No último dia 04/03 operários da Inylbra em Diadema paralisaram as atividades. Os trabalhadores denunciaram uma série de irregularidades, como calor extremo, falta de água e riscos para a segurança do trabalho. A ação fez parte da jornada nacional de lutas contra a escala 6 x 1
Lucas Barbosa | Diadema (SP)
TRABALHADOR UNIDO – A paralisação ocorreu em frente à portaria da fábrica têxtil na cidade de Diadema-SP, reunindo dezenas de operários da produção mobilizados por melhores condições de trabalho.
Uma trabalhadora da produção que não se identificou para evitar perseguição dos patrões, denunciou que somente na última semana, três funcionários desmaiaram na produção, em decorrência do calor excessivo da fábrica: “Na semana passada, três trabalhadores desmaiaram durante o trabalho, estava muito quente, não tem ventiladores suficientes, quase não dá para respirar de tanto calor”, afirmou.
A operária também relatou restrições para pausas e consumo de água. “Mesmo assim, a direção não deixa nem parar para tomar uma água fresca e quando vamos ao banheiro, muitos estão com a torneira sem funcionar, têm privada quebrada e falta tranca nas portas, um verdadeiro descaso com a gente”, declarou.
A falta de água potável e refrigerada próxima aos postos de trabalho foi uma das principais denúncias apresentadas durante a manifestação na Inylbra no último 04/03. As condições de trabalho configuram graves violações de direitos básicos relacionados à saúde e segurança no trabalho.
Os funcionários da empresa são responsáveis pela fabricação de tapetes e revestimentos agulhados destinados ao setor automotivo. Apesar de a empresa ser considerada uma das mais relevantes do segmento, as condições no ambiente de trabalho são insalubres. Muitos trabalhadores são afastados e a rotatividade cresce por decorrência da piora na saúde após o trabalho exaustivo.
O maquinário velho é outro problema que os operários enfrentam, eles explicam que muitas das máquinas da fábrica não passam por manutenção regular faz anos. Alguns trabalhadores chegaram a mostram queimaduras que tiveram durante o período que trabalham lá
Fim da escala 6 x 1 e reajuste salarial
A manifestação na Inylbra reforçou o debate nacional sobre o impacto na qualidade de vida dos trabalhadores quando reduzem a jornada de trabalho.
Atualmente cerca de 30 milhões de brasileiros trabalham na jornada semanal da escala 6×1, o que representa aproximadamente 30% dos trabalhadores formais do país, com jornada semanal de 44 horas. A maioria dos trabalhadores e trabalhadoras dessa escala são negros e negras, com baixa escolaridade, pois desde cedo são responsáveis pelo sustento da casa.
Além das condições estruturais, os operários reivindicam reajuste salarial. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que os trabalhadores brasileiros estão entre os que recebem os piores salários comparados a outros países.
Atualmente, o salário-mínimo corresponde a 22,82% do valor considerado necessário para cobrir as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas. Estudo divulgado no final de 2025 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) aponta que, para garantir despesas como alimentação, moradia, transporte, saúde e educação, o salário-mínimo ideal deveria ser de R$ 7.106,83.
Essa desigualdade é ainda maior quando observamos as condições de trabalho das mulheres, são elas que estão nos postos de menor remuneração. Segundo dados do IBGE, as mulheres brasileiras recebem, em média, 25% menos que os homens. Essa diferença duplica quando se trata de mulheres negras, chegando a 53% menos que os homens brancos.
Para impedir que esse cenário continue na fábrica Inylbra, a classe operária se organiza para continuar sua luta. Os trabalhadores explicam que já está em curso na organização fabril a formação da comissão operária independente de fábrica. Uma pauta central é a representação sindical, uma necessidade urgente para encaminhar e organizar a luta dos operários.
O intuito é reviver a organização operária na base, no chão de fábrica. Os primeiros passos já se iniciaram, as denúncias aumentaram nos setores, e os operários começaram a exigir mudanças imediatas. Os trabalhadores explicam que é necessário pausas e intervalos para o café, alguns minutos de descanso para a desintoxicação por conta da química da cola utilizada na produção. O contato excessivo com a cola, gera intoxicações e complicações para a saúde e a vida dos operários.
Fato é que o dia 04 de março representou uma virada na consciência dos trabalhadores e trabalhadoras da fábrica. Após uma semana da paralisação, os relatos feito aos brigadistas do Jornal A Verdade é que mudanças já começaram a ocorrer no interior da empresa.
Novas contratações estão sendo realizadas para ampliar o quadro de funcionários e diminuir a sobrecarga de trabalho. A jornada 6 x 2 tem sido cada vez mais debatida entre os trabalhadores, além disso foi registrado um aumento nas reclamações ao RH da empresa para garantir o dia de folga regular. A luta continua para garantir EPIs e segurança adequada no ambiente de trabalho, muitas vezes insalubre.

A luta é o caminho para mais vitórias
No Congresso Nacional, a PEC 8/2025, que prevê o fim da escala 6 x 1, segue em tramitação ainda sem uma data para votação no Plenário da Câmara dos Deputados.
Obviamente, toda essa manobra ainda depende da aprovação no Congresso. O que se sabe é que não se pode confiar no parlamento burguês para facilitar a vida do nosso povo.
Nesse cenário, os operários da Inylbra demonstram que o caminho para conquistar cada direito é a luta organizada, construir greves e mobilizações. A classe trabalhadora unida é capaz de pôr fim à escala 6×1 e reduzir a jornada de trabalho semanal.
Essa vitória certamente vai melhorar a vida de cada trabalhador e trabalhadora. O caminho da luta já é seguro na consciência dos operários e operárias.