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Psicotrópicos para crianças não é solução

Nunca houve tantos diagnósticos psiquiátricos direcionados aos jovens em contextos de formação social, cultural e psíquica. Características que deveriam fazer parte da atitude constituidora da identidade são tomadas como inapropriadas e indesejadas, passíveis de patologização e medicalização.

As reflexões empíricas de Paulo Freire, que visavam constituir uma educação libertadora e que superasse o estado de oprimido do estudante, encontra grande obscuridade em um mundo capitalista que busca a todo custo criar sistemas de opressão manipulativas e segregadoras.

As indústrias farmacêuticas lucram absurdamente com níveis alarmantes de diagnósticos psiquiátricos. Nas mãos do capital, a juventude se configura, somente, como uma peça, um objeto descartável que é necessário como massa de manobra para seu crescimento individual.

O Brasil disputa o topo dos países que mais distribuem medicamentos da substância metilfenidato do mundo. A Ritalina é o fármaco mais utilizado e surge como uma promessa de resolução dos problemas de psicopatologias, como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA). Este é um medicamento tarja preta que injeta no cérebro intensas substâncias neuroquímicas, aumentando a concentração de dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer. A problemática é que, frente a situações de vida em que o objeto de desejo e prazer esteja associado ao consumo, ao lucro, aos resultados de relações líquidas e insubstanciais, encontramos um impacto com a realidade. O prazer, portanto, só poderá ser alcançado por meio da pílula mágica. É válido ressaltar que esta narrativa não desqualifica o sofrimento que cada pessoa esteja passando, porém, a alternativa máxima pelo medicamento precisa ser questionada e o seu serviço destrutivo ser posto em xeque.

A revista Carta Capital publicou em 2015, que a dispensação da ritalina, de acordo com o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, é alarmante, sendo que a faixa etária com maiores índices são crianças e adolescentes. Em proporcionalidade, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária demonstrou que 8% a 12% das crianças do mundo já foram diagnosticadas com TDAH e houve um aumento de 775% na utilização da ritalina em uma década no Brasil.

As pesquisadoras Maria Aparecida Moysés e Cecília Collares demonstram há anos a patologização da educação e o risco de um genocídio do futuro, e que os problemas inerentes à vida (relações sociais, crises de identidade) são tomadas pelo saber médico e dicotomizadas em saúde e doença. Em matéria na Unicamp, quando questionada sobre quais as possíveis alternativas para os casos supracitados, Maria Moysés enfatizou que a problemática do TDHA se configura em consonância com as questões socioculturais e que a administração de psicotrópicos para crianças e adolescentes não será a solução, e que, por além, instaura-se um perigo de se exterminar a subjetividade e impedir a construção de novos e diferentes futuros.

Em se tratando de políticas públicas, Campinas é a pioneira nestas reflexões, possuindo em seu processo de dispensação do metilfenidato um protocolo técnico. Este oportuniza que a equipe de saúde, mais necessariamente psiquiatras e neuropediatras, tenham em mãos tanto critérios técnicos, como principalmente humanos, para prescrever esta substância.

Pernambuco atualmente figura-se como o primeiro Estado do Brasil a possuir uma norma técnica (25/2013) na qual busca aprofundar o processo de diagnóstico e acompanhamento dos usuários com profissionais especializados em saúde mental que trabalhem em equipe multiprofissional e constante inserção na Rede de Saúde Psicossocial (RAPS).

Wellington Albuquerque Filho, psicólogo e militante do MLC

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