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Taiguara: o sonho não acabou

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Ano desses, no Recife, num evento artístico que a produção denominou de “festival” (nada a ver com os velhos e eternos festivais da canção que revelaram nomes como o homenageado desta edição), aconteceu um fato digno de nota. Já pelas duas ou três da madrugada, depois de um interminável desfile de cantores e bandas de “axé” e “forró eletrônico”, entra no palco a última atração. Sob o som de um rock pesado, Bruno Gouveia, irado, brada: “ Vamos parar de fazer música com a bunda nesse país; vamos fazer música com a cabeça, com a inteligência. O povo brasileiro merece respeito”.  Contraditoriamente, o nome da banda de Bruno é Bikini Cavadão, mais adequado aos grupos criticados pelo cantor. O nome não corresponde à qualidade musical e ao conteúdo das letras apresentadas, mas foi uma brincadeira de adolescentes, pegou e assim ficou.

Bruno Gouveia tem razão em parte. Há em todos os recantos do país artistas anônimos produzindo música de qualidade, de verdade, de raiz popular. Só que não dispõem de espaço nos meios de comunicação. A estes, pertencentes a meia dúzia de capitalistas, lhes importa arte alienante, mera diversão, mercadoria que proporciona lucro fácil. Significa que o controle consolidado no regime dito democrático é mais eficiente e eficaz que o da ditadura, durante a qual se projetaram nomes de qualidade e comprometidos com o povo como Taiguara Chalar da Silva ou simplesmente Taiguara.

Gerado na música de raiz popular

O avô, Glaciliano Correa da Silva, era músico, poeta e artesão, capaz de construir seu próprio acordeão. O pai, Ubirajara Silva, exímio tocador de bandoneón (instrumento de fole utilizado no tango, semelhante ao acordeão). A família paterna é gaúcha, de origem camponesa.  A mãe, Olga Chalar, era cantora famosa no Uruguai. Sua família, de origem indígena, tornou-se camponesa e operária.

Buscando viver profissionalmente como músico, Ubirajara percorreu vários países sul-americanos e conheceu Olga no Uruguai. Casaram. Voltou para o Brasil quando Taiguara já tinha quatro anos. Frustrada por ter abandonado a carreira, Olga não vivia feliz. O casamento passou por várias crises até o casal se separar em 1960. Ela voltou para o seu país natal. Os filhos – Taiguara – então com 15 anos – e seu irmão Araguari, dois anos mais novo, ficaram com o pai, que se casou com Odette Luciana e se mudou com a família para São Paulo.

Os anos sessenta foram de muita riqueza musical no Brasil. Do Rio de Janeiro e São Paulo irradiavam para todo o país a bossa-nova, a MPB, o samba, o rock nacional. Foi em São Paulo que Taiguara começou, quando ainda era estudante de Direito do Mackenzie, reduto da direita universitária, mas sua cabeça estava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), onde estudavam figuras como Chico Buarque de Hollanda. Foi este quem levou Taiguara ao João Sebastião Bar, local frequentado pela esquerda de todos os naipes: comunistas, anarquistas, hippies, transviados, etc., onde rolava a boa música de todos os ritmos e gêneros.

Taiguara estava no meio de artistas que se posicionavam contra a ditadura militar – cada um a seu modo – e também se engajou nessa linha, tornando-se eclético quanto à forma musical, resultado de fontes diversas, sem esquecer a música dos pampas – região que abrange partes do Brasil, Uruguai e Argentina. Seguem a participação com êxito em vários festivais e os discos, todos altamente censurados. Mesmo assim, algumas criações passaram e se tornaram conhecidas nacionalmente. Destacam-se HOJE (1969), AI-5 dominando, prisões, mortes e exílios acontecendo. “Hoje/Trago em meu corpo as marcas do meu tempo/Meu desespero, a vida num momento/A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo”. Em 1970, a ditadura está cada vez mais forte e confiante e desafia os opositores “Brasil, ame-o ou deixe-o. Taiguara grava UNIVERSO NO TEU CORPO, no qual mostra cansaço, parece desistir da luta. “Eu desisto/Não existe essa manhã que eu perseguia/Um lugar que me dê trégua ou me sorria/E uma gente que não viva só pra si/Só encontro/Gente amarga mergulhada no passado/Procurando repartir seu mundo errado/Nessa vida sem amor que eu aprendi”.

Mas não desiste. Buscando, descobre que esse lugar sonhado está sendo construído bem perto de nós, em Cuba. Expressa a descoberta na música A ILHA, seu primeiro trabalho censurado e nunca registrado em disco. “Meu pai, já não posso mais/Viver nesse mundo em chamas, em chamas, chamas/Meu bem, eu te quero bem/Mas vou onde o amor me chama, me chama, chama/Livre só embaixo vou viver na ilha, na ilha/Onde meus iguais serão minha família, na ilha”. A descoberta lhe faz forte, otimista. É tanto que, em 1972, quando John Lennon anuncia o fim dos Beatles com a famosa frase “O sonho acabou”, Taiguara compõe TEU SONHO NÃO ACABOU, outro grande sucesso: “Hoje entrei na dança e não vou sair/Vem que eu sou criança não sei fingir/Eu preciso, eu preciso de você/Lá onde eu estive o sonho acabou/Cá onde eu te reencontro só começou/Lá colhi uma estrela pra te trazer/Bebe o brilho dela até entender….”.

Taiguara foi o compositor mais censurado na ditadura militar. A perseguição não se limitava ao veto a composições e à apreensão de discos. Os agentes se antecipavam, indo às cidades onde havia shows agendados, ameaçavam produtores, impediam as emissoras de rádio de divulgar o evento, inviabilizavam a apresentação. Foram dezenas de casos entre 1973 e 1974.

Em 1974, Taiguara resolve partir para o autoexílio, em Londres. Não está fugindo do combate; vai refazer as forças e as táticas. Na Inglaterra, dedica-se ao estudo da música e grava um álbum em inglês, pensando que a censura não vetaria, chamado “Let the children hear the music”, versão para o inglês do título da música já censurada: QUE AS CRIANÇAS CANTEM LIVRES. “E que as crianças cantem livres sobre os muros/E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor/E que o passado abra o presente pro futuro/Que não dormiu e preparou o amanhecer…”.  O disco foi totalmente censurado; foi uma ilusão, como ele mesmo reconheceu.

Passou poucos meses fora. Retornando ao Brasil, prepara o disco IMYRA, TAYRA, IPY, TAIGUARA. Além do conteúdo, altamente engajado, nesse disco consegue harmonizar brilhantemente jazz, bossa nova, influências indígenas, africanas e ibero-americanas. Sessenta e cinco músicos de excelência participaram das gravações, entre os quais Hermeto Pascoal e Wagner Tiso. Resultado: um grande prejuízo. O disco foi inteiramente censurado, milhares de cópias recolhidas e proibido o show de lançamento marcado para o dia 1º de maio de 1976 na região das Missões-Rio Grande do Sul.

Taiguara decide sair novamente do Brasil. Mas, agora, o destino é a África. Quer conhecer as raízes, as origens daquele povo sequestrado e que forçadamente se tornou essencial na formação do povo brasileiro. Na Suíça, pede carta de recomendação a Paulo Freire, que já trabalhara na implantação do seu método de alfabetização em países recém-libertados do colonialismo português.

Por ter encontrado ingresso mais fácil, entrou na Tanzânia. Ali, ele não foi se apresentar, mas aprender. Fazia anotações de tudo. Destacou do povo maasai, no interior, o respeito pela família, especialmente os mais velhos, as roupas multicoloridas bordadas e os colares das mulheres. Não gostou da capital, Dar es Sallam, que classificou de violenta e machista, onde ele, inclusive, apanhou de 10 homens por defender uma mulher que estava sendo espancada. Queria entrar em Moçambique, mas não conseguiu, provavelmente porque o país ainda vivia uma situação de guerra interna entre grupos favoráveis e contrários ao socialismo. Aproveitou a passagem pela África para adquirir instrumentos musicais indígenas, principalmente chocalhos e cangas. Estudou Marx, Engels, Fidel Castro e Che Guevara; voltou bem mais politizado.

A luta é prioridade

Retornando ao Brasil, em 1977, Taiguara prioriza a militância política e se engaja na luta por anistia, democracia, eleições diretas, etc. Ingressou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), foi colunista do jornal Hora do Povo, mas, apresentado a Luiz Carlos Prestes, dele não se afastou mais. Prestes rompera com o PCB, formando uma ala de esquerda, juntamente com Gregório Bezerra, a qual deu continuidade ao Partido, quando este, sob a direção dos reformistas se transformou em PPS, liderado por Roberto Freire.

Taiguara não se ligou a Prestes apenas politicamente, mas afetivamente, a ponto de lhe dar apoio financeiro e transformar sua casa em Santa Teresa (Rio) em quartel-general do ex-secretário geral do PCB, onde partilhavam tudo, desde estudos e discussões políticas, até o churrasco e o chimarrão como bons gaúchos. Os órgãos de segurança passaram a monitorar todos os passos de Taiguara, revelam documentos dos arquivos do SNI.

Música de classe para a classe operária

Com o falecimento de Prestes, no dia 7 de março de 1990, Taiguara tenta retomar a carreira musical profissionalmente com um novo projeto a serviço da classe operária. Muda-se para Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, para estar próximo do proletariado. Lança CANÇÕES DE AMOR E LIBERDADE, em 1984, no estilo de Imyra, Tayra, Ipy, pela gravadora Continental, mas com exigências coerentes com seu novo projeto. Discordou, por exemplo, que o lançamento fosse num hotel de luxo, como a gravadora costumava fazer. No Rio, o evento foi no Centro Comunitário do Morro do Borel.

Naturalmente, o disco não foi um sucesso de vendas, pois, se a censura estava mais branda, o poder econômico fazia esse papel nos meios de comunicação, especialmente na televisão, que se transformara no principal instrumento da mídia. De todo modo, três músicas ainda foram censuradas sob acusação de incentivar a luta armada: “Che Tajira”, “Mescla Racial” e “Voz do Leste”.

Embora tenha homenageado Cuba com a música “A Ilha”, vetada pela ditadura, Taiguara somente visitaria o país em 1992 no primeiro voo de solidariedade, organizado por Chico Buarque. Ficou encantado e voltou quatro vezes ao “primeiro território livre das Américas”.

Seu último disco BRASIL-AFRI foi mais voltado para as raízes africanas. Volta a homenagear Cuba na música NORMA e inclui também canções de amor para à nova esposa. No lançamento da sua última obra, a saúde de Taiguara já está abalada por um câncer na bexiga; passava por sessões de quimioterapia, tratou-se no Brasil e em Cuba. Faleceu no dia 14 de fevereiro de 1996. O corpo está sepultado no Cemitério da Saudade em Jacarepaguá (Rio).

Sua última letra, escrita no leito do hospital, é uma homenagem ao povo negro, ao povo brasileiro: “…O morro desce sambando frente aos mares/E um afrocanto banto nos devolve/A luta que cresceu com Zumbi dos Palmares/Milhões, Zumbi, saberão/Povo novo e livre, o brasileiro viu/Sua língua nascer dos quilombos….”.

 Zé Levino é historiador

 Fonte: os outubros de Taiguara. Janes Rocha, São Paulo, Kuarup, 2014

 

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