O Jornal A Verdade entrevistou Hans Lisboa, membro do Comitê Pernambucano de Solidariedade com Cuba e apoiador das brigadas de solidariedade com o país caribenho. Hans esteve em Cuba em 11 ocasiões diferentes e, nessa entrevista, fala sobre as suas impressões sobre a ilha e as mobilizações que tem sido realizadas em todo o Brasil para denunciar as atuais ameaças dos EUA, que é culpado diretamente pela atual crise energética que enfrentam os cubanos.
Clóvis Maia | Redação Pernambuco
ENTREVISTA – As recentes ameaças promovidas pelo governo fascista de Donald Trump contra Cuba representam um dos momentos mais delicados na história do país socialista. A crise energética foi agravada ainda mais pelo bloqueio econômico que já dura mais de 60 anos. Hans Lisboa é membro do Comitê Pernambucano de Solidariedade com Cuba e participa das brigadas de solidariedade com Cuba. Para o jornal A Verdade ele fala um pouco dessa experiência de solidariedade e da urgência de denunciar a política do Estado americano contra o país caribenho.
Jornal A Verdade – Quando se fala de Cuba, geralmente fala-se mal. A propaganda contra o país é terrível. O que te motivou ir até a ilha e como foi tua primeira impressão ao chegar lá?
Hans Lisboa – Eu fui 11 vezes a Cuba. Na primeira vez eu tinha apenas 20 anos. Cuba passava por um momento muito bom, antes do chamado “período especial”. E o que me instigava a ir a Cuba foi justamente por ser um país diferenciado de todos os países aqui da América Latina. Claro que vivemos algumas experiências boas com Allende, no Chile, o Árbenz¹ na Guatemala, mas a história viva de um país socialista, verdadeiramente socialista, era Cuba. Isso me instigou a querer conhecer um pouco mais dessa realidade.
A primeira vez que estive lá, início dos anos 80, Cuba passava por um momento muito bom, ainda em plena vigência da União Soviética. Lá eu vi uma Cuba que era uma que eu gostaria que existisse até hoje. O país produzindo tudo, o sistema de transporte fluindo bem. Eu lembro que peguei trem para ir ao interior de Cuba, tudo funcionava a contento na época, foi maravilhoso. Passei 10 dias lá nessa primeira visita, inclusive no Hotel Copacabana, em Havana, que anos mais tarde sofreria um atentado promovido pelos grupos anticastristas, onde houve até a morte de um turista italiano.
Eu posso dizer que me apaixonei por Cuba. Jurei amor eterno. Na segunda vez que eu fui, a ilha já passava por um momento mais delicado. Foram duas viagens que eu fiz durante o chamado ‘Período especial’, de 90 a 2000. Nessas duas viagens eu vi uma outra realidade de Cuba, especialmente com o fim da União Soviética, o fim do subsídio ao país, a troca de açúcar por mantimentos entre os dois países, tudo isso tinha ruído. E Cuba precisou sobreviver como podia na época, além de passar por muita dificuldade. O país tinha que se adaptar à nova realidade.
Quer dizer, o bloqueio econômico é um inimigo feroz dos cubanos. Não é de hoje. Como eles faziam para enfrentar essas dificuldades, especialmente depois do fim da União Soviética?
Nesse período aí eu pude ver o quão o povo cubano é resiliente. Era muito difícil sobreviver naqueles tempos. Eu acho que um fator que fez com que as pessoas ainda acreditassem no país naquele período, isso por volta dos anos 2000, mais ou menos, eu pude notar duas coisas: Primeiro os ensinamentos que a revolução tinha passado para o seu povo. As pessoas viam que tinham que defender a Revolução. Era verdadeiramente pátria ou morte. As pessoas entendiam que não dava para voltar ao capitalismo. Se voltasse ao capitalismo, voltava toda aquela realidade anterior à Revolução. E um outro fator que impulsionou era Fidel Castro. Fidel Castro, como a maior liderança de Cuba, transmitia muita confiança, dava muita segurança para os cubanos naquela época. Então, era muito comum encontrar as pessoas fazendo a defesa de Fidel naquele tempo.
Mesmo com todas as dificuldades, ninguém esmorecia, e todos, era quase unanimidade, defendia a necessidade de manter o projeto da revolução. Evidentemente que o cubano, em algum momento, falava mal da situação, reclamava, ficava preocupado com o dia a dia, como é comum das pessoas. Mas, voltar para o sistema capitalista? A maioria dos cubanos não queriam de maneira nenhuma. E eram taxativos. ‘Melhoras as coisas? Sim. A gente tem que fazer a crítica para que as coisas melhorem, mas, voltar ao que era antes? Isso nunca!” era esse o sentimento que a gente sempre ouvia nas ruas.
Quando se fala de Cuba a imprensa só fala de pobreza, de miséria, esse papo batido da mídia hegemônica. Nesse conflito atual praticamente não se fala em nenhum veículo de comunicação sobre o bloqueio econômico, que dura mais de seis décadas. Essa nova ofensiva de Trump está agravando ainda mais a situação do bloqueio, sobretudo após a pandemia de covid. Como é que você enxerga essa manutenção do discurso anti-cuba e o agravamento dessa crise humanitária por lá?
Como eu disse, a situação de Cuba era muito boa. Com o fim da União Soviética acabaram aquelas trocas entre os países e Cuba teve que se adaptar à nova realidade. Foi aí que veio a questão do turismo, com a permissão de que algumas empresas estrangeiras instalassem seus hotéis em Cuba. Aí o país voltou a respirar. Foi um momento bom. Parecia que a partir daí a mídia iria, como se diz, maneirar mais na propaganda contra a ilha. Mas aí é que tá: o problema de Cuba é o bloqueio que o país vive, não o seu regime. E é isso que não querem que os povos mais humildes saibam. A mídia pensava que o socialismo iria acabar depois da morte de Fidel ou que o povo de lá é refém de seu governo. Essa é a ideia que a mídia tenta passar para a gente. Mas o que se vê em Cuba É uma coisa assim que transcende essa mentira.
Mesmo no ‘período especial’ eu tive a oportunidade de ir lá duas vezes, e não se via ninguém na rua, por exemplo, ninguém pedindo esmola, ninguém passando necessidades. Hoje, infelizmente, estive ano passado lá, e pude encontrar alguns pedintes, ver mais dificuldades, especialmente pela continuidade do bloqueio e pela pandemia que passamos, na qual Cuba enfrentou sozinha e corajosamente. No início dos anos 2000 ou na década de 90 isso era uma coisa que eu não vi. No início dos anos 2000, por exemplo, as pessoas nem dependiam mais da Libreta, aquela caderneta que marcava os produtos que as famílias recebiam.
Agora, mesmo com as dificuldades, em todo tempo sempre vi todo mundo na escola, todo mundo alfabetizado, as crianças em escolas e creches integrais, praticamente nenhuma violência no país inteiro, segurança, energia e água gratuitos. Isso a mídia nunca mostrou. E os turistas veem isso lá. E voltam para seus países fazendo essa propaganda, desmentindo as mentiras do imperialismo.
Você falou do “período especial”. E você pode observar o país em vários momentos distintos. A situação atual de Cuba é a mais delicada na história da ilha?
O período especial foi porque Cuba fazia trocas com a União Soviética. Vendia açúcar para a União Soviética e para os países do bloco socialista. Além do açúcar, vendia rum, outros produtos minerais como o níquel, o cobalto e mais alguns. Em contrapartida Cuba recebia petróleo da União Soviética e todo o suporte para a implementação das cooperativas em Cuba para do transporte, recebia trens da União Soviética, do Leste Europeu como um todo, então isso ajudava muito para a economia cubana. Tudo isso deixou de existir quando os países voltaram a ser capitalistas. Voltaram para Cuba essa visão do capitalismo selvagem.
Então, como o bloqueio persiste até hoje, não permitem que Cuba faça negócios utilizando o sistema SWIFT, por exemplo, obrigando o uso do dólar em espécie. Nessa época os cubanos tiveram que de readaptar para poder sobreviver. Com o sequestro de Maduro, realmente a situação escalonou de uma forma muito terrível. Se eu for comparar com o período especial, acredito que hoje seja bem pior.
Esse apoio que a Venezuela dispensava para Cuba e que foi cortada após o sequestro de Maduro ficou mais escancarada quando o Trump afirmou que deseja invadir a ilha. Mas em janeiro desse ano Trump declarou emergência nacional contra a ilha, classificando Cuba como um país terrorista. Essa não é só uma ameaça, como estamos vendo no caso do Irã, né?
Eu enxergo com muita preocupação esse momento, porque essas ações tresloucadas do presidente americano, de sequestro de um presidente da república, de tentativa de tomada de poder no Irã, e avisos constantes de que vai invadir Cuba tem que nos preocupar. Ninguém sabe o que pode sair da cabeça daquele maluco lá. Muita gente não sabe, mas Cuba só produz 40% do petróleo que necessita. Então precisa de outros 60%. Os painéis solares e toda a solidariedade que o mundo tem demonstrado com Cuba tem ajudado, mas com esses sucessivos apagões, evidentemente que a economia sofre bastante.
Eu vejo que a possibilidade de invasão à ilha, ou um possível sequestro do presidente Miguel Díaz-Canel, é muito difícil. Não que o Trump não possa fazer, não é isso. Mas eu não vejo que ele vai conseguir implementar isso sem haver resistência, primeiro pelos ideais cubanos, que estão enraizados no povo. O inconsciente coletivo, nessa hora, fala mais alto. Segundo, as forças armadas cubanas são muito, muito bem treinadas. Evidentemente que, se for comparar a força bélica dos Estados Unidos com a de Cuba, a dos EUA é infinitamente superior. Mas eu vejo aí uma guerra de guerrilha dentro de Cuba, onde muitos americanos iriam ter que voltar para suas casas dentro de um caixão. E será que a opinião pública americana iria querer assistir um novo Vietnã? Mas, como eu disse, se tratando desse fascista que está na presidência hoje, tudo é possível. Ainda mais agora que ele precisa desesperadamente de apoio interno para vencer as eleições que se avizinham. Se ele não conseguir maioria, pode até ser impichado.
Por último, apesar das dificuldades, temos visto que a solidariedade com Cuba se mantém e tem crescido. Fala um pouco de como tu enxerga essas movimentações de solidariedade e tua experiencia com as brigadas solidárias ao longo desses anos.
Olha eu participo de um grupo nacional de solidariedade a Cuba, voltados para as brigadas. A cada dois anos há um encontro nacional de solidariedade, pessoas ligadas ao Centro Cultural José Martí, os comitês regionais de solidariedade como o daqui de Pernambuco. Apraz muito conhecer essas pessoas e ver como que eles se dedicam à causa cubana. Tudo por conta da solidariedade que Cuba presta não só ao Brasil como ao mundo. Vejo sempre com bons olhos, a disposição dos companheiros Brasil afora em sair em defesa de Cuba. Isso é que nos dá esperança de que cuba vai sair dessa situação, inclusive é importante também a pressão que acontece todos os anos na ONU pelo fim do bloqueio. A resolução é unânime. Tirando os países de sempre, Estados Unidos e Israel, a maioria vota favoravelmente ao fim do bloqueio, então com todas essas ações de solidariedade a Cuba feitas no Brasil e no mundo Cuba há de vencer e seguir firme com o socialismo para que seja espelho para o mundo e espelho para o Brasil.
Vejo sempre com muitos bons olhos todo esse trabalho feito pelos grupos de solidariedade com Cuba aqui. Eu tenho que só parabenizar a todos os que participam, direta e indiretamente nessa luta. Lembrando que nós estamos com duas grandes campanhas agora, uma para levar painéis solares, com a conta da Câmara de Comércio Brasil-Cuba, e a outra para compra de medicamentos e alimentos e outros mantimentos para Cuba. Então vamos seguir nessa solidariedade e agradeço muito aos brasileiros que apoiam essa causa. Viva Cuba!
A colaboração na campanha para doação de remédios para Cuba está sendo feita no Pix:
CNPJ: 11.586.301/0001-65
Agência: 1231
Operação: 1292
Conta Corrente: 000577559399-1
Instituto Cultivar
Caixa Econômica Federal
Para a compra dos painéis solares é no Pix:
CNPJ: 34.131.511/0001-64 (Câmara Empresarial Brasil-Cuba)
Banco do Brasil
Agência 4770
Conta corrente: 13844-4
¹Jacobo Árbenz Guzmán foi presidente da Guatemala. Sofreu um golpe militar em 1954, apoiado diretamente pela CIA após iniciar uma reforma agrária, sobretudo contra o monopólio de terras da empresa americana United Fruit.
² O Sistema SWIFT é uma rede global que conecta instituições bancárias de mais de 200 países. É uma forma segura de transferir recursos, muito usado para o turismo, por exemplo, mas Cuba, por conta do bloqueio econômico, sempre enfrentou dificuldade para acessar esse sistema, uma forma de dificultar o turismo na ilha.
³ O Período Especial em Cuba começou em 1989, com o fim da URSS e o fim do bloco soviético em 1991. O incentivo ao turismo internacional e o apoio da Venezuela com Hugo Chávez no início dos anos 2000 ajudou a mitigar a crise.

