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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Assata Shakur e a luta das mulheres negras revolucionárias

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Assata é uma militante do Partido dos Panteras Negras que organizou a luta antirracista nos Estados Unidos durante os anos 70, e é uma das mulheres mais procuradas pelo FBI, setor de inteligência norte-americana.

Gabriela Torres | Redação


O capitalismo, sistema de produção baseado na propriedade privada, precisa da violência de opressão voltada a uma parcela da classe trabalhadora – a misoginia e o racismo – para manter a acumulação de uma minoria parasita. Uma das grandes mulheres que compreendeu e lutou contra essa lógica foi Assata Olugbala Shakur. Nascida no Queens, em Nova Iorque, Assata é uma militante revolucionária que organizou a luta antirracista nos Estados Unidos durante os anos 70, e foi uma das mulheres mais procuradas pelo FBI, setor de inteligência norte-americana.

Revoltada com o sistema de miséria e fome, Assata iniciou a sua militância no movimento estudantil durante a sua passagem pela Faculdade Comunitária de Manhattan. Seu encontro com o Partido dos Panteras Negras contemplou a sua vontade de radicalizar e a insatisfação com a política reformista: se convenceu pelo programa de dez pontos da organização marxista e desenvolveu a sua trajetória construindo várias das ações mais conhecidas do partido, como a política de cafés da manhã coletivos nas comunidades; que chegou a alimentar mais de 10 mil crianças fixamente.

Sua atuação no partido comunista e no Exército de Libertação Negra a colocou na mira da repressão norte-americana: Assata foi alvo da COINTELPRO – programa de espionagem que visava destruir organizações revolucionárias e que atacou outros nomes como Fred Hampton, Muhammad Ali e Malcolm X. Em 1973, sofreu uma emboscada dos policiais e foi presa. Baleada, foi torturada e acorrentada na cama do hospital. Após a sua prisão, Assata proferiu o discurso “para o meu povo”, gravado já em cárcere, e que ocupou as rádios do país momentos antes de enfrentar os tribunais.
Eu declarei guerra aos ricos que prosperam com a nossa pobreza, aos políticos que mentem para nós com faces sorridentes e a todos os estúpidos, robôs sem coração que protegem a eles e a sua riqueza. (…) 

Eles nos chamam de ladrões e bandidos. Eles dizem que nós roubamos. Mas não fomos nós que roubamos milhões de pessoas Negras do continente africano. Nós fomos roubados da nossa língua, dos nossos Deuses, da nossa cultura, da nossa dignidade humana, do nosso trabalho e das nossas vidas. Eles nos chamam de ladrões, ainda que não sejamos nós que desviamos bilhões de dólares todo ano em evasões fiscais, fixação ilegal de preços, peculato, fraude contra o consumidor, subornos, propinas e corrupção. Eles nos chamam de bandidos, ainda que toda vez que a maioria das pessoas Negras pegam os seus salários estejam sendo roubadas.”

No tribunal, recebeu uma sentença perpétua e foi duramente punida durante a sua prisão: Nos primeiros anos, foi encaminhada para um confinamento solitário, e depois presa em um presídio masculino com supremacistas brancos. 

Apesar de seguir viva na ilha socialista, até hoje o Estado norte-americano não deixou de persegui-la: sofreu diversas tentativas de extradições e foi a primeira mulher incluída na lista dos 10 terroristas mais procurados pelo FBI em 2013. A solidariedade internacionalista do povo cubano permitiu que a poetisa pudesse viver em segurança e escrever sua autobiografia em 1987, registrando a sua trajetória de luta com uma perspectiva interna, humana e crítica das organizações que construiu. 

Terrorista para os EUA, referência para as comunistas

O histórico de luta de Assata é uma prova da capacidade de mobilização e liderança das mulheres negras nos momentos de acirramento das lutas sociais: madrinha de Tupac Shakur, foi decisiva para a politização da cena do Hip Hop da costa Oeste, atuou em uma experiência decisiva da luta antirracista internacional e é um exemplo de dirigente de um organização que foi considerada uma ameaça à segurança nacional e perseguida pelo Estado racista dos Estados Unidos. 

Relembrar a trajetória de revolucionárias como Assata é crucial para todos que tenham a intenção de transformar radicalmente a sociedade e lutar por justiça econômica e racial. O exemplo de mulheres negras que deram as suas vidas pela liberdade do nosso povo deve ser guia e combustível a quem nunca teve o direito de ter algo a perder.

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