Continuamos com a série “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”, aprofundando o debate sobre a memória das lutas passadas e os enfrentamentos dos oprimidos contras as elites. É um olhar para o passado do país sob a ótica do materialismo histórico e a luta de classes.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA- (Parte 2)- A historiografia dominante aponta ordinariamente três fatores causais da perda de sustentação política e do consequente final do longo reinado de D. Pedro II, na Proclamação da República em 1889: fazendeiros, igreja católica e militares. Descontentes, cria-se uma oposição no seio do bloco dominante. Vamos aos fatos.
Dívida externa e farra com dinheiro público
No colapso econômico da crise do pacto colonial que levou à independência do Brasil em 1822, as classes dominantes da nova nação assumiram a fabulosa dívida da Metrópole Portugal com os bancos ingleses. Assim, a Inglaterra, maior potência do século XIX, avalizou a Independência brasileira. Londres assumia na prática a condição de nova metrópole do emergente “Império do Brasil” recém independente, porém, endividado.
Os banqueiros da Casa Rothschild investiam milhões de libras e lucravam no “mercado brasileiro”. Controlavam as empresas estratégicas de transportes ferroviários, marítimos, energéticos e outros serviços. A Corte perdulária e parasitária juntamente com a família limava a Fazenda Imperial que recorria aos banqueiros das “nações amigas”. A dívida crescia, mormente com gastos de guerra do Paraguai, do “genocídio Americano” como chama Eduardo Galeano. Guerra da Tríplice Aliança, Argentina, Brasil e Uruguai na destruição do Paraguai.
Após a Guerra do Paraguai o contingente Militar Imperial ocioso e numeroso esmerilava a Fazenda. Não bastasse o rombo, a casta de espada queria “reconhecimento”, leia-se, vantagens, patentes e melhores soldos. Modificados pelo espírito de corpo desenvolvido na guerra. As manifestações de insatisfação e insubordinação se tornaram públicas na imprensa, dirigidas ao “gabinete civil” de Ouro Preto e por extensão ao Imperador, numa clara quebra de hierarquia vez que a eles eram subordinados.
“Fé Cega, Faca amolada”
A chamada “questão religiosa” decorreu de contradições de autoridades – a quem se devia vassalagem e fidelidade, ao Estado Imperial ou à Igreja Católica. A Constituição de 1824 determinava a religião católica oficial e pelo regime do padroado a igreja subordinava-se ao “beneplácito” do Imperador. Arranjo político de troca de favores e compensações materiais e privilégios. Sucedeu que em 1864 o Papa Pio IX publicou a Bula “Syllabus Errorum” proibindo a maçonaria na igreja. E o Conselho Imperial de Pedro II era quase uma loja maçônica. Pedro II negou o beneplácito à Bula papal. Alguns bispos decidiram seguir a ordem Papal, perseguiram e excomungaram os maçons. A tensão igreja e estado eleva-se.
Fazendeiros escravocratas
Mas a questão da dissidência dos cafeicultores deve-se a libertação dos escravos em 1888. Os escravagistas tinham os escravos como propriedade e exigiam a indenização pela perda da “propriedade”. Registre-se que os negros escravizados não receberam indenizações pelos séculos de trabalho forçado. Nem compensações com glebas de terras para cultivar. A classe escravocrata não desistiu da indenização inclusive depois da proclamação da República. Não foram pagos porque houve a queima e destruição dos arquivos com os registros de compra e venda à ordem do ministro da fazenda da República. Rui Barbosa, em 1891 nessa queima de arquivos resolveu o problema da Fazenda e criou dificuldades documentais da história da escravidão no Brasil.
Crise capitalista
O capitalismo no final do século XIX conhece a primeira grande depressão econômica mundial. E mais ainda, a economia brasileira, dependente e agraria. Produção fundamentalmente voltada ao mercado externo comprador de produtos primários brasileiros: açúcar, café, algodão, couro, minérios e outros. A crise agravou e adquiriu feições dramáticas com a seca no Nordeste brasileiro.
Nas crises, as contradições do bloco dominante geram disputas e tensões pois nos andares superiores ninguém quer perder. Aparecem demandas frustradas e dissenções, nas oligarquias agrárias, castas militares e clero católico. Enfraquecem a base política de sustentação da monarquia. Abrem caminho da “via prussiana” do golpe republicano pelo alto. Sem participação popular. Nas palavras do jornalista Aristides Lobo “o povo assistia bestificado ao desfile da tropa no Campo de Marte”. O Marechal Deodoro da Fonseca, liderou a tropa na deposição do Gabinete Ouro Preto. De uma tacada caía o gabinete e própria monarquia implantando-se a república.
Na busca de legitimação os golpistas vencedores criaram a narrativa de que a República era anseio nacional. Mas os republicanos eram inexpressivos, intelectuais e militares, alguns representantes das “classes produtoras”. Na versão fantasiada os militares expressaram o desejo nacional e levados pelos altos ideias do positivismo da “ordem e progresso” fundaram a República Federativa movidos por sentimentos libertários idênticos dos federalistas dos Estados Unidos.
Com essa pílula dourada explicam a dissidência oligárquica e a formação do Partido Republicano. Uma ova! A elite escravista nunca foi republicana. Nem antes, nem depois da Proclamação da República. Defendiam interesses classistas, ou montavam no cavalo selado que passava na porta como o próprio Marechal Deodoro, monarquista até às vésperas, que acordou republicano para liderar o golpe. Assim o fundador da República foi um Marechal do Império, comensal e amigo do Imperador, íntimo dos banquetes e festins da Casa Real. Levantou da cama para desfilar com a tropa e tornar o primeiro Presidente da “República” com o golpe do 15 de novembro de 1889.
Canudos: organização e resistência popular
Desde as Capitanias Hereditárias e ocupação territorial do Brasil na exploração colonial a produção econômica agrária se faz com base em latifúndios e exploração de mão-de-obra – indígena, escrava e “livre” nas precárias condições análogas à escravidão. 1% dos latifundiários concentra 47% das terras agrícolas. A exploração das riquezas do solo, o extrativismo predador, a devastação das florestas, grilagem e usurpação de terras mudam as técnicas e conservam os objetivos essenciais. Grandes propriedades em poucas mãos, muitas mãos trabalhadoras, sem terras. A epopeia da luta camponesa de Canudos é a história da luta de classes do passado e do presente.
Monarquia ou República, toda superestrutura, leis, juízes, tribunais, policias, igreja, imprensa e Estado expressavam, essencialmente, os interesses das classes proprietárias dos meios de produção e controladoras da circulação de mercadorias, da oligarquia, burguesia abastada, banqueiros, latifundiários, comerciantes, industriais e altos serviçais apaniguados. O Estado e todo seu aparato repressivo e ideológico a serviço desses exploradores contra a maioria do povo brasileiro, explorado.
Para pobres das cidades e campos o Estado é o comitê dos negócios da burguesia, o martelo repressor pesado do aparato policial-militar ao longo de toda história. Canudos é exemplo icônico.
Os primeiros assentamentos das terras da fazenda Belo Monte depois conhecido como Arraial de Canudos ocorrem em 1893. No extremo Norte da Bahia, proximidades do rio Vaza-Barris. A comunidade ali formada chegou a contar mais de 20 mil pessoas. Autogerida. Sem patrões, coronéis ou capitães-do-mato. Ajuntamento de pobres do campo, desterrados.
A imprensa burguesa a eles se referiam como “místicos fanáticos”, “jagunços ameaçadores”, apóstatas, etc. Por que a comunidade de Canudos atraía milhares de famílias pobres? O projeto social místico-religioso do Antônio Conselheiro arrastava multidões nas peregrinações, pelo Sertão. Tocava nas necessidades objetivas imediatas, na alternativa real de superação à precariedade da vida. Alento de esperança. No que tenha o prosélito do Conselheiro de misticismo, ele expressava a luta de classes de camponeses pobres contra ricos fazendeiros e o estado burguês. E enfrentou heroicamente, de forma épica, uma guerra desigual contra os inimigos do povo.
Canudos estabeleceu uma sociedade comunal baseada no trabalho social e produziu além da subsistência. Comercializou excedentes. Proibia-se o uso de bebidas alcóolicas. Infratores e criminosos com raros registros, eram banidos da comunidade. Nos costumes a liberdade sexual para casar e descasar, livremente. No uso e fruição da propriedade pelos próprios produtores, sem a intermediação dos mercadores ou a exploração dos patrões, sem os chicotes dos coronéis. Um exemplo de vida comunal que não podia subsistir no sistema de dominação burguês.
A quem servia as doutrinas religiosas?
A “religiosidade” das classes dominantes pregava o conformismo. “Deus sabe o que faz, dá o frio, conforme o cobertor”, “o Imperador é rei pela Sua Graça de Deus”. A felicidade dos pobres ficava para depois da morte, do Juízo Final, na vida eterna do reino do Céu.
O proselitismo místico do Conselheiro mesclava catolicismo primitivo com messianismo. Dizia que a seca e a fome são coisas do Diabo. A salvação do povo de Deus passava pela derrota do Diabo. Os filhos de Deus deviam buscar a felicidade e fartura nesta Terra criada por Ele na Terra da Promessa (Canudos) onde o Sertão seco se alegraria. “O Sertão vai virar mar”.
Essa religiosidade sincrética dos sertanejos expressava o nível e a “forma da consciência” histórica das massas camponesas. E refletia as contradições e luta de classes, na contraposição ao “status quo”. Antônio Conselheiro, místico, profeta, asceta, fanático o que seja, encarnou o papel de mensageiro de Deus na guerra contra o Diabo que matava os camponeses pobres de fome na seca. Nessa leitura teológica organizou uma cultura religiosa distinta, voltada para as massas camponesas, para a satisfação espiritual e material de suas necessidades.
O Conselheiro pregava que todas as privações e intempéries – secas, fome vinham da parte do Satanás. E clamava ao povo sofrido a buscar salvação numa terra onde pudessem plantar, colher e orar, enfim, contrariar e derrotar o Demônio. A doutrina, embora primária era acolhida pelos romeiros e “flagelados” e ganhavam força social como crítica na prática quando desafia o “status quo” dominante e se estabelece na realidade em Canudos, abrindo caminho de esperança e de mudança para milhares de miseráveis da seca.
Tal teologia foi duramente atacada. Bastante prejudicial para os interesses do “bloco dominante” – clero e fazendeiros. Os latifundiários viam escassear a mão-de-obra camponesa que afluía ao arruado de Canudos. O clero oficial papista porque via o seu rebanho encolher.
“A matadeira vem chegando” . . .
Entre 1897 e 1897 o Arraial de Canudos foi atacado, bombardeado, incendiado e devastado pelo Exército. Contrariava interesses de ricos fazendeiros e do clero e por isso foi destruída. Não foi dizimada pela simples razão de reunir sertanejos místicos e fanáticos nos grotões do Nordeste, liderados por um asceta messiânico e sem juízo. Esta é a versão conveniente das classes dominantes.
Milhares de pobres camponeses se apossaram de terras abandonadas e tocavam a vida com liberdade, produziam e prosperavam. Essa era a ameaça para os poderosos exploradores e opressores do povo. Devia ser destruída.
Os habitantes de Canudos lutaram bravamente, mulheres e crianças, na épica resistência de camponeses com suas armas precárias que enfrentaram cinco ataques do Exército brasileiro. Venceu 4 tentativas de invasão, impondo retiradas humilhantes ao Exército. Apesar da superioridade de treinamento e armas, os sertanejos venceram pela convicção firme de quem luta pelo direito à vida e à liberdade.
A cidade – maior que algumas capitais da época- foi devastada, incendiada na quarta e última campanha militar que mobilizou 20 mil soldados do RJ, PE, RN, SP, BH, CE, MA, PA, RS, PI, 20 batalhões sob comando de 4 Generais com seus Estados Maiores. A Cartago Sertaneja é destruída em 1897 e dela restaram os escombros, cinzas e o sangue do povo. Milhares de mortos nas ruas e casas. A grande façanha do Exército brasileiro com seus canhões e metralhadoras contra o povo. Mereciam a denominação de “centuriões do Inferno” dada pelas suas vítimas.
Neste genocídio que a historiografia oficial chama de “Guerra de Canudos” estima-se 25 mil mortes, 5 mil militares: “Os homens mortos, os feridos, são executados na ordem de não fazer prisioneiros. As mulheres e as crianças são sequestradas como esbulhos de guerra e distribuídos entre os saqueadores: “[…] jaguncinhas de belos cabelos loiros e olhos azuis, levadas pelos oficiais” publicou o Jornal de Notícias do estado de São Paulo do qual Euclides da Cunha, do livro Os Sertões, foi o correspondente de “guerra”. A “heroica página militar”, tão propagada mentira histórica, junta-se com outras ao longo de nossa história. Igual as outras, foi escrita com sangue.