Ondina Seabra foi a primeira professora negra de Sorocaba. Com uma história de vida associada às lutas das mulheres e do povo negro da cidade, Ondina foi até o seu falecimento, aos 102 anos, apaixonada pela luta e pela vida.
Karla Albuquerque | Sorocaba (SP)
Mulheres – Filha de pai sapateiro, mãe empregada doméstica e irmã de três mulheres, Ondina Seabra foi incentivada pela sua mãe a estudar e tornou-se a primeira professora negra da cidade de Sorocaba.
Contrariando o sistema, Ondina dedicou mais de 30 anos da sua vida a lecionar na educação pública, realizando o sonho de poder alfabetizar a sua comunidade. Contra as estatísticas e batendo de frente com o machismo e o racismo decidiu transformar a vida em alegria e resistência.
Onda, como era chamada pelos colegas e amigos, foi responsável pela formação de milhares de jovens ao longo dos seus 38 anos dedicados à educação. Além de professora, também foi militante do movimento negro da cidade
Luta junto ao Movimento Negro
A frente negra de Sorocaba foi um coletivo formado em sua maioria por trabalhadores e trabalhadoras negras do bairro Vila Leão, bairro tradicional da cidade. A frente dedicava-se a transformar a vida das crianças negras da cidade levando educação, cultura e direitos básicos aos filhos das operárias e operários sorocabanos
Muito envolvida com as artes, Ondina dividia seu amor à luta com o amor à dança, sendo uma das poucas mulheres negras da cidade que frequentava o “Sorocaba Clube”, famoso pelos grandes bailes promovidos no centro da cidade. Apesar disso, Odina só podia dançar se fosse acompanhado de algum homem branco

Amor à vida e à luta
Em 2020, aos 99 anos Ondina relatou “Se a nova geração não lutar, nunca conquistarão um lugar melhor. Estamos acostumados a ver só os brancos nos melhores lugares da sociedade, por isso temos que lutar para garantir a igualdade. Temos capacidade, vontade de trabalhar, de vencer e de ser feliz. Todo mundo tem, não importa a cor. O preconceito existe e deve ser combatido, por isso devemos todos lutar”.
Ainda aos 99 anos Ondina disse o que esperava da vida: “Adoro a vida, tenho um carinho por ela. Às vezes acredito que ainda posso conquistar o mundo. Adoro acordar cedo, ler meu jornal, ouvir minhas músicas e falar com minhas amigas pelo telefone”.
Ondira faleceu aos 102 anos em 2024 dando exemplo de verdadeira lealdade a alegria de viver e de lutar para transformar este mundo.