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sábado, 18 de maio de 2024

A luta candanga – a história da classe trabalhadora na construção de Brasília

Thiago da Nóbrega Medeiros | Brasília (DF)

“Cinquenta anos em cinco”. Este foi o lema utilizado pelo então presidente da República Juscelino Kubitschek para descrever seu plano de metas, que incluía como questão central a construção de uma nova capital para o Brasil: Brasília. A cidade planejada por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo foi edificada por operários imigrantes de todos os lugares do país, mas principalmente do Nordeste e do Norte, para o território que viria a ser a nova capital. Ficaram conhecidos como os candangos.

Com a promessa de que conseguiriam construir um rico pé de meia, muitos desses trabalhadores deixaram para trás suas famílias e fizeram a jornada até o árido cerrado, que seria o túmulo para muitos deles. Na cidade que foi planejada para os ricos, os candangos ergueram vigas com o ferro de seu sangue, cimentaram edifícios com os cadáveres dos trabalhadores que foram assassinados pela ganância, negligência e o ego da burguesia e lutaram pelo seu direito de permanecer na cidade que construíram. Se os 50 anos de JK não eram capazes de abarcar a classe trabalhadora, esta se fez caber na Capital que sempre a tentou expulsar.

A Novacap

Como o território que viria a abrigar o Distrito Federal foi desmembrado do Estado de Goiás, é retirada deste a responsabilidade jurídica pela área enquanto a Capital é construída, que, como solução provisória, passou a ser administrada pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), empresa estatal fundada para viabilizar a construção de Brasília.

Observemos a perversão deste ato, passar todo o poder jurídico de um território para uma empresa, que tem como objetivo viabilizar “cinquenta anos em cinco”, escancara o quanto o projeto burguês tinha como objetivo central ganhar capital político para JK, independentemente de qualquer sofrimento ou perda que a classe trabalhadora tivesse.

Para dar tempo de terminar a obra no prazo, muitos direitos trabalhistas foram ignorados. O limite de duas horas-extras era multiplicado várias vezes nas chamadas “viradas”, pois era mais barato do que contratar novos operários; empreiteiras clandestinas (conhecidas como “Gatos”) ofereciam um pagamento maior pois não assinavam a carteira de trabalho; a negligência em relação à segurança dos trabalhadores era total, não sendo possível saber, de fato, quantos trabalhadores se acidentaram ou morreram na construção da capital.

Tomemos, como exemplo, um dos poucos registros existentes, do improvisado Hospital do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (conhecido como Hospital do Iapi), que, no ano de 1959, atendeu 10.927 acidentados, uma média de 30 casos por dia, média que aumentou para 170 no ano seguinte. José Cosme Pereira, carpinteiro e operário candango, relata no livro Expresso Brasília: A História Contada Pelos Candangos: “A maioria dos acidentes acontecia na hora da concretagem. A correria era maior, porque o cimento não podia passar do ponto. A empreiteira chamava todos os quebra-galhos, gente que nem sabia usar um martelo. Quando o bico da laje quebrava, saía derrubando operário de andar em andar até chegar lá embaixo. Mais do que depressa, o encarregado, sujeito responsável pela obra, jogava um pedaço de lona em cima para ninguém identificar o corpo. E a mulher, coitada, ficava lá no Norte, junto com os filhos, pensando que tinha sido abandonada pelo marido”.

GEB, o açoite burguês

Não era só de negligência que morriam os candangos, era também de bala. A Guarda Especial de Brasília (GEB) funcionava como a Polícia do Estado provisório da Novacap. O processo seletivo para o alistamento dos “gebianos” (ou “bate-paus”, como também eram conhecidos) era correr 100 metros com um saco de cimento nas costas. Além disso, alguns alistamentos aconteciam também entre os próprios operários, normalmente recrutando aqueles que mostravam uma disposição maior à violência com seus colegas de obra. A GEB era sinônimo de brutalidade contra os operários, servindo como mais um instrumento de repressão e de garantia de que o projeto de Kubitschek fosse realizado a qualquer custo. Nada exemplifica mais o papel gebiano no período da construção da capital que sua ação no Carnaval de 1959.

As cantinas das empreiteiras responsabilizadas pela construção de Brasília eram lugares onde a insatisfação borbulhava. Comidas preparadas com pouca higiene, em um espaço mal cuidado, geravam constantes diarreias e surtos de infecção intestinal tão graves que chegaram a ter proporções pandêmicas. A precária solução encontrada pelos donos das empreiteiras, em muitos dos casos, era dar remédios para que os trabalhadores tomassem entre as refeições, não pelo seu bem-estar, mas para que não parassem de produzir. Essa era a realidade em que se encontravam os trabalhadores da construtora Pacheco Fernandes na véspera do Carnaval de 1959. Havia, porém, mais um motivo para o fervor dos trabalhadores, os patrões haviam desligado a água, impedindo os candangos de tomar banho para ir pular o Carnaval.

Com tudo isso em mente, quando ecoou pela cantina o grito “A carne está estragada!”, o quebra-quebra era inevitável. Uns três gebianos tomaram a frente para controlar a situação e, como era de seu feitio, iniciaram um espancamento no centro do acampamento. No entanto, os trabalhadores reagiram coletivamente e conseguiram livrar os companheiros da surra covarde, colocando os agentes da GEB para correr. A situação parecia concluída. No véu da noite, entretanto, seria escrita a continuação dessa história. Próximo da meia-noite, muitos dos peões já dormiam quando alguns caminhões adentraram no acampamento dos trabalhadores. Mais de 50 gebianos armados de metralhadoras abriram fogo contra os trabalhadores em represália por sua insolência no horário do almoço.

Com as luzes propositalmente apagadas, foi impossível medir o número de mortos. De acordo com o inquérito policial, ocorrera apenas uma morte. Já o relato de José Damião da Silva, conhecido com Damiãozinho, também para o livro Expresso Brasília, revela outros números: “Eu vi um caminhão saindo cheio de gente morta. Ia para mais de 80 pessoas. Foram jogados uns por cima dos outros. Dizem que um trator cavou uma vala e jogou o pessoal lá dentro”. Se você não conhecia esta história, saiba que a cortina de fumaça na época foi severa. A Capital que tinha sido profetizada por Dom Bosco era o paraíso para JK e o inferno para os candangos.

A luta por moradia

É chegado o grande dia! Brasília está no mapa! Em 21 de abril de 1960, é inaugurada a nova Capital Federal. A cidade tão planejada tinha apenas um problema, não fora feita para comportar os trabalhadores que a construíram. Os candangos eram um entulho indesejado da construção de Brasília. Com seus pés-de-meia feitos, alguns voltaram aos seus Estados de origem. Outros, porém, queriam gozar da cidade que edificaram e não arredariam o pé dali. A luta pela moradia no DF começou no dia zero. Alguns candangos, moradores da Vila Amauri, viram suas casas devoradas pela transposição do Lago Paranoá. Outros viram o pequeno aglomerado de comércios e biroscas conhecida como Cidade Livre, se tornar o Núcleo Bandeirante, primeira cidade satélite de Brasília. Tem também quem foi realocado pela Campanha de Erradicação das Invasões (CEI) e mora hoje na Ceilândia, região administrativa mais populosa do Distrito Federal. A Capital só existe como é hoje pela coragem da classe trabalhadora de não arredar o pé do “quadradinho”. Quando tentaram nos expulsar, ocupamos! Sem covardia, tomamos aquilo que era nosso. E hoje reconhecemos essas ocupações como cidades do Distrito Federal. 

A história do nosso povo não pode ser esquecida! Mantemos sua longa jornada preservada no Museu Vivo da Memória Candanga. Mantemos sua coragem viva quando ocupamos e lutamos por moradia. E mantemos sua chama acesa quando lutamos contra nossos opressores. Vivam os candangos!

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