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Criada Liga de Saúde Indígena do Pará

Para ajudar na saúde e defesa dos povos indígenas, foi criada a Liga Acadêmica Indígena do Brasil (Lasipa) na Universidade Federal do Pará. A fundação da Lasipa é fruto da iniciativa de Concimar Okitidi Sompré e de alunos dos cursos de medicina da UFPA, e tem por objetivo defender a saúde dos povos indígenas e lutar contra a apropriação indevida dos saberes indígenas pelos grandes laboratórios farmacêuticos.

A Verdade – A saúde indígena é um tema pouco explorado no Brasil. Quais as ferramentas da Lasipa para o avanço de discussões e ações acerca da saúde indígena?

Concimar Okitidi Sompré – Estamos rompendo um grande desafio com a criação da Lasipa, sendo que não existe nenhuma no Brasil. Seu objetivo é aproximar professores, profissionais da saúde em geral e pesquisadores, com estudantes e povos indígenas, reconhecendo a importância da saúde indígena, rompendo essa distância entre os saberes da academia e o conhecimento e cultura dos povos indígenas. Queremos trazer pessoas que já estão ligadas à pesquisa em saúde indígena, como João Guerreiro, que é médico, professor titular do Laboratório de Genética da UFPA, atua há 30 anos na área de saúde indígena, e que, apesar do tempo e da relevância do seu trabalho, poucas pessoas conhecem sua atuação, embora seja referência para pesquisadores de outros estados. A Lasipa terá que quebrar as barreiras que separam esses conhecimentos.

Desde que os europeus pisaram em nosso continente, crimes bárbaros vitimaram milhões de nativos. Esses ataques ainda estão presentes nas comunidades indígenas?

Sim, e isso passa despercebido pelas autoridades. Os povos indígenas ainda sofrem muito a questão dos assassinatos, as mulheres sofrem muito a questão do abuso, principalmente pela permanência da invasão das terras indígenas, de tomada e expulsão. Os indígenas têm essa profunda relação com o meio em que vivem e tudo isso é saúde. Quando sofrem algum ataque, isso mexe com toda a estrutura da sociedade indígena, seu bem-estar, por isso a liga é multidisciplinar, abrange desde a medicina até a psicologia. Aqui mesmo, no Pará, quando ocorreu a construção da hidrelétrica de Tucuruí, o povo Gavião foi retirado de suas terras. Porém, dentro do povo Gavião havia três aldeias, ou seja, três caciques que foram removidos para uma única reserva, desconsiderando a cultura e a autoridade de cada aldeia e cacique, e isso gerou inúmeros conflitos por muitos anos, tanto que, ainda hoje, repercute. Quando essa ligação (com a terra) é rompida, há um massacre emocional contra essas pessoas.

A medicina indígena é rica em conhecimento. Existe alguma resistência ou apropriação das grandes corporações farmacêuticas para com a medicina indígena?

Sim e essa é uma das grandes barreiras que teremos que romper nesse projeto de pesquisa, fazendo com que as pessoas entendam a importância da medicina milenar dos povos indígenas. Também há um conflito muito grande, pois há vários estudiosos que vêm para dentro das comunidades indígenas para retirar aquilo que é conhecimento empírico dos povos, se apropriando dos nossos conhecimentos e transformando em remédios alopáticos. Patenteiam as descobertas das plantas, da erva medicinal, as reproduzem em laboratório e esquecem que o indígena foi o pioneiro nesse conhecimento. Nós queremos a valorização da medicina tradicional, dos remédios tradicionais dos povos indígenas. Respeitar, levar adiante um projeto indígena em que se possa estar registrando cada passo, mas não para fundo de laboratório farmacêutico, mas sim como “farmácia indígena”, ou seja, um arcabouço de conhecimentos indígenas para os próprios povos indígenas.

Até que ponto as comunidades indígenas serão prejudicadas por essa política de cortes na saúde do Governo Temer?

O governo Temer tem agido de forma carrasca, desigual e desumana. Em se tratando de povos indígenas, quando se cortam recursos, afeta lá na base, pois os povos indígenas têm uma saúde separada dentro do próprio SUS. Há comunidades indígenas que necessitam de atendimento em seu próprio local de moradia e os profissionais de saúde precisam estar habilitados para atender dentro das comunidades. E a gente tem apenas o atendimento primário, ou seja, não há o atendimento em saúde de média e alta complexidade. Se o indígena necessita de uma cirurgia urgente, não há esse atendimento, ele tem que entrar na fila do SUS e esperar anos dentro de uma reserva indígena para ser removido. O governo Temer não representa os povos indígenas de nenhuma forma. Pelo contrário, o que a gente vem percebendo é que ele vem retirando os poucos direitos dos povos indígenas, vem retirando aquilo que já foi conquistado. Isso aumenta o extermínio dos povos indígenas no Brasil.

Qual a perspectiva, nos próximos anos, de ampliação e estruturação da Liga, tanto em nível regional quanto nacional?

A gente vive num país de origem indígena, onde a população desconhece e não reconhece a existência desse povo. Nós queremos – com nossa independência, pois não somos vinculados institucionalmente à UFPA – servir de exemplo para outros estados conhecerem e promoverem a saúde indígena, e eu vejo que vai ser um sucesso. A liga está se estruturando, e vamos continuar trabalhando, defendendo a troca de saberes, e sei que isso vai repercutir pelo Brasil inteiro.

Redação Pará

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