Indígenas mantém ocupação em frente ao terminal portuário da Cargill, em Santarém, Pará, e ampliam denúncias e reivindicações contra um retrocesso socioambiental que é a dragagem no Rio Tapajós. A manifestação teve início dia 22 de janeiro e segue firme.
Denily Fonseca |Pará
MEIO AMBIENTE- A ocupação indígena em frente ao terminal da multinacional Cargill, chega ao 22° dia de resistência. Fruto da mobilização e da pressão de dezenas de povos indígenas do Baixo Tapajós, o governo federal anunciou a suspensão do Pregão Eletrônico nº 90515/2025, que previa a contratação de empresa para executar o Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (PADMA) na Hidrovia do Rio Tapajós, sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
Sem a ocupação, o pregão teria seguido normalmente. A suspensão do decreto comprova que, diante dos interesses do agronegócio e das grandes empresas, direitos só existem quando são arrancados pela luta organizada dos povos.
Apesar da suspensão da dragagem, o Decreto nº 12.600, que prevê a concessão da Hidrovia do Tapajós à iniciativa privada, segue em vigor. Enquanto esse decreto não for revogado, a ameaça permanece. Por isso, os povos indígenas mantêm a ocupação.
Arco Norte: o corredor do saque que transforma a Amazônia em rota de exportação
O chamado Arco Norte não é um projeto de desenvolvimento para a Amazônia. É um corredor logístico criado para atender exclusivamente aos interesses do agronegócio e das multinacionais exportadoras, encurtando o caminho da soja e do milho produzidos no Centro-Oeste até os portos do Norte e, de lá, ao mercado internacional.
Nesse modelo, rios como o Tapajós deixam de ser territórios vivos e passam a ser tratados como infraestrutura logística. O planejamento do Arco Norte articula portos privados, hidrovias concedidas à iniciativa privada, rodovias e ferrovias para garantir rapidez, baixo custo e segurança ao capital exportador.
Portos como o da Cargill, em Santarém, são peças centrais desse projeto. Eles não existem para fortalecer a economia local, garantir soberania alimentar ou melhorar a vida da população. Existem para escoar commodities, gerar lucro para grandes empresas e aprofundar a dependência econômica do país.
O Arco Norte não existe para desenvolver a Amazônia nem para melhorar a vida de quem vive no território. Ele existe para garantir lucro rápido e barato ao capital. Nesse sentido, a Amazônia entra como rota de passagem fácil.
O que significa não revogar o decreto?
Manter o Decreto nº 12.600 significa aceitar a privatização dos rios amazônicos. Significa entregar o controle de um bem público essencial à vida para empresas privadas que operam segundo critérios de rentabilidade e não de preservação ou respeito aos povos.
Na prática, isso impõe dragagens permanentes, aumento intenso do tráfego de grandes embarcações, restrição do uso tradicional do rio e a imposição de obras sem consulta livre, prévia e informada. O rio deixa de ser território e passa a ser estrada privada do agronegócio.
Por isso, somente a suspensão de um pregão não altera esse projeto. Enquanto o decreto seguir em vigor, novas dragagens e novas concessões continuarão sendo planejadas. O governo apenas adia o conflito, na tentativa de preservar os interesses empresariais e ao mesmo tempo dizer que está ao lado dos povos indígenas e comunidades tradicionais da região.
A morte dos rios e a destruição dos biomas
A dragagem e a transformação do Tapajós em hidrovia provocam impactos profundos e muitas vezes irreversíveis. A retirada de sedimentos altera o curso do rio, compromete a reprodução dos peixes, afeta a qualidade da água e desorganiza o ciclo natural das cheias.
Esses impactos atingem diretamente os biomas amazônicos, a pesca artesanal, as florestas de várzea e a segurança das comunidades que dependem do rio para viver. Um rio submetido à lógica do mercado deixa de ser um sistema vivo e passa a ser uma máquina de transporte. Esse processo representa a morte gradual dos rios amazônicos.
Ataque direto à vida, à cultura e aos costumes dos povos
As multinacionais, representantes do agronegócio, da exportação em massa não podem privatizar um rio, pois ele organiza a vida social, cultural e espiritual de milhares de comunidades e povos indígenas que habitam o baixo Tapajós. A privatização do Tapajós ameaça os modos tradicionais de pesca e navegação, os rituais ligados às águas, a transmissão de saberes entre gerações e a própria existência coletiva dos povos.
Transformar o rio em hidrovia significa empurrar comunidades inteiras para fora de sua história. A cultura é desorganizada, a vida comunitária é fragmentada e o território é reduzido a espaço de passagem de mercadorias.
Cargill: imperialismo, lucro e destruição
A Cargill, é a expressão concreta desse projeto na região do Tapajós. Multinacional imperialista, não tem qualquer compromisso com a vida do povo, com a preservação da natureza ou com o futuro da Amazônia. Seu único compromisso é com o lucro.
Há anos, a empresa se beneficia da exploração das riquezas naturais, do uso de infraestrutura pública e da expansão do agronegócio, aprofundando a dependência econômica e os impactos socioambientais. Onde a Cargill avança, aumentam os conflitos, a destruição ambiental e a violação de direitos.
A ocupação continua
Foi somente com a força da mobilização indígena que a dragagem foi suspensa. Não foi concessão do governo. Foi a imposição da luta. Por isso, os povos indígenas seguem ocupando e resistindo.
Sem a revogação do Decreto nº 12.600, não há solução. Defender o Tapajós é enfrentar o agronegócio, o imperialismo e um governo que, apesar do discurso, segue governando para os empresários.
A luta dos povos indígenas do Tapajós é a luta em defesa da vida, dos rios e da Amazônia. E essa luta só avança com organização, resistência e enfrentamento direto ao saque.