptura com esse sistema que historicamente perpetua tais violências.

Referências Bibliográficas

LOPES, Luiz Roberto. História do Brasil Colonial. 2.ed, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983.

SANT’ANA, Moacir Medeiros de. A Queima de Documentos da Escravidão. Maceió, Secretaria de Comunicação Social, 1988.

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