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quinta-feira, 23 de abril de 2026

“O papel da Igreja é acolher, não excluir”

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O jornal a verdade entrevistou Augusto Alves, militante da Unidade Popular em Pernambuco e membro da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, que há mais de vinte anos desenvolve um trabalho junto à toda comunidade. Na entrevista, Augusto fala um pouco da experiência desenvolvida com a igreja e como a fé é importante em nosso país.

Redação Pernambuco


ENTREVISTA- A Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, tem início na década de 1990, defendendo que a fé precisava estar onde o povo estava, realizando de lá até os dias de hoje um trabalho junto à comunidade, com o princípio de que a espiritual e o social deveriam andar juntos. Desenvolvendo um trabalho cultural e de educação junto aos moradores, a igreja se destacou por promover há mais de 30 anos um diálogo entre a comunidade cristã e temas como diversidade, direitos humanos, combate ao machismo e recebendo, sem nenhum tipo de preconceito, a comunidade LGBTI+. Ao defender que “servimos a Deus quando servimos ao próximo”, essa comunidade cristã faz um debate permanente sobre o verdadeiro evangelho de Cristo e o papel das igrejas na sociedade.

Jornal A Verdade- A Primeira Igreja Batista dos Bultrins tem uma proposta de evangelização diferente do que a gente está acostumado a ver. Ao mesmo tempo tem sido discutido a questão das chamadas igrejas inclusivas. Como é que vocês se definem enquanto comunidade?

Augusto Alves- Primeiro, a gente não usa esse termo. O termo ‘inclusivo’ é um termo que foi apropriado por igrejas que têm um dogma tradicional, porém aceitam pessoas LGBTs. Então, são igrejas que perpetuam preconceitos contra outras religiões, principalmente religiões de matriz africana. São igrejas que perpetuam visões machistas, visões dogmas que a gente não acredita. A gente acredita na palavra de Cristo. O que a gente crer muito é que Cristo veio para trazer um paradigma de carinho e amor, e principalmente aceitação. Ele veio dentro de uma época que pessoas que não faziam parte de um auto clero, pessoas que não faziam parte dessa elite, eram colocadas para escanteio, mulheres eram repudiadas, pessoas que não eram judias também, falando no traço da época dele, não eram consideradas salvas por Deus, e ele veio trazer esse paralelo.

Então a gente vê na passagem que Deus aceitou as mulheres, Deus caminhou ao lado de mulheres não na frente delas. Ele colocou mulheres para trazer a palavra dele para outras pessoas. As mulheres não podiam ser sacerdotisas, não podiam nem tocar nas pessoas quando estavam em épocas menstruais. Jesus nunca teve essa questão. E é por isso que a gente não gosta desse termo igreja inclusiva.

Tem muita gente que vai citar ou vai falar que nós somos uma igreja ‘antibíblica’. Tem muito esse tema, inclusive a gente sofre ataques nas redes sociais, dizendo que nós somos satanás, do demônio e etc. Porém, a gente lê o texto, e a gente vê que as passagens de Cristo, os momentos em vida de Cristo, em nenhum deles ele perpetua o que a igreja atualmente perpetua, que o dogmatismo. Quando Cristo está com sede, numa passagem bíblica, ele vai para uma mulher ‘gentil’, que era um povo que na visão do judeu não era um povo digno, justamente porque eles não eram judeus, Cristo se vira para ela e fala com ela. Veja, isso era proibido para a época, sabe? o termo inclusivo ser pejorativo, porque é um termo muito liberal que muitas pessoas utilizam para transformar a igreja em um negócio e o evangelho em uma mercadoria. Se é a igreja de cristo, tem que ser inclusiva em si. Não tem sentido nenhum ser igreja e não ser inclusiva, sabe?

Fala um pouco sobre a história da igreja, como vocês começaram, qual a visão de vocês e como vocês enxergam a postura dessas igrejas chamadas tradicionais.

 Bultrins foi uma igreja criada à margem. Na periferia. É uma igreja que veio para conectar a periferia às possibilidades do mundo. Então, é uma igreja que a gente tem um trabalho social muito forte, principalmente um trabalho de educação. E a gente continua mantendo essa visão de uma igreja inserida na periferia. A população LGBT está na periferia, o povo preto está na periferia da sociedade, o povo pobre está na periferia da sociedade. Então, a igreja de Bultrins, ela não mudou, ela sempre foi assim. A gente só incluiu quem quis ser incluído dentro da igreja, quem procurou a igreja. E esse é o papel da igreja: acolher. Não segregar, julgar, excluir.

Tem igrejas que se dizem “inclusivas” que perpetuam esses preconceitos. Bultrins defende a igreja do Jesus preto, pobre e periférico. Cristo nasceu em Jerusalém. Jerusalém era uma favela. Jerusalém era a periferia. Jesus saiu de lá e foi jogado para uma periferia ainda maior, quando ele foge com os pais para o Egito que era, na época, a periferia de Roma.

E quando ele retorna, ele retorna para uma região que tem uma série de preconceitos e uma série de problemas totalmente ligados, muitas vezes, à religião. É por isso que ele vai abraçar aquelas pessoas que eram excluídas daquela sociedade.

Existe um discurso muito forte de que o cristianismo e os movimentos sociais não combinam. Que crente não pode ser de esquerda, por exemplo. Como vocês enxergam essa posição de muitas denominações, muitas inclusive ligadas a bancada evangélica?

Eu já brinquei dizendo que Jesus teria entrado na UJR, porque ele começou a caminhada dele quando era jovem ainda. Eu acredito que a esquerda revolucionária brasileira não tem contradição com a fé. Agora, existe um certo preconceito com algumas coisas, alguns pontos principalmente. Um olhar, às vezes, de reprovação quando dizem que as pessoas evangélicas, por exemplo, reproduzem todos o mesmo discurso. E não é bem assim. Eu mesmo nunca sofri por ser evangélico dentro da Unidade Popular, por exemplo. Porque a UP surgiu na favela. Está dentro da periferia. E a maioria das pessoas da periferia tem fé. Não dá pra esquecer ou subestimar isso.

O que eu vejo muito é que a esquerda liberal tem essa contradição. Quando eu digo que sou crente e sou da esquerda revolucionária, tem gente que não gosta. Como se todo crente fosse de direita, reacionário. E não é isso que a gente encontra entre os nossos irmãos na periferia. O problema é que existem pessoas que fizeram da igreja um negócio. Mas a fé não é de um pastor. A fé é do povo. Então, o povo sempre teve fé. Mas existem esses falsos líderes que utilizam a fé com objetivos perversos.

Nesse debate sobre qual deve ser a relação entre os movimentos sociais e as igrejas mais comprometidas com o evangelho, qual deve ser a posição da esquerda em sua opinião?

 E eu acredito que nada disso se contradiz. Ter fé e exercer uma militância política. O que se contradiz é eu não acreditar porque o outro me disse para não acreditar. Aí isso para mim é contradição. Eu nunca ouvi dentro da militância alguém me dizendo para deixar de lado a minha fé. Eu vejo que é um erro muito grande parte dessa esquerda mais liberal ficar atacando quem tem fé, sabe? Seja qualquer tipo de fé que a pessoa professa. Contradição é isso: dizer que defende o povo, mas ataca a sua fé. A igreja enquanto instituição pode sim ser criticada.

Por exemplo, eu tenho todo o direito de criticar um Silas Malafaia da vida. Eu discordo com a posição da Universal, por exemplo. Ali nós temos pessoas que são enganadas. Agora, as pessoas precisam de formação, de instrução, precisam ler a própria bíblia para entender que Cristo não é o que o pastor dela diz. Amar a Deus acima de tudo e amar ao próximo. Se você não está seguindo isso, se não entende a profundidade desse entendimento, você está longe daquilo que Jesus ensinou.

É preciso essa formação. E eu vejo que o jornal A Verdade faz muito isso. Outro bom exemplo é o do MLB. É preciso formar as pessoas. Educar. Formada, a pessoa vai questionar o que o pastor dela está falando ali na igreja.

O profeta Oséias fala que ‘o povo sofre por falta de conhecimento’. Fidel, no livro “Fidel e a Religião” fala sobre a relação que os marxistas devem ter os cristãos autênticos. Também temos o exemplo de nomes como o Padre Júlio Lancellotti, o próprio Camilo Torres e pastores aqui no Brasil como Fillipe Gibran que são exemplos de fé e ação. Como a gente pode dialogar com essas vozes, especialmente quando se fala em ocupar todos os espaços?

Então, quando eu falo em ocupar os espaços, a gente faz por meio da luta. Por meio da luta e da educação, através do conhecimento é possível mudar a realidade. É o famoso ‘mente e coração’, que a gente fala. A gente aceitar a fé da pessoa e através da mente, através do conhecimento mudar a perspectiva da pessoa sobre o mundo. A partir do conhecimento a pessoa muda de opinião. Hoje nós temos lá em Bultrins irmãs de 60, 70 anos, aquela figura que a gente conhece como ‘a irmã do coque na cabeça’, aquelas senhorinhas, sabe, que quando escutam alguém falar alguma besteira, elas são as primeiras a repreender. As primeiras a questionar. E esse é um exemplo de transformação que o evangelho promove.

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