O Movimento de Mulheres Olga Benario faz um chamado a todas as mulheres que estão cansadas de serem exploradas e oprimidas, para que façam parte da luta contra os feminicídios e pela construção do socialismo.
Larissa Mayumi e Giovana Ferreira | Coordenação Nacional Olga Benario
MULHERES – “Mulher é assassinada após negar um beijo a um homem”, “Amiga de mulher arrastada é vítima de feminicídio”, “Mulher é assassinada por ex-companheiro”, “Homem tira a vida de ex-companheira dentro do shopping”. Essas têm sido notícias diárias, fazendo com que no último ano, por dia, acontecessem em média 4 feminicídios no Brasil. Além das mais de 3,7 milhões de brasileiras que sofreram violência de acordo com dados do DataSenado.
Afinal, por que a violência contra as mulheres e feminicídios tem aumentado em quantidade e em crueldade?
Uns dizem que é a impunidade, mas vejamos. Em São Paulo, estado com maior número de casos de feminicídio no último ano, houve um aumento de 30% de prisões dos assassinos. Além disso, no país, aumentaram 17% dos casos de julgamento, sendo em média 32 casos julgados por dia em 2025.
Assim, mesmo que seja fundamental punir aqueles que cometem tal barbaridade, somente com o aumento do número de julgamentos e prisões, os feminicídios seguem acontecendo e sendo mais frequentes.
Pedrina Gomes, de Minas Gerais, assistente social que realiza o acolhimento de mulheres em situação de violência desde 2012, afirma: “A maior parte das mulheres atendidas são mulheres que não estão em empregos formais, estão em subempregos e/ou assistidas por políticas públicas, como bolsa família e o Benefício de Prestação Continuada, e a falta de acesso à renda e a segurança de renda fragiliza ainda mais as situações de vulnerabilidade e consequentemente de violência”.
De acordo com dados do DataSenado, baseado em relatórios de 2023 a 2025, mais da metade das vítimas de violência recebem até 2 salários mínimos, grande parte com baixa escolaridade ou desocupadas. Ainda, 61% das mulheres afirmam que a dependência econômica as impede de realizar denúncias sobre sua situação de violência.
Portanto, o fato de as mulheres no nosso país receberem cerca de 25% a menos do que os homens já é um fator de risco. Além disso, a taxa de desemprego entre as mulheres está em quase 7%, enquanto a dos homens, 4,8%. No mundo, são quase 2 bilhões de mulheres e meninas sem nenhuma seguridade social.
Com mais de 3,7 milhões de mulheres que sofreram violência doméstica ou familiar no último ano, a falta de moradia também se torna um fator de risco da violência. De acordo com o relatório Sem moradia digna, não há futuro, da Habitat para a Humanidade Brasil, 62,6% das famílias em situação de déficit habitacional são chefiadas por mulheres. E desde 2020 até o último ano, quase um milhão de mulheres e meninas foram despejadas de casa ou sofrem ameaça de serem despejadas (Campanha Despejo Zero). Assim, muitas mulheres ao sofrerem violência, saem de casa e passam para as estatísticas do déficit habitacional ou mesmo permanecem em situação de violência e com suas vidas em risco pois não tem onde morar.
Assim, a própria crise econômica em que vivemos, intrínseca ao sistema capitalista, impõe as mulheres o desemprego ou empregos com baixos salários, sem moradia própria, tendo muitas vezes que cuidar de seus filhos ou parentes mais velhos, impondo a dependência econômica de seus agressores. E ao invés de resolver estes problemas, aumenta-se a violência, que se apresenta como solução para conter a revolta das trabalhadoras e trabalhadores, além das guerras como forma de resolver conflitos entre as potências imperialistas e saquear riquezas de países dependentes, como a recente invasão dos EUA a Venezuela com o sequestro do presidente do país e o roubo de toneladas de petróleo. Para sustentar seus interesses, a burguesia utiliza o discurso de ódio como forma de justificar a violência. O preconceito e a inferiorização daqueles que tem sido vítimas dos genocídios em Gaza, do povo negro nas periferias e das mulheres tem sido mais propagado.
Na sociedade capitalista, a felicidade é baseada na propriedade privada, nos bens materiais, e as mulheres são colocadas como propriedade do homem. É muito comum homens preferirem verem suas ex-companheiras mortas do que sem eles e sendo felizes, tudo isso é fruto da ideologia burguesa, de uma sociedade falida em que não dá perspectiva de vida para as mulheres em detrimento do lucro máximo para os ricos.
Essa ideologia em que coloca o corpo da mulher como propriedade é alimentada todos os dias nas televisões de todo o país com os comerciais de produtos, músicas, programas das emissoras, filmes, séries, entre outros. Colocar a mulher nesse lugar faz parte da estrutura do sistema econômico vigente e é lucrativo para o capitalismo, pois se “tudo bem” as mulheres serem assassinadas, também está “tudo bem” receberem menos, estarem nos piores postos de trabalho e terem dupla jornada de trabalho.
Os fatores que colocam a vida das mulheres em risco são causados pelas contradições do sistema que vivemos, em que as condições de vida dos trabalhadores e, principalmente, das trabalhadoras, piora cada dia mais, enquanto uma minoria fica cada vez mais rica. No capitalismo, os salários mais baixos das mulheres, o trabalho doméstico, de cuidado dos filhos e dos parentes mais velhos em que as mulheres são as principais responsáveis, a falta de moradia e os aluguéis caros e a falta de creche dão lucro.
Recai sobre a família o peso da sobrevivência, como afirma Alexandra Kollontai, ministra no primeiro Estado Socialista do mundo, em 1921: “na era da propriedade privada e do sistema econômico capitalista-burguês, a família e o casamento estão presos em (a) bases materiais e financeiras, (b) na dependência econômica do sexo feminino sob o ganha-pão da família – o marido – em vez do coletivo social, e (c) a necessidade de cuidado da crescente geração”. Conforme a crise avança e a luta pela sobrevivência fica mais difícil, a família também entra em crise e a violência doméstica aumenta.
Para Leia Ferreira de Andrade, uma das mulheres em situação de violência acolhidas na Casa da Mulher Trabalhadora Carolina Maria de Jesus, organizada pelo Movimento de Mulheres Olga Benario, para acabar com a situação de violência e feminicídios é preciso: “começar com a igualdade de ganhos e salários pra as mulheres, a questão da creche, da moradia digna, lavanderias comunitárias são políticas do socialismo para resolver a nossa vida”. Estes direitos só são assegurados numa sociedade que não seja voltada para o lucro de uma minoria, mas para atender a necessidade do povo, uma sociedade socialista.
Pois como relata Kollontai, na organização socialista vivida na Rússia: “há a transição para um único plano de produção e consumo socialmente coletivo, a família perde seu significado enquanto uma unidade econômica. As funções econômicas externas da família desaparecem, e o consumo deixa de ser organizado sob uma base individual familiar, uma rede de cozinhas sociais e cantinas é estabelecida, e o preparo, reparo, a lavagem das roupas e outros aspectos do trabalho doméstico são integrados na economia nacional”.
Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade