Lançado em 25 de fevereiro de 1936, o filme mais importante da carreira de Charlie Chaplin permanece atual, além de ter trazido em sua época uma profunda crítica à exploração capitalista e suas crises, cada vez mais violentas.
Clóvis Maia – Redação Pernambuco
CULTURA- Em tempos de escala 6X1, baixos salários, exploração e precarização da mão de obra e o uso da tecnologia para extrair mais lucro do trabalhador ao invés de ajudá-lo, Tempos Modernos, lançado há exatos 90 anos, parece um retrato dos dias atuais. Feito em uma época em que o cinema mudo era visto como ultrapassado, Chaplin usou de toda sua experiência para criar uma obra que dialogasse com a situação social de seu tempo, o que veio a se tornar um clássico do cinema mundial.
A história nos apresenta o seu personagem Carlitos, como ficou conhecido no Brasil, tendo que se tornar um operário, adoecendo diante da exploração, sendo demitido, fazendo greve, procurando emprego, como uma espécie de representação do que o povo americano estava sofrendo. Problemas como a falta de moradia, fome, violência policial, drogas, em uma época em que o capitalismo atravessava a sua maior crise até então, a chamada Grande Depressão, que teve seu estopim com a queda da bolsa de valores de nova York em outubro de 1929.
Muito popular em todo o mundo e com uma carreira já consolidada, Tempos Modernos deixou de ser um retrato de uma época, para se tornar uma espécie de radiografia de um sistema decadente.
“Não pare para o almoço, fique à frente da concorrência”
Essa é uma das frases emblemáticas que representam o filme, em um momento em que uma empresa apresenta ao patrão uma máquina que obriga o trabalhador a comer enquanto realiza seu trabalho. Outra cena clássica é a do Carlito adoecendo ao tornar-se um apertador de parafuso, mas o longa é totalmente marcado pela denúncia, desde o adoecimento causado por uma rotina exaustiva, passando pelo patrão, que enquanto lê seu jornal e monta um quebra cabeça em sua confortável sala, vigia seus empregados com mão de ferro e manda aumentar ainda mais a exploração.
Chaplin não fez apenas uma crítica ao modo de como as máquinas iriam substituir o trabalho humano um dia. Ao contrário, a proposta de Tempos Modernos é mostrar que o capitalismo só visa o lucro acima da vida, por isso a introdução já mostra um grande relógio apontando para esse controle do tempo – e da vida- da sociedade, que segue ‘tocada’ como um rebanho de ovelhas para o matadouro, ou a opulência das elites, em contraste com a fome assolando os mais pobres nas ruas. As imagens representadas são tão atuais, tão universais que, assistindo o filme 90 anos depois, que é quase inevitável não relacionar o filme com as imagens mais recentes de um EUA, considerado o coração do capitalismo, mergulhado na miséria e na pobreza, tendo à frente do Estado um fascista que ameaça o mundo com uma nova guerra mundial.
A linguagem artística à serviço da sociedade
Chaplin era crítico do cinema falado. Para ele, o uso da mímica, do humor corporal e da música ajudavam a tornar o cinema como uma linguagem democrática, popular e universal. As mensagens nos filmes de Chaplin, aliás, não deixavam dúvida: era um cinema popular e com um recorte de classe, mesmo o ator nunca tendo sido um militante de esquerda ou organizado. Os atuais sucessos de obras como Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, Pecadores, Argentina 1985 e Parasita mostram o quanto é possível se fazer uma arte cinematográfica dialogando com os grandes temas da sociedade, sem se render ao que é feito hoje na indústria de Hollywood.
“Animem-se. Nós vamos conseguir!”
Esse foi o último filme em que o personagem Carlito aparece. Na cena final, ao som de Smile, música composta por Chaplin para o filme, a mensagem deixada é de esperança e fé no futuro, reforçando que as coisas podem ser transformadas. Chaplin, aliás, foi duramente perseguido pela sua arte mais popular e crítica. Critico dos EUA por se recusarem a fazer uma frente ampla contra o nazifascismo junto aos soviéticos, foi exilado em 1952 pelo Macarthismo, mesmo tendo morado 40 anos na América e ajudado a erguer o cinema por lá.
Hoje, mais de 100 anos de seu primeiro filme (Carlitos Repórter, de fevereiro de 1914) as obras de Chaplin continuam sendo vistas por todo o mundo, atingindo todas as faixas etárias, idiomas e sendo uma fonte de formação e inspiração para lutar, sobretudo para enfrentar o dia a dia desse sistema tão perverso. Ainda hoje seus filmes são reproduzidos em cines debates em ocupações, escolas e universidades, e Tempos Modernos mostra como a arte é uma ferramenta ainda muito atual contra a alienação e todo o embrutecimento promovido por um sistema que não consegue nos entregar nada mais do que crise e violência e que está em franca decadência.