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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Cleone Santos, uma mulher que dedicou sua vida a todas as mulheres

Cleone, mulher preta, operária, mãe e avó, dedicou toda uma vida à luta do povo pobre, pela vida e libertação das mulheres.
Victória Magalhães


MULHERES| Cleone Santos foi uma mulher preta, trabalhadora, operária, mãe e avó, que dedicou toda uma vida à luta do povo pobre e pela vida e libertação das mulheres, sendo uma das fundadoras da organização Mulheres da Luz. Nascida em 1957, Cleone faleceu aos 65 anos, em maio de 2023, mas segue viva na história da classe trabalhadora brasileira. Ela iniciou sua militância como operária, trabalhando em fábricas na região do ABC. A partir daí se tornou militante do movimento sindical. Organizou núcleos de trabalhadoras e trabalhadores desempregados e foi militante também do Movimento de Moradia.

Nos anos 1980, após ficar desempregada, passou a trabalhar com limpeza no Centro de São Paulo, em lojas de roupas da Rua José Paulino, que fica no Bom Retiro. Ao terminar uma casamento de muito abuso, mãe solo, com três filhos para criar, sofrendo com a carestia da vida, sem dinheiro para dar conta de pagar as despesas da familia e com a necessidade de construir um barraquinho para si e para seus filhos, passou a viver em situação de prostituição, no Centro de São Paulo, onde esteve por 18 anos.

Durante esses anos, não deixou a militância de lado, mesmo trabalhando nas ruas de maneira clandestina, sem que sua família soubesse, começou a construir a luta ao lado de outras mulheres que estavam na mesma condição e militou na Pastoral das Mulheres Marginalizadas, ligada à CNBB (Comissão Nacional dos Bispos no Brasil). Participou também da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil, contribuindo com a formulação de uma visão crítica à regulamentação da prostituição no Brasil.

Exausta da profunda situação de opressão e exploração que via e vivia junto a outras mulheres em situação de prostituição, passou a pensar e construir alternativas de vida e dignidade as mulheres. Neste processo, através principalmente do trabalho que desenvolvia na Pastoral, estreitou laços com a irmã Regina –  freira da ordem passionista São Paulo da Cruz, que trabalha com auxílio a mulheres em situação de vulnerabilidade desde os anos 1980. Veio do Espirito Santo para São Paulo devido a perseguições sofridas após lutar contra uma rede local de tráfico de mulheres –  Juntas fundaram o coletivo Mulheres da Luz, que luta pela organização das mulheres em situação de prostituição.

As Mulheres da Luz promovem uma incessante luta pela dignidade e pelo direito das mulheres ao acesso à saúde física e mental, além da formação política e para geração de renda. As mulheres atendidas pelo coletivo são, em sua maioria, negras, periféricas, com idade média de 40 a 70 anos, são mães e avós que sustentam suas famílias, e consideram a prostituição como uma situação de passagem, que as ajude a manter suas famílias enquanto não conseguem acessar um emprego.

Cleone sempre defendeu que a solução para a prostituição é a construção de politicas públicas que enfrentem a violência contra as mulheres, que deem a todas as mulheres condições de viver um vida plena e livres da fome e da miséria, e sobretudo, o rompimento da lógica capitalista que olha os corpos das mulheres como mais um propriedade, mais um produto a ser comprado e vendido. 

Iniciando os atendimento em bancos de praças, a organização funcionou por muitos anos no porão do Parque da Luz e durante a pandemia, com vaquinhas e outras campanhas coletivas de arrecadação, passaram a manter uma casa alugada para melhorar os atendimentos e acolhimento das atendidas.

Estas mulheres, chegam à Mulheres da Luz em busca de refúgio, cuidados e esperança. Em uma entrevista para a Carta Capital, Cleone falou sobre a necessidade de resgatar nelas o direito de sonhar: “A maioria das mulheres que nós atendemos são mulheres pretas… A mulher preta. Vai se tirando tudo dela. O direito de ter uma casa, direito de estudar, até o de ir e vir. Sonhar é esperança, né? E a gente tem que sonhar, sonhar e sonhar. Sonhar que o filho vai sair na rua e não vai correr risco de a polícia bater e prender. Sonhar em ter uma casa, sonhar em poder ir a uma universidade…”.

Quantos são os sonhos roubados das mulheres pretas, trabalhadoras e periféricas todos os dias? Quanto uma mulher como a Cleone, que nunca desistiu da vida e da luta, tem a nos ensinar? Quantas Cleones existem entre nós? Nos bairros, nas fábricas, nos ônibus lotados, na limpeza urbana, nos barracos, nas ocupações, nas ruas?

Ainda com todo esse acúmulo de lutas, Cleone sempre olhou com alegria o surgimento de novos movimentos da sociedade e sempre esteve entusiasmada ao lado das novas jornadas e iniciativas que surgiam em defesa da classe trabalhadora e das mulheres. Participava de mesas de debates, da formação de novas militantes e de novas organizações.

Quando o Movimento de Mulheres Olga Benario ocupou a Casa Carolina Maria de Jesus, em Santo André, por exemplo, Cleone Santos foi uma das primeiras apoiadoras a chegar. Passou o dia todo na ocupação, prestando solidariedade, atenta às movimentações, formulando os rumos da Casa junto ao Movimento. Foi ela quem denunciou pela primeira vez que a Casa ali ocupada para salvar a vida das mulheres havia sido no passado um prostibulo ilegal, que explorava mulheres vulneráveis.

A luta das mulheres, pela emancipação e libertação, pelo fim da violência, pelo direito a trabalho, comida e moradia, é uma luta histórica e há muito ainda a ser feito. Conhecer, reconhecer e seguir com a história e a luta de mulheres como Cleone é dever de todas as mulheres que constroem cotidianamente a luta por uma nova sociedade, por um mundo justo e livre da opressão das mulheres e das crianças. 

Obrigada Cleone por toda a contribuição dada ao mundo justo!

Cleone é semente!

Cleone Santos, presente! Viva o trabalho das Mulheres da Luz!

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