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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

No sexto dia de ocupação, povos indígenas resistem no porto da Cargill em defesa do Tapajós

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Manifestação dos povos indígenas do Baixo Tapajós, em Santarém, Pará, ocupa a sede da Cargill contra projeto que ameaça o meio ambiente e toda vida local

Denily Fonseca- Pará


LUTA POPULAR- Povos indígenas do Baixo Tapajós seguem, nesta semana, no sexto dia de ocupação em frente ao terminal portuário da multinacional Cargill, em Santarém, no oeste do Pará. A ação é parte da resistência organizada contra o projeto de dragagem e concessão da hidrovia do rio Tapajós, imposto pelo governo federal sem consulta às comunidades indígenas e tradicionais que vivem e dependem do rio.

A ocupação denuncia o avanço de um modelo de desenvolvimento que subordina a Amazônia aos interesses do agronegócio exportador, transformando rios, florestas e territórios em infraestrutura para o lucro das grandes empresas. Para os povos indígenas, a dragagem do Tapajós não é uma obra isolada, mas parte de um projeto político que aprofunda a destruição ambiental, ameaça modos de vida ancestrais e viola direitos garantidos em lei.

O projeto prevê a dragagem de um trecho estratégico do rio entre Santarém e Itaituba, com investimento estimado em R$ 74,8 milhões e contrato de longo prazo. A intervenção atende diretamente às demandas das empresas que operam na logística de exportação de commodities, como a própria Cargill, enquanto ignora os impactos sobre a pesca, a segurança alimentar, as áreas de uso tradicional e os territórios sagrados dos povos do Tapajós.

Segundo as lideranças, ao menos 13 povos indígenas participam da ocupação. A presença contínua no porto da Cargill expressa a disposição de resistir e de enfrentar um modelo que historicamente expulsa comunidades, intensifica conflitos e concentra riqueza nas mãos de poucos. A luta no porto é também uma afirmação do direito dos povos indígenas de decidir sobre seus territórios e sobre o futuro do rio que sustenta suas vidas.

Além da dragagem, os povos denunciam o avanço da especulação imobiliária, a expansão de grandes empreendimentos e a pressão crescente sobre as comunidades, processos que caminham junto com a instalação de portos privados e grandes obras de infraestrutura. Para os indígenas, a Cargill simboliza a presença do capital internacional no coração da Amazônia, operando com o apoio do Estado e à custa da destruição dos territórios.

A mobilização também denuncia a violação do direito à consulta livre, prévia e informada, garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O projeto foi anunciado e levado adiante sem diálogo com as comunidades diretamente afetadas, repetindo uma prática histórica de imposição de grandes obras sobre os povos indígenas e tradicionais.

Governo federal indo na contramão 

A resistência no Tapajós ocorre em meio às contradições do governo federal. Durante a COP30, o governo assumiu compromissos públicos de diálogo com os povos indígenas após protestos que expuseram o distanciamento entre o discurso ambiental adotado internacionalmente e a realidade vivida na Amazônia. Apesar disso, em dezembro de 2025, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) publicou edital para a dragagem de manutenção do rio Tapajós por até cinco anos, mesmo com estudos ambientais pendentes.

O Ministério Público Federal tentou suspender a licitação, mas a Justiça Federal de Santarém autorizou o prosseguimento do processo. Organizações indígenas e populares denunciam que existe apenas uma autorização ambiental emergencial e temporária, o que não legitima contratos de longo prazo nem a ampliação das intervenções no leito do rio.

No sexto dia de ocupação, os povos indígenas do Baixo Tapajós reafirmam que a luta em Santarém é parte de um enfrentamento maior contra o saque da Amazônia e contra a submissão dos territórios aos interesses do agronegócio e das grandes corporações. A resistência no porto da Cargill expressa a defesa do rio, da vida e do direito dos povos indígenas de existir e decidir sobre seus próprios destinos.

A mobilização segue como um chamado à solidariedade dos movimentos populares, das organizações sociais e de todos que defendem a Amazônia e os povos que nela vivem.

 

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