A história ‘oficial’ esconde as inúmeras manifestações, greves e levantes populares dos trabalhadores brasileiros. Essa política de banimento é proposital. A ultima coisa que os poderosos querem é que seja cada vez mais espalhado que a origem da nossa classe operária foi nas lutas.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA- (Parte 3) – Nos primórdios da República a classe operária brasileira ainda estava em formação. Apesar de embrionária desenvolveu formas de organização de lutas contra a exploração e por melhores condições de trabalho e de vida. Militares ou civis governavam de forma autoritária e contra a maioria do povo na defesa dos interesses das oligarquias agrárias e da florescente burguesia industrial e bancária, o bloco dominante e associado ou dependente do capital estrangeiro. Entre a Proclamação e 1905 exerceram a presidência da República, na sequência: 1º Deodoro da Fonseca; 2º Floriano Peixoto; 3º Prudente de Morais; 4º Campos Sales e 5º Rodrigues Alves.
Companhias estrangeiras
Companhias estrangeiras detinham monopólios de concessões de serviços públicos de transporte, gás e energia desde o período Imperial. Desde tempos das ‘maxambombas” – bondes puxados à tração animal, iluminação elétrica e bico de gás: Botanical Garden Rail Road, Great Western. Da mão de obra escrava à assalariada com brutal exploração em jornadas de 14 e 16 horas, exploração de trabalho infantil e feminino.
A “modernização” do avanço capitalista expressa na industrialização e urbanização trazem novos desafios e contradições com maior definição do perfil da burguesa e do proletariado. A república oligárquica sucedia a Monarquia na modernização conservadora de manter privilégios de latifundiários e expandir a exploração capitalista nas cidades no desenvolvimento dos setores industriais, comerciais e bancários. Com a exploração e opressão análoga à escravidão sobre a maioria do povo. Com o Estado autocrático a serviço das classes dominantes.
As greves e movimentos populares são criminalizados. Reprimidos como “caso de polícia”. Mas houve intensa luta de classes na resistência e luta dos oprimidos, dos trabalhadores das cidades e do campo, soldados e marinheiros, massas populares descontentes e insurgentes, em todo Brasil. Conhecer a memória histórica das lutas operárias, estudá-las e acumular as lições da luta do nosso povo. Não apenas para enaltecer e se orgulhar dos verdadeiros heróis e heroínas do povo brasileiro, mas, sobretudo, a destacar as potencialidades de luta e de resistência desse povo, historicamente explorado e oprimido.
Greve dos Cocheiros do Rio de Janeiro- 1900
Os carroceiros e cocheiros autônomos sofriam perseguição dos fiscais de renda e da polícia. A burguesia associada às empresas estrangeiras monopolizava o serviço de transporte e nesse sentido procurava eliminar qualquer tipo de “concorrência”, por menor que fosse. A Câmara Municipal comprada pela burguesia aumentava taxas e limitava áreas de trânsito urbano das carroças e coches. A expansão dos bondes elétricos pelas grandes companhias agravou os problemas dos cocheiros e carroceiros independentes do Rio, na maioria, imigrantes portugueses e negros recém-libertados. Para autodefesa criaram a “União Beneficente dos Cocheiros”, para auxílio mútuo dos associados nos casos de doenças ou de mortes. O acirramento das contradições os fazem avançar às reivindicações classistas e desencadearem lutas. Realizam várias greves de 1870 a 1900. O Estado “republicano” reagiu às greves com extrema violência. A categoria de trabalhadores, em 1900 travou luta campal, fez barricadas, incendiou bondes e apedrejou sedes das empresas. A União Beneficente foi fechada e as lideranças aprisionadas.
Greve Geral do Rio de Janeiro- 1903
Considerada a primeira greve geral porque envolveu diversas categorias conjuntas em paralização dos trabalhos no Brasil, ocorre no Rio, 11 de agosto de 1903. Começa na Fábrica Cruzeiro, bairro do Andaraí e se espalha por outras fábricas, oficinas desse e outros bairros da cidade. Durante 26 dias cruzam os braços pela jornada de 8 horas de trabalho e fim dos maus tratos nas fábricas. A polícia da Capital trata os grevistas como criminosos baderneiros e abusa da violência. Na imprensa da burguesia, o Chefe de Polícia usou da “força legítima em defesa da propriedade e da ordem”.
Greve de Santos, São Paulo- 1905
A cidade portuária de Santos era chamada de “Barcelona Brasileira”. Pela forte presença de lideranças operárias combativas da cidade. O principal porto do país concentrava grande número de trabalhadores. Sob a liderança de anarquistas, sindicalistas e socialistas, fizeram greves importantes nos anos de 1900, 1904 e 1905. Destaque-se o papel da “Sociedade Internacional União Operária”. A maior greve -1905- paralisou diversas categorias além das docas, carroceiros, padeiros e barbeiros. Lutavam por condições dignas de trabalho e melhores salários. Essa paralização sincronizada afetou as exportações do café, principal riqueza comercial do Brasil. A questão virou nacional e o governo deslocou navios de guerra na intimidação dos grevistas, além das prisões e torturas arbitrárias “aos costumes”.
Operárias de Pernambuco- 1905
A “greve das cigarreiras” de 1905 em Recife é marco da luta operária feminina no Brasil. Inspirou mulheres e movimentos. Chamadas “cigarreiras” porque trabalhavam na indústria de cigarros e fumo da Fábrica Lafayette Moreira & Cia, no bairro de São José, Recife. As “cigarreiras” reivindicavam dignidade e respeito, não apenas melhores salários, segurança e higiene no trabalho, além do fim dos abusos sexuais dos mestres e contramestres. O movimento se alastrou para outras fábricas. Houve forte repressão policial, prisões e fechamento da “Associação dos Operários de Fumo”. A imprensa venal da burguesia demonstrava “espanto” com a greve, como algo inimaginável e ao mesmo tempo tentou deslegitimar e criminalizar essa greve icônica da luta das mulheres.
Levante dos Praças- 1905
A Fortaleza de Santa Cruz da Barra na baía da Guanabara funcionava como prisão e companhia militar. Nos dias 8 e 9 de novembro de 1905, os praças se insurgem contra os maus tratos e tomam a fortaleza. No levante morrem alguns graduados (um major, um tenente e um Sargento). Na repressão à rebelião não se contam as mortes dos “inferiores”, nem dos que morreram presos na fortaleza. Todos os praças – soldados e marinheiros- sobreviventes foram presos e excluídos das corporações.
Ou seja, a construção da nossa história nacional, apesar das tentativas da elite de esconder toda a participação dos operários e da classe trabalhadora, foi marcada pela luta organizada, enfrentamentos e muita contestação. E iremos continuar aprofundando nas lutas dos anos de 1905 até 1909. Assunto do próximo capítulo.