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Coreia, o inferno fica ao sul

“Ei, que tal vir comigo? Vou tratá-lo bem”, disse uma mulher claudicante de 76 anos de idade ao repórter Hyung-Jin Kim, próximo ao teatro Piccadilly, no bairro Jongno, em Seul, Coreia do Sul. A prostituta idosa é apenas uma das mais de 400 senhoras da região, conhecidas como as “damas de baco”, apelido resultante de uma popular bebida energética, Baccus, que elas tradicionalmente vendem aos idosos masculinos.

“Eu sei que não deveria fazer isso, mas ninguém diria que é melhor morrer de fome do que vir aqui”. Ela começou a vender Baccus há 20 anos. Cerca de dois anos depois começou a vender sexo e continua a fazê-lo para pagar por seu tratamento de artrite, que custa U$ 250 (cerca de R$ 780) por mês.

Ela disse que a maioria das mulheres da praça ganhava de U$ 168 a U$ 252 por mês, mas que as mais velhas (há entre elas idosas de até 84 anos de idade) cobram apenas U$ 8 por sexo. Uma precisa de dinheiro para cuidar da mãe doente, outra para um filho deficiente, já outra é analfabeta nesse dantesco espetáculo de avós, que ao invés de estarem agasalhando os netos no colo, exercem a sua degeneração moral e sexual em praça pública para poder sobreviver.

Essa realidade não é um caso isolado na Coreia do Sul. Pelo contrário. É a confirmação da falência de um modelo que lança ao abandono os seres humanos quando a sua força de trabalho não pode ser mais utilizada para mover a cruel engrenagem do processo produtivo capitalista. Mais que nunca, comprova-se aqui a afirmação do genial Karl Marx de que o capitalismo concentra riqueza e luxo em um polo e fome e miséria no outro.

República do suicídio

A outra opção que resta aos anciãos sul-coreanos é ainda pior. A Coreia do Sul, com 29,1 casos a cada 100 mil habitantes, é a nação do denominado mundo desenvolvido com maior taxa de suicídio. A segunda colocada, Hungria, acompanha de longe, com 19,4 casos a cada 100 mil habitantes.

A incidência dobra na terceira idade, consequência da inexistência de uma rede de proteção, disseminando um quadro de depressão crônica e aguda entre os idosos. “Quando os mais velhos ficam sem recurso, a ideia de se transformar em um peso para os seus filhos pode levá-los a tirar a própria vida”, afirmou Efe Ansuk Jeong, psicóloga e pesquisadora da Universidade de Yonsei, em Seul.

O sistema previdenciário sul-coreano foi criado apenas em 1987 e é muito deficitário. Quase metade dos sul-coreanos com idade de 65 anos ou mais tem renda inferior à metade da média nacional, e o índice de suicídio entre os idosos quase quadruplicou nos últimos 25 anos.

Umas vendem Baccus, oferecem o próprio corpo e dizem: “Estou com fome, não preciso de respeito, não preciso de honra, só quero fazer três refeições por dia”. Outras optam pela morte para não viverem em completa desonra. É uma dolorosa e diária escolha de Sofia.

Diferentemente do que propaga a grande mídia ocidental, é óbvio que, entre as duas Coreias, o inferno situa-se claramente ao sul.

Brasil, a bola da vez

Esse quadro avassalador está prestes a se instalar no Brasil, caso seja aprovada a reforma da previdência proposta pelo governo golpista de Michel Temer, a mando dos banqueiros e dos grandes empresários e latifundiários. O trabalhador braçal passará a ser uma figura absolutamente descartada na nossa Constituição.

Mesmo que atinjam os 65 anos de idade – o que está acima da expectativa de vida nas regiões mais pobres – raros serão os trabalhadores menos qualificados que conseguirão comprovar 25 anos de recolhimento ao INSS (atualmente, a exigência é de 15 anos). Isso para se aposentarem com o salário mínimo. Para se aposentarem com o teto (R$ 5.579) serão necessários 40 anos de contribuição. No caso dos empregos sazonais, como na construção civil, a regra em média é um ano de contribuição para cada dois anos trabalhado. Entre uma construção e outra, o operário se mantém fazendo bico ou às custas do seguro desemprego. Ou seja, terá que trabalhar 50 anos para comprovar 25 de recolhimento e só então se aposentar.

Os beneficiários do BPC (Benefício da Prestação Continuada) praticamente deixarão de existir com o aumento da idade de habilitação de 65 para 68 anos. Até lá já estarão todos mortos. Note-se que o BPC – benefício que atende a famílias que tenham renda per capita de até 1/4 do salário mínimo – é o maior instrumento de distribuição de renda do país. Em 2016, enquanto o bolsa família teve um aporte de R$ 26 bilhões, o BPC aportou R$ 39 bilhões. Serão 3,6 milhões de famílias de idosos pobres a serem atingidas. O nome que se dá a isso é genocídio com requintes de crueldade.

Dos cerca de 90 milhões de brasileiros ocupados, mais de 1/3 não contribui com a previdência social. Dos 2/3 contribuintes, muitos o fazem irregularmente. É essa a enorme legião de futuros idosos, candidatos a pedintes, prostitutas ou suicidas que serão espalhados pelo país, caso o povo não tome em suas mãos a missão de derrotar a PEC 287/2016 e expulsar do governo federal a quadrilha que quer aniquilar os nossos direitos e assaltar as riquezas produzidas pelas nossas mãos e nossas mentes.

Em tempo: a previdência não está falida. Os auditores fiscais da receita federal – autoridades maiores no assunto – provaram por A+B que a seguridade social permanece superavitária no Brasil, apesar da crise. Mas o governo continua sacando a descoberto 30% dessa receita, autorizado pelo Congresso, para pagar os serviços da dívida pública, ou seja, pagar com a miséria do povo trabalhador o luxo, as viagens, as farras e o lazer de um punhado de famílias de rentistas que não geram qualquer emprego e nem produzem uma cabeça de alfinete que seja e já nascem aposentados.

Pedro Laurentino, poeta e diretor do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Piauí

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1 comment

  1. Deus Carmo

    É isto mesmo, colega. Mas, ainda acho que vai correr muito sangue antes que a população do mundo se convença desta realidade, em razão do massacre diário da grande mídia. A elite está cercada no seu bunker, então a solução é partir pra cima dos colabodores da elite, ou seja a classe média e o próprios trabalhadores. Infelizmente não há outra solução, embora não seja reducionista e acredite em toda forma de luta.

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