Longa-metragem dirigido por Allen Jerônimo mescla ficção e realidade ao abordar a pressão do mercado imobiliário sobre a comunidade pesqueira de Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife.
João Montenegro- Redação PE
CULTURA- O Cinema São Luiz, no Recife, recebeu no último dia 20 de dezembro a estreia de Jaboatão, o Homem e o Mar. A exibição, seguida de debate com os realizadores, marcou o lançamento de um dos primeiros longas-metragens de ficção produzidos em Jaboatão dos Guararapes, marco importante na cinematografia da cidade. Com direção de Allen Jerônimo (Rede de Arrasto, 2022) e financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o filme pauta a disputa territorial entre comunidades tradicionais e o avanço da especulação imobiliária na região.
A trama acompanha a trajetória de um pescador, interpretado por Romero José, que enfrenta a ameaça de perder seu meio de trabalho e moradia em Barra de Jangada devido às pressões de um empresário local e do setor da construção civil. A direção aposta no realismo: Romero, que assume o papel de protagonista, é um pescador na vida real, assim como Maria Daguia “Gracinha”, que interpreta sua mãe — ambos moradores da região e conhecedores da dinâmica local. Gracinha já havia colaborado com o diretor como protagonista do documentário Rede de Arrasto.
A produção, que foi rodada quase inteiramente em Jaboatão, valoriza artistas locais e conta com participações especiais de nomes conhecidos da cultura pernambucana, como Gilmar Bolla 8, Mestre Liu e Roger Renor. O elenco de apoio reúne Ivo Barreto, Lara Mano, Raphael Bernardo, Leandro Carvalho, Erivaldo Baiano, José Patrício, Gila Ferraz, Maria Izidoro, Joana D’Ark, Zyon Moraes, Sérgio Antônio, Ruana Paula, Allan Sales, Tadeu Filho, Roberto Vasconcellos, Aramis Trindade, Pai Antônio e Jota Barreto.
A equipe técnica traz Cassiano Henrique na direção de fotografia e Wesley Thomas na edição.
O Cinema e a realidade local
O roteiro dialoga diretamente com a situação atual da Associação dos Pescadores de Barra de Jangada, na foz do Rio Jaboatão. Em entrevista ao Jornal A Verdade, Allen contextualizou que o filme reflete um problema que ultrapassa as fronteiras do município. “É uma realidade do Brasil e do mundo. A especulação está cada vez mais desenfreada e quem sofre os impactos diretos são as comunidades de baixa renda”, afirmou.
Segundo o diretor, a Associação enfrenta um vácuo de liderança e um perigoso processo judicial que pode culminar na expulsão da comunidade para dar lugar a resorts e empreendimentos de luxo. A truculência do capital já se faz presente fisicamente: “Hoje está instalado um contêiner com segurança [privada] no local, só aguardando esse lance judicial encerrar porque, a qualquer momento, aquela associação pode sumir”, alertou Allen.
Para o cineasta, a obra audiovisual cumpre o papel de dar visibilidade ao conflito e gerar empatia, mas ele ressalta a necessidade de mobilização popular. “Não será apenas através da arte que a situação vai mudar. É fundamental que a população abrace a causa”, concluiu Allen durante o lançamento.
Jaboatão, o Homem e o Mar prova que o cinema da cidade está em crescimento, servindo como amplificador para as vozes que o poder da classe dominante tenta, a todo custo, silenciar.